Em processo de IPO, CBA alerta que pode reduzir produção por causa da crise hídrica

Em processo de IPO, CBA alerta que pode reduzir produção por causa da crise hídrica

Matheus Piovesana

06 de julho de 2021 | 17h00

Fábrica da CBA em Alumínio (SP)  Foto: Robson Fernandjes/ Agência Estado

Mesmo gerando praticamente toda a energia que consome, a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) pode ser atingida pela crise hídrica que preocupa a indústria. Com dependência de geração hidrelétrica, a companhia pode se ver obrigada a reduzir a produção de alumínio para evitar um “apagão” ou os custos milionários da compra de energia no mercado de curto prazo.

Nos documentos de sua oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês), a empresa do Grupo Votorantim afirma que havia planejado o uso de energia neste ano com base na produção menor por suas usinas. A CBA esperava que a produção das unidades, a chamada garantia física, caísse em 22% no Mecanismo de Realocação de Energia (MRE), ferramenta do setor que divide riscos hidrológicos entre os agentes.

Esse cálculo não considerava o nível crítico a que os reservatórios da região Centro-Sul do País chegaram neste início de inverno – todas as usinas da CBA ficam na região. Com isso, o parque de geração da companhia, que tem 21 hidrelétricas com capacidade para gerar 1,4 gigawatts de energia, pode não entregar toda a eletricidade de que a produtora de alumínio necessita. Isso deixa a CBA com duas saídas: comprar energia de terceiros, pagando mais caro, ou colocar o pé no freio em suas fábricas.

“A companhia conhece a volatilidade do mercado de energia no Brasil e já vivenciou cenários de crise hídrica semelhantes ao que se espera para o ano de 2021”, afirma a CBA. Segundo a companhia, em caso de redução da produção, seria necessário importar metal para garantir o atendimento aos clientes.

Gerar a energia que as operações consomem é parte da cartilha das chamadas indústrias eletrointensivas, que necessitam de muita eletricidade em seu processo produtivo. O prospecto da oferta da CBA mostra que, nesse grupo, ela é acompanhada no Brasil por nomes como CSN e Vale. As duas têm forte dependência de hidrelétricas, mas também geram energia eólica ou térmica.

Usinas térmicas parecem pouco cabíveis na proposta da CBA de produzir “alumínio verde”, com baixa pegada de carbono. Na energia eólica, a empresa vai construir um parque com a Votorantim  Energia e a CPP Investments. Com capacidade de 150 MW de geração, a unidade vai substituir hidrelétricas cujas concessões vencem em 2023. Outros 520 MW em projetos eólicos e solares estão sob análise – parte pode ser financiada pelos recursos captados no IPO.

Recuperação

O impacto da crise hídrica viria no momento em que a CBA vê recuperação na demanda. No primeiro trimestre, o aumento nos preços médios do alumínio e nas vendas da companhia elevou em 43% sua receita líquida, para R$ 1,8 bilhão. A geração de caixa medida pelo Ebitda, no critério ajustado, subiu 123%, para R$ 360 milhões.

Na linha final dos resultados, a CBA teve prejuízo de R$ 133 milhões, por conta de uma baixa no valor contábil de suas operações de níquel. Entre janeiro e março do ano passado, a empresa havia lucrado R$ 47 milhões.

Os resultados são fruto de um processo de melhoria dos números da empresa, considerada a ‘joia da coroa do Grupo Votorantim. Um gestor familiarizado com a companhia afirma que a CBA passou por uma ampla redução de custos nos últimos anos, o que envolveu a produção da própria energia. “Eles sofreram, e a alta no preço das commodities ajudou”, diz o profissional.

Na Bolsa de Londres, a tonelada do alumínio chegou a US$ 2.428 em pregões recentes. No começo de 2020, ficaram, na média, em US$ 1.690 a tonelada. A retomada dos setores de construção e automóveis ajudou a impulsionar a demanda e os preços. O maior apetite da China pelo insumo enxugou a oferta global, o que também ajudou.

Oferta bilionária

Se colocados todos os lotes de ações, a oferta da CBA pode movimentar R$ 3,037 bilhões, considerado o teto da faixa de preço definida pela empresa, que vai de R$ 14 a R$ 18. A oferta primária, em que os recursos vão para o caixa da companhia, pode movimentar até R$ 1,125 bilhão. A CBA pode chegar ao mercado avaliada em R$ 10,7 bilhões.

Cerca de 70% do dinheiro arrecadado na oferta primária irá para investimentos como a construção de um parque de energia eólica e o aumento da capacidade de produção. Os outros 30% serão utilizados para aquisições, possivelmente de menor porte e ligadas à reciclagem de alumínio.

O período de reserva das ações da CBA no IPO vai até o próximo dia 12. No dia 13, será definido o preço por ação da companhia. As ações começam a ser negociadas na B3 em 15 de julho, sob o código “CBAV3”.

O Bank of America é o coordenador líder da oferta, e BTG Pactual, Bradesco BBI, Citi, XP e UBS BB também atuam como coordenadores.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 05/07/2021, às 16h21.

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