Empresas montam comitê de retomada e se preparam para o pós-pandemia

Empresas montam comitê de retomada e se preparam para o pós-pandemia

Aline Bronzati, Luciana Collet, Circe Bonatelli e Talita Nascimento

22 de abril de 2020 | 11h36

O comércio permanece fechado no centro do Rio de Janeiro, como medida de prevenção contra a propagação do Covid-19. Na foto passageiros aguardam para embarcar no VLT na estação Candelaria no centro do Rio. FOTO: WILTON JUNIOR / ESTADÃO

Empresas de diferentes setores e bancos começam a se organizar e debater a possível volta à normalização dos negócios, em um movimento pós-crise coronavírus no Brasil. Comitês de retomada e a realização de testes são algumas das ações que estão sendo implementadas, enquanto o presidente Jair Bolsonaro endureceu a crítica às medidas de isolamento e alguns governadores preparam planos para uma saída gradual da quarentena, que colocou boa parte dos brasileiros dentro de suas casas para combater o surto da doença.

As ações no setor corporativo até então puxadas, principalmente por empresas que trabalham com serviços essenciais, ganharam reforço de um coro vindo de outros setores que clamam por retomarem seus negócios diante dos prejuízos acumulados até aqui. Culmina ainda com a chegada do oncologista Nelson Teich para chefiar o Ministério da Saúde no lugar de Luiz Henrique Mandetta. Defensor de testes em massas, ele prometeu que não ocorrerá uma mudança brusca nas medidas de isolamento social adotadas até então. Enquanto o governo não toma a liderança do processo, diferentes áreas têm voltado à ativa. Indústrias no Rio Grande do Sul, por exemplo, têm voltado ao trabalho nos últimos 15 dias.

A preparação para uma possível retomada no Brasil acompanha uma realidade já vista na Europa, que ultrapassou a marca de 1 milhão de casos de coronavírus e mais de 100 mil mortes. Diversos países começam cautelosamente a reabrir negócios não-essenciais, ancorando-se na sinalização de autoridades de saúde de que o surto estaria sob controle. Enquanto a Dinamarca reabriu escolas e negócios, na Áustria, as lojas poderão voltar a atender a partir de maio e a Alemanha segue na mesma direção, com a retomada das atividades a partir desta semana.

No Brasil, porém, o número de casos confirmados do novo coronavírus ainda segue em aceleração, assim como a quantidade de mortes registradas até o momento. O País já está superou os 43 mil infectados, com mais de 2.700 mortes, conforme os dados mais recentes das secretarias de saúde. Apesar de os números ainda em ascensão, as empresas, que no último mês se dedicaram a implementar o home office rapidamente e a gerenciar o reflexo da crise nos negócios, começam a discutir a volta à normalidade.

Eduardo Gouveia, investidor e conselheiro de grandes companhias e fintechs, diz que, desde a semana passada, tem começado um movimento de estruturação de comitês de retomada nas empresas, tentando prepará-las para a volta dos negócios. “Depois dos comitês de crise e manutenção de receitas, a discussão mais recente é sobre a retomada, pensar um pouco como será um novo normal. É uma discussão grande e que olha para frente, como as empresas vão se posicionar”, diz ele.

Nesse sentido, a Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop) cobrou das autoridades, na segunda-feira, 20, um plano para a reabertura gradual do comércio, considerando prejuízos da ordem de R$ 20 bilhões em cerca de 40 dias de lojas fechadas. “A entidade defende o planejamento das autoridades, especialmente dos governos dos Estados e das prefeituras, para a volta gradual às atividades, a partir do início de maio”, diz o presidente da Alshop, Nabil Sahyoun, em nota à imprensa.

As medidas de isolamento fecharam as portas de 105 mil lojas de shopping no País, setor que emprega cerca de 1,5 milhão de pessoas. Para reabri-las, a entidade propõe que as lojas adotem rígidos protocolos de segurança seguindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e em horário reduzido, das 12 horas às 20 horas, com os estabelecimentos funcionando em apenas um turno.

O Instituto de Desenvolvimento do Varejo (IDV) também já discute práticas para a reabertura do comércio, mas não coloca datas na mesa. Segundo a instituição, o comitê de logística e multicanalidade está produzindo uma cartilha de boas práticas para a saída da quarentena. Desde instruções práticas sobre instalação de acrílicos nos caixas das lojas, até protocolos para medição de febre de clientes, tudo está sendo estudado para instruir os associados.

No setor hoteleiro, a manutenção da agenda para o segundo semestre sinaliza uma possível data para a retomada dos negócios. Com todos os 23 hotéis fechados no Brasil, a rede Blue Tree começou a registrar aumento discreto nas reservas para julho, mesmo que a pandemia de coronavírus ainda não tenha dado trégua no País. “Estamos começando a receber reservas, via site, para julho. Não é um grande volume, mas a cada dia tem aumentado um pouquinho”, afirmou ao Estadão/Broadcast a empresária Chieko Aoki, fundadora e presidente da companhia.

Em paralelo, cresce o número de empresas que estão investindo em testes para seus quadros. O grupo francês Engie adquiriu 46 mil testes para identificação de eventual presença do novo coronavírus nos funcionários de suas unidades de negócios no Brasil. “Como somos uma atividade essencial e continuamos operando nossas usinas, precisamos nos resguardar ainda mais com os colaboradores de operação e manutenção dos ativos, por isso adquirimos os testes”, explica o diretor-presidente da Engie Brasil Energia, Eduardo Sattamini, que acrescenta que a Engie também já está com seu plano de retorno às atividades nos padrões regulares.

Outro segmento que planeja testar seu quadro é o bancário, considerado como serviço essencial na crise. Santander e Bradesco anunciaram recentemente que pretendem adotar a prática como um primeiro passo para traçar uma estratégia de volta à normalidade em um futuro próximo. A ideia é testar, primeiramente, a alta cúpula.

Os bancos seguiram com as agências bancárias abertas durante a pandemia, mas, para isso, houve mudança generalizada no atendimento. Além de horário reduzido, as equipes passaram a atuar sob rodízio, a limpeza foi reforçada e medidas de prevenção adotadas como a distribuição de equipamentos de proteção individual aos funcionários. Nesse sentido, algumas agências foram fechadas por serem pequenas e gerarem aglomeração, o que espera que se evite nessa crise. Somente o Itaú Unibanco fechou a porta de ao menos 400 unidades durante a crise, mas o banco afirma que o movimento é temporário.

Em uma das várias lives que se multiplicaram durante a quarentena, o presidente do Santander, Sergio Rial, disse que o banco começou a disponibilizar exames de sorologia aos executivos e que, dependendo dos resultados, o banco pode começar a retomar suas atividades de maneira mais estruturada a partir do início de maio. Toda a diretoria do Santander, conforme fonte ouvida pelo Estadão/Broadcast, já teria sido testada e agora se discute como ampliar a iniciativa.

Já o Bradesco espera começa a testar seu quadro ainda em abril. A volta do banco à normalidade, porém, segundo o presidente da instituição, Octávio de Lazari, dependerá da situação de cada região no Brasil, considerando que umas estão mais impactadas pelo novo coronavírus que outras.

Notícia publicada no Broadcast no dia 20/04/2020 15:51:01

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