Emperra negociação entre BNDES e companhias aéreas para socorro na crise

Cristian Favaro e Fernanda Guimarães

13 de abril de 2020 | 13h45

São Paulo, 13/04/2020 – Quase duas semanas depois de iniciadas as conversas para aporte pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) nas companhias aéreas – Azul, Gol e Latam -, as negociações estão travadas. No momento, as discussões em torno da liberação dos recursos, que serão utilizados pelas empresas para atravessarem a crise trazida pelo novo coronavírus, que colocou em xeque todo o setor, estão paradas em torno do teto de participação que o banco estatal poderá ter nas companhias, o que provocará uma diluição dos atuais acionistas. Outro ponto é a definição do valor do preço do exercício (strike price) do bônus de subscrição, versão brasileira da ‘stock purchase warrants’, conforme fontes próximas às negociações.

Para essas negociações, a Azul teria contratado o Itaú BBA e a Latam o BTG Pactual, apurou o Broadcast. A Gol, por outro lado, estaria negociando diretamente com o banco de fomento. A percepção até aqui é de que o BNDES tem sido pouco flexível na mesa de negociação e tenta impor aos acionistas das companhias aéreas uma diluição de até 30%. Para as empresas, por outro lado, o aceitável seria algo pela metade, ou seja, de 10% a no máximo 15%.

Com a ação das empresas aéreas derretida por conta da pandemia, que restringiu a circulação das pessoas e fechou as fronteiras de países, fazendo com que parte considerável da frota das companhias ficasse no chão, as empresas querem melhor negociação em torno do preço do exercício do papel, dado todo o contexto atípico da crise. O BNDES quer o preço de conversão próximo ao que está hoje, ou seja, com o banco capturando o valor do papel distorcido pela crise, o que as aéreas não têm concordado. Uma das propostas que foi colocada na mesa seria a média do preço das ações nos últimos dois anos. “Não queremos que o BNDES dê esses recursos, mas da forma que está oferecendo está sendo muito punitivo para os acionistas”, disse uma fonte.

Antes da crise, uma fonte lembra que as aéreas tinham acesso a crédito, pagando, por ano, de 6% a 10% em dólar com um prazo de vencimento de cinco a sete anos. Com as condições apresentadas pelo BNDES hoje, o empréstimo seria o correspondente a mais de 15% ao ano. Para ajudar nessa queda de braço, fontes de mercado acreditam que será necessário um apoio por parte do governo. Isso porque, comentam, os profissionais do BNDES acabam trabalhando dentro da burocracia do banco e ficam de “mãos atadas” diante de preocupações se no futuro sofrerão questionamentos na pessoa física sobre o empréstimo realizado.

Apesar dessa preocupação, outra fonte que também acompanha do lado das empresas nas negociações disse que o banco quer evitar uma situação insustentável para as empresas ao liberar uma linha com preço baixo e prazo longo de amortização. Ele ponderou, entretanto, que até o momento o banco não chegou a por sobre a mesa mais detalhes sobre essas questões e que tais condições ainda deverão ser discutidas. Mais próximo de certo, segundo a fonte, é a estruturação em formato de debênture com subscrição e o tamanho da linha de crédito, de R$ 3 bilhões pra cada aérea. Uma exigência do BNDES tem sido de que os recursos sejam utilizados nas operações das aéreas dentro do Brasil.

Ao contrário do que tem sido ventilado no mercado, fontes próximas das negociações explicaram que não se tratará de uma dívida conversível, mas de um bônus de subscrição. “A grande diferença da debênture do bônus de subscrição é que o bônus exige um desembolso por parte do investidor que está fazendo a subscrição?, explicou esta fonte. Ele destacou que de fato vai haver uma diluição da participação do acionista, mas que isso não virá de graça.

Nesta semana, o presidente da Gol, Paulo Kakinoff, em teleconferência com analista e jornalistas, afirmou que os debates com o banco devem convergir para um resultado final nas próximas duas semanas. Apesar da espera, ele destacou que a empresa tem caixa suficiente para esperar o fim do processo com tranquilidade e sem eventuais problemas de liquidez – cenário parecido para a Gol e Azul.

Procurados, BNDES, Gol, Azul e Latam não comentaram.

 

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