Empresas com governança madura farão melhor gestão da crise, diz presidente do IBGC

Empresas com governança madura farão melhor gestão da crise, diz presidente do IBGC

Fernanda Guimarães

30 de março de 2020 | 11h20

Foto: Divulgação/IBGC

As companhias que fizeram a lição e arrumaram a casa em termos de governança corporativa têm mais ferramentas para atravessar a crise causada pela pandemia do novo coronavírus. Segundo o presidente do Conselho de Administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Henrique Luz, as empresas com governança mais madura possuem Conselhos ágeis e bem formados, características que ajudarão na tomada de decisão e na busca de soluções em momento de crise. Para ele, as empresas precisam compreender o momento em que o mundo vive e colocar a saúde das pessoas no primeiro plano. Do lado financeiro, o conselho de Luz  é preservação do caixa.

“A companhia que possui essas características de governança saberá fazer uma boa gestão da crise e de seus impactos, pois terá os melhores processos e as melhores ideias, oriundas da diversidade de opiniões, para orientar sua tomada de decisões, sempre considerando os princípios éticos da governança. A cidadania é o inverso do egoísmo ou dos interesses exclusivamente financeiros. Manter a governança ativa, recorrer a ela a todo o momento como apoiadora nesse processo para navegar pela tempestade é o mais importante”, afirma, em entrevista ao Broadcast.

Na semana passada, o IBGC fez sua primeira assembleia com associados de forma virtual, diante do isolamento social para conter o contágio do vírus, novo contexto que tem trazido mudanças na forma de trabalhar em todo o mundo. A experiência deu certo: participaram 45% da base de associados. Mais de mil votaram na eleição, feita remotamente, e que elegeu o novo conselho da entidade. “Isso demonstra engajamento e interesse. Percebemos, com isso, que o mecanismo que utilizamos foi assertivo”, afirma Luz. A assembleia do IBGC está sendo apontada como a primeira 100% online do Brasil e ocorre em um momento que as empresas de capital aberto estão preocupadas em como cumprir a obrigação de realização de assembleia com acionistas neste momento de quarentena.

Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista:

Broadcast: Qual conselho o senhor daria às empresas que estão com dificuldade de arrumar a casa para conseguirem lidar com a crise?

Henrique Luz: O conselho que podemos dar é, em primeiro lugar, termos um espírito enorme de cidadania, de saber compreender tudo que estamos vivendo, colocando em primeiro lugar a saúde e o bem-estar das pessoas. No que toca aos aspectos de natureza financeira, preservando o caixa. Outro ponto é que a empresa esteja preparada com um bom conselho de administração. Experiente, diverso – com formações e experiências diversas, para que possam orientar e dar suporte à diretoria executiva na tomada de decisão. A cidadania é o inverso do egoísmo ou dos interesses exclusivamente financeiros. Manter a governança ativa, recorrer a ela a todo o momento como apoiadora nesse processo para navegar pela tempestade é o mais importante.

Broadcast: De que forma a governança corporativa se coloca como uma ferramenta importante para as empresas e investidores nesse momento?

Luz: Os desafios surgem exatamente nestes momentos de crise. E as principais questões que surgem, tanto em conselhos de administração, quanto na liderança executiva é como nossos funcionários e as pessoas ligadas à nossa organização, de alguma forma, estão sendo tratadas. Como está sua saúde e seu bem-estar. Neste sentido, os princípios da governança, que são transparência, equidade, responsabilidade corporativa e prestação de contas, são fundamentais e devem ser exercidos neste momento. Os princípios e as melhores práticas de governança corporativa são e estão sendo fundamentais para as empresas neste período desafiador.

Broadcast: E do lado financeiro?

Luz: Além das pessoas, agora é o momento dos administradores se debruçarem sobre o caixa e se precaverem de forma a utilizar o caixa para soluções. Atrasar capex possíveis e projetos não essenciais e, ao mesmo tempo, acelerar projetos essenciais voltados à inovação que possam ajudar a empresa no pós crise. Outro ponto importante em que os administradores devem atuar é na construção de cenários possíveis que a empresa poderá enfrentar, de acordo com o mercado e com mudanças no perfil e comportamento do consumidor, no meio e após a crise.

Broadcast: As empresas podem acabar deixando de lado boas práticas de governança em um período como esse?

Luz: Não há esse risco. A governança não pode ser atropelada pela crise, pois ela é justamente uma das maneiras pelas quais esse momento de incerteza pode ser superado. O papel do conselho é justamente estar próximo da diretoria executiva para a tomada de decisões.

Broadcast: De forma prática, como a governança ajuda nesse momento?

Luz: Existem setores que estão sofrendo inicialmente muito mais do que outros. O varejo, por exemplo, está tendo uma queda muito drástica em suas atividades. De toda a forma, a crise chegará para todos, de formas distintas. Diante da crise, é preciso agir de forma mais ativa e emergencial, de forma a identificar formas com que a crise possa ser vencida e isso é governança também. A empresa que possui uma governança mais madura possui um conselho ágil, que se reúne periodicamente e que possui diversidade de formação, de opiniões e de experiências. A companhia que possui essas características de governança saberá fazer uma boa gestão da crise e de seus impactos, pois terá os melhores processos e as melhores ideias, oriundas da diversidade de opiniões, para orientar sua tomada de decisões, sempre considerando os princípios éticos da governança.

Broadcast: O IBGC fez sua primeira assembleia online. Como o senhor avalia a experiência?

Luz: Foi a primeira assembleia virtual do País e consideramos um sucesso. Nossa Assembleia Geral Ordinária (AGO) teve participação recorde, com 45% da base de associados exercendo seu direito de voto – foram 1193 votos, o que demonstra engajamento e interesse. Percebemos, com isso, que o mecanismo que utilizamos foi assertivo. Durante a transmissão online, tivemos cerca de 150 associados participando ativamente, inclusive com perguntas pertinentes. Vale lembrar que o IBGC é uma organização sem fins lucrativos. Porém, mesmo se considerarmos as assembleias presenciais de companhias abertas, é raro ver tantos participantes presentes. Acreditamos que este é um exemplo para outras empresas e instituições, pois mostramos que é possível interagir e dialogar, a partir de uma dinâmica diferente e desafiadora.

Contato: fernanda.guimaraes@estadao.com
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