Em tempos de pouca doação, quem faz só uma refeição no dia compartilha mais

Em tempos de pouca doação, quem faz só uma refeição no dia compartilha mais

Talita Nascimento

20 de abril de 2021 | 12h00

Famílias que não conseguem cestas básicas têm recebido quentinhas. Mas, numa família de quatro pessoas, só chegam duas, para serem compartilhadas FOTO: TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO

 

A ajudante de cozinha Leidiane Ferreira da Silva desenvolveu uma estratégia para os tempos de pandemia. Por volta das 17h ela e sua família almoçam – e aquela será a última refeição do dia. “Agora é tomar um banho e dormir”, diz. “Como não dá para almoçar e jantar, a gente deixa pra comer bem tarde.” O que Leidiane tenta driblar, é a fome. Moradora do Parque Santo Antônio, na região do Capão Redondo, ela perdeu o emprego em um restaurante em fevereiro. Mora com o marido, também desempregado, e três dos quatro filhos. “Já passei aperto, mas a situação em que eu me encontro, nunca tinha vivido”, afirma. “Nem lembro da última vez que fui ao mercado.”

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Mesmo com tanta dificuldade – que inclui conta de água e de luz atrasadas e a agonia com o recente aumento do gás -, Leidiane faz parte de uma grande parcela de brasileiros que, mesmo tendo pouco, doam. Estudo do Instituto Locomotiva obtido com exclusividade pelo Estadão/Broadcast mostra que 86,3 milhões de brasileiros receberam algum tipo de doação na pandemia. Do total, 62% também doaram. “A frase que mais ouvimos na periferia é: ‘na favela, se o seu vizinho tem comida, ninguém passa fome'”, diz Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva. Assim, das doações que Leidiane recebe, um pacote de macarrão vai para uma vizinha, meio pacote de arroz para outra, “… e assim vai indo, esperando que chegue mais”, diz ela.

Capacidade de atendimento da Cufa passou de 16 mil pessoas por mês para 2,5 mil

A necessidade dessa solidariedade de vizinhança cresceu desde o último trimestre de 2020. Isso porque as grandes doações de empresas diminuíram. “Quando o comércio reabriu pela primeira vez, veio uma falsa sensação de normalidade, as empresas sumiram”, diz Marcivan Barreto, presidente da Central Única das Favelas (Cufa), que atende 250 favelas em São Paulo. Se até outubro a Cufa conseguia atender 16 mil pessoas por mês no Estado, hoje chegam a, no máximo, 2,5 mil. Para fechar a conta, são priorizadas famílias com mais crianças, por exemplo.

Gidalva Souza Correia, desempregada e voluntária na Cufa vê isso na prática. “A gente vai fazendo assim: hoje dá pra uma família, daqui 15 dias, dá para outra. E aí quem recebeu, divide com quem não ganhou”, diz ela. “A gente fala que a covid está matando muita gente, mas de fome ninguém vai morrer, não.”

Para amenizar a situação, a organização passou a oferecer marmitas a quem não consegue receber cesta básica. “Só não consigo dar quatro quentinhas a uma família de quatro pessoas”, diz Barreto. “Dou duas, para dividir.”

Para Meirelles, sociedade civil garantiu segurança alimentar à população

Segundo Carola Matarazzo, diretora executiva do Movimento Bem Maior, o período mais crítico foi o de janeiro a março, com o fim do auxílio emergencial. Com a fome nos noticiários, começaram a voltar algumas doações – muito longe das do início da pandemia – e a ajuda do governo, mas em menor escala.

Meirelles, do Locomotiva, diz, porém, que foi a sociedade civil quem garantiu o mínimo de segurança alimentar à população. “Instituições religiosas, não religiosas e grandes empresas cobriram o vácuo deixado pelo governo nos três meses sem auxílio emergencial”, diz. No estudo realizado de 21 a 22 de março, a instituição constatou que 74% dos brasileiros que receberam ajuda na pandemia disseram que faltaria dinheiro para comprar comida, se não tivessem recebido as doações. Foram feitas 1.620 entrevistas telefônicas em 72 cidades de todos os Estados do País.

Para ele, o programa do governo também teve falhas sérias. “Foram negados pedidos de auxílio a pessoas que moravam na mesma casa”, diz Meirelles. “Mas é muito comum que várias famílias coabitem na mesma casa, nas comunidades”.

Dados da Fundação Getúlio Vargas também mostram que, entre os mais pobres, 40% não acessam a internet. Segundo o IBGE, 7% da população também não têm celular. Ou seja, parte dos beneficiários do auxílio emergencial só poderá sacar a primeira parcela, a partir do fim do mês. Até lá, só por meio do aplicativo Caixa Tem.

Além disso, o valor do auxílio é metade do disponibilizado no ano passado. “Está longe de resolver o problema”, afirma Meirelles. “Se o anterior não resolveu, o atual não resolve. Portanto, quem tiver condições de doar, continue doando.”

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 16/04/2021, às 08:00:29.

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