Em nova cartada, dona da Le Lis Blanc contrata Alvarez & Marsal

Em nova cartada, dona da Le Lis Blanc contrata Alvarez & Marsal

Irany Tereza

04 de maio de 2022 | 05h20

Restoque, dona da Le Lis Blanc, busca transformar credor em acionista   Foto: André Lessa/AE

A Restoque acaba de contratar a Alvarez & Marsal, consultoria global especializada em reestruturação, em mais uma frente da marcha contra a insolvência que vem reunindo empresas de varejo, em especial no setor de vestuário. O caso da companhia, que lidera o segmento premium com marcas como Le Lis Blanc, John John, Bo.Bô e Dudalina, está se transformando, aliás, numa espécie de emblema dos efeitos da pandemia sobre o comércio.

Em junho de 2020, foi uma das primeiras a anunciar acordo de liquidação extrajudicial para alongamento das dívidas. Em março deste ano, recebeu da WNT Gestora de Recursos proposta para transformar credores em acionistas, como adiantou a coluna do Broadcast. A contratação recente da gigante A&M faz parte do esforço de transformar dívida em participação acionária, apurou a Coluna, mas numa negociação que promete ser bastante difícil.

Alegando exigências de confidencialidade, a Alvarez & Marsal não quis falar sobre o caso. Mas, vale lembrar que, em meados do ano passado, a consultoria concluiu um minucioso estudo em que listava pedidos de recuperação (judicial e extrajudicial) de empresas de moda – entre elas as do grupo Restoque e outras igualmente famosas, como Camisaria Colombo, Fatto a Mano, Cavalera, entre outras – para expor a gravidade da crise e prever que, um momento assim poderia também ser o estopim para ondas de fusões e incorporações.

Dívida da Restoque beira  R$ 1,5 bilhão

“Existe uma interseção na qual as empresas capitalizadas encontram companhia em recuperação judicial, que podem ser um target (alvo) muito atraente” disse, ao Estadão/Broadcast, na ocasião, o executivo Sussumo Eguti, da área de fusões e aquisições a A&M. Ainda não há nenhuma sinalização sobre venda de ativos, mas a proposta de incorporar novos titulares à composição acionária da empresa parece interessante a credores e debenturistas que estão hoje no fim da fila de um longínquo pagamento da dívida, que beira R$ 1,5 bilhão.

“É uma solução bem viável para empresas de médio e grande porte. O setor está ainda na fase aguda de uma crise. Falando em tese, uma empresa que fatura hoje, digamos, R$ 60 milhões, em tempos áureos já teve receita de quase R$ 1 bilhão. Estamos acompanhando, nos últimos dois anos, várias empresas em dificuldades. E, sem dúvida, haverá ainda muitos pedidos de recuperação judicial no próximo semestre”, disse à Coluna Daniel Amaral, sócio do escritório de advocacia DASA.

A troca de dívida por ações será uma aposta no investimento, na verdade. Amaral costuma dizer que o escritório funciona como uma espécie de termômetro. Também especializado em reestruturação, passa por ondas de procura de empresas de um determinado setor. A bola da vez é o varejo de vestuário.

Quatro casos assessorados pela DASA já estão em vias de pedir recuperação judicial, o que deve ocorrer nos próximos três meses. Também por contrato de confidencialidade, Amaral não concordou em listá-los. Mas, são empresas de moda masculina e unissex, com faturamento médio anual em torno de R$ 50 milhões. A DASA também atuou no início do processo de recuperação judicial da Fatto a Mano e da Camisaria Colombo. Não está mais nos dois casos. Por quê? É confidencial…

A Restoque lidera o mercado premium de vestuário com uma participação pequena. Em 2020 detinha 5% de um segmento extremamente pulverizado, como informou à Coluna, em junho daquele ano, o CEO da empresa, Livinston Bauermeister. Foi logo após o pedido de recuperação extrajudicial, instrumento recente no Brasil, que permite uma negociação mais ágil da dívida, sem a burocracia dos processos de RJ.

Na época, o executivo se mostrava bastante otimista, prevendo que a crise poderia, inclusive, significar novas oportunidades de consolidação. “Os grandes grupos vão aguentar o tranco, mas provavelmente butiques médias não vão passar. Estamos vendo como oportunidade para aumentar o nosso market share”, afirmou na ocasião. Procurada agora para falar sobre o processo e a contratação da A&M, a empresa não quis se pronunciar.

Setor de vestuário deve caminhar de lado este ano

A expectativa é de que o setor caminhe de lado em 2022. Primeiro porque, apesar do relaxamento das regras de isolamento social, a pandemia ainda não passou. E, para piorar, a economia patina, a inflação galopa e o câmbio segue pressionado. Gastos operacionais, como aluguéis,  que foram reduzidos de comum acordo durante o período de isolamento, retornaram ao patamar anterior, e dívidas financeiras postergadas voltaram a ser cobradas.

“O segmento de vestuário vai continuar prejudicado pela escalada de preços de produtos fundamentais. Em tese, o vestuário premium sofre menos, mas não podemos esquecer que as viagens internacionais estão voltando. Ou seja, além da concorrência da própria viagem, há a opção de os consumidores comprarem vestuário no exterior”, diz Fernando Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), que prevê “um ano duro”.

 

Este texto foi publicado no Broadcast no dia 03/05/22, às 16h09.

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