Empresas terão que focar em transparência de dívidas em dólar após experiência do 1º trimestre

Fernanda Guimarães

12 de junho de 2020 | 15h52

Depois de um trimestre em que o dólar subiu quase 30% em relação à moeda brasileira e assombrou a dívida dolarizada de um punhado de empresas, aquelas de capital aberto começam a se preparar para aumentar o nível de transparência de seus demonstrativos financeiros, de forma a mitigar os questionamentos de investidores que se acumularam ao longo das últimas semanas. A expectativa é que as companhias tragam mais clareza para o que costumam chamar de efeitos “meramente contábeis” nas próximas divulgações, visto que esse fator empurrou muitas a prejuízos multibilionários no intervalo de janeiro a março.

O dólar nas alturas levou uma série de empresas a prejuízos históricos, como Suzano, com uma perda de nada menos do que R$ 13,4 bilhões e JBS, com uma perda de R$ 5,9 bilhões. Ambas apontaram o dólar como o detrator dos resultados e destacaram que o efeito não tinha relação com o caixa (não-caixa), visto que essa dívida não seria paga naquele momento. Contabilmente, todo o estoque dos compromissos financeiros é marcado no balanço pelo dólar do último dia do trimestre, trazendo efeito, assim ao balanço. Dentre outras que viram o efeito da taxa de câmbio está a CSN e Azul, entre muitas outras: dados do Banco Central mostram a dívida total em dólar das empresas no Brasil está em US$ 482 bilhões.

O presidente do Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon), Francisco Sant’Anna, destaca que o foco das companhias precisa ser na qualidade das demonstrações contábeis, com o apoio, para isso, das notas explicativas, que podem ajudar a clarificar pontos mais sensíveis, como os efeitos da variação cambial. “Os saldos das dívidas em moeda estrangeira devem estar refletidos em Reais, pelo valor de conversão das moedas na data de fechamento das demonstrações contábeis. Estando isso correto, o valor apurado representa, sim, a dívida da companhia naquela data. A grande questão em termos de análise preditiva é com relação aos prazos de vencimento dessas dívidas. Então, por exemplo, se os vencimentos forem de curto prazo e a previsão de que as taxas de câmbio recuariam somente no longo prazo, então vai ter sim um efeito futuro negativo de caixa”, afirma Sant’Anna.

O sócio da consultoria e auditoria PwC Brasil, Kieran McManus, diz que é essencial que os investidores entendam os riscos relacionados à exposição à moeda e que a empresa deve ajudar para que isso ocorra. “Já existe requerimento para reportar os efeitos de sensibilidade da variação cambial nas demonstrações financeiras, que pode ser mais elaborado para melhor demonstrar os riscos e oportunidades. Recomendo que as empresas que têm receitas em moeda estrangeira demonstrem o fluxo de caixa das vendas contratadas junto com as obrigações de pagamento de dívidas na mesma moeda, para permitir uma visão melhor do fluxo de caixa em moeda estrangeira”, explica o especialista.

Uma boa opção para dar mais transparência, afirma o sócio da KPMG, Tiago Bernert, é dar bastante clareza em relação às datas dos vencimentos das dívidas. “Cabe a administração dar ampla divulgação aos fatos geradores dos registros contábeis em notas explicativas. Por exemplo, os ativos e passivos em moeda estrangeira que originaram o resultado de variação cambial podem ter seu vencimento evidenciado”, destaca Bernert.

No primeiro trimestre, a divulgação de resultados ganhou até prazo maior pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), diante do entendimento de que haveria muitos desafios, tanto por conta da dificuldade em trazer previsões sobre os efeitos da pandemia nos negócios e para o fechamento do balanço em si, com toda a equipe da empresa – e auditores – em casa, por conta da quarentena mandatória para frear o ritmo de disseminação do novo coronavírus. Assim, até o fim de junho as empresas que ainda não abriram seus números poderão cumprir com essa obrigação.

No entanto, após a experiência obtida no período e os questionamentos em relação aos efeitos cambiais na dívida, as empresas terão que buscar alternativas para que a divulgação de seus demonstrativos financeiros não vire um dia de caos, como foi para a Suzano – com o efeito do câmbio que a puxou para o prejuízo e com muitos investidores ficando com dúvidas. Essa tem sido, inclusive, uma exigência de investidores, grupo que conta a cada dia mais com pessoas físicas, que nem sempre estão acostumados com a linguagem da contabilidade.

Além do uso das notas explicativas, especialistas em contabilidade estão defendendo que as empresas com dívida exposta a moedas estrangeiras inovem ao mostrar os efeitos do dólar em seus vencimentos. Uma das alternativas, para dar clareza e evidenciar os efeitos da moeda, seria mostrar aos investidores os desdobramentos da desvalorização cambial em três espaços de tempo: de curto, médio e longo prazo. A primeira seria mostrar os ativos e passivos em moeda estrangeira que já foram liquidados durante o próprio exercício, ou seja, o efeito já bateu no caixa. O segundo grupo englobaria as dívidas de mais curto prazo, que estão no passivo circulante, com vencimento em até 12 meses, deixando claro, assim, qual porcentual da dívida poderá logo ter um efeito no caixa. Já o terceiro grupo ficariam passivos e ativos de mais longo prazo, cujo efeito no caixa está mais distante.

As notas explicativas, instrumento que pode e deve ser amplamente utilizado, devem ter um uso amplo para deixar todos os pontos claros aos possíveis leitores dos balanços financeiros. Ali podem ser feitos esclarecimentos, sem a necessidade de buscar “milagres” – como inúmeros e diferentes tipos ajustes – nos balanços.

É importante, ainda, a divulgação de informações complementares, que podem ajudar no entendimentos dos riscos aos quais a empresa está exposta. “Algumas divulgações complementares, como a divulgação dos riscos aos quais a companhia está exposta, a estratégia de gestão destes riscos, e a análise de sensibilidade, ajudam o leitor das demonstrações financeiras a avaliar o potencial impacto real quando da liquidação de cada dívida. Assim, é necessário que as entidades apresentem divulgações claras e robustas de sua estratégia de gestão de riscos frente ao atual cenário econômico”, destaca o sócio de auditoria da Deloitte, Jon Marcus.

Contato: fernanda.guimaraes@estadao.com

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