Mesmo com incertezas, dinheiro pode sobrar no exterior para empresas brasileiras

Mesmo com incertezas, dinheiro pode sobrar no exterior para empresas brasileiras

Cynthia Decloedt

19 de agosto de 2020 | 05h11

 

O dinheiro disponível pode aumentar no segundo semestre para emissores de países emergentes e latinos, já que as estimativas são de presença menor no mercado de dívida externa das companhias norte-americanas nos próximos meses. As captações feitas por esse grupo já chegaram ao patamar recorde em US$ 1,3 trilhão até julho, somente envolvendo empresas com grau de investimento, e a visão dos bancos estrangeiros é de que o fluxo de novas operações de emissores norte-americanos vai diminuir.

Por outro lado, a enxurrada de recursos jogada no mercado pelos governos dos países desenvolvidos, para evitar o colapso de suas economias, continua buscando remuneração e a tendência é que haja uma sobra para ser canalizada a outros emissores, entre eles o Brasil, que ainda oferecem retorno atraente.

Aproveitando o momento, as empresas brasileiras que acessaram linhas de crédito bancárias bastante caras no susto dos primeiros meses do alerta para a pandemia do novo coronavírus estarão na fila daquelas que pretendem captar a partir de setembro, afirmam os especialistas ouvidos pelo Broadcast. Dada as condições favoráveis, a presença de companhias que nunca alcançaram o bolso do investidor estrangeiro também é prevista. Setembro é tradicionalmente, depois de janeiro, uma das janelas anuais de maior movimentação dos investidores, seguindo-se às férias no Hemisfério Norte. As primeiras operações estão previstas para após o dia do trabalho norte-americano, 7 de setembro.

Com isso, ainda que a cena interna brasileira esteja bastante conturbada pela perspectiva de desarranjo nas contas do País e baixas recentes nos quadros do governo, a previsão dos especialistas é a de que o Brasil deve facilmente chegar ao mesmo montante de captações feitas em 2019, ou seja, acima de US$ 30 bilhões em títulos de dívida (bonds) emitidos. Além disso, os custos para captar lá fora devem continuar maquiados pela liquidez e pela taxa de juro do Tesouro norte-americana extremamente baixa.

“O rally é artificial e os preços dos papéis não estariam onde estão sem tal injeção de dinheiro pelos países desenvolvidos”, afirma o diretor responsável pela área de renda fixa para América Latina do MUFG, Robert Carlson. Mas ele argumenta que “esse dinheiro não vai diminuir, ao contrário, vai aumentar, então o rally começa a ficar real”.

Carlson nota que os investidores do mercado de dívida externa assumem que o pior já passou, com as economias reabrindo e diante de um melhor entendimento em relação ao impacto da pandemia. “Os balanços do segundo trimestre, divulgados lá fora, já são suficientes para que os investidores definam a qualidade dos credores”, diz ele.

Os cálculos do responsável pelo Mercado de Capitais de Renda Fixa do Morgan Stanley no Brasil, Gustavo Siqueira, são de um volume de captações brasileiras levemente acima do ano passado. “Há chance de chegarmos a US$ 35 bilhões este ano, um número razoável, uma vez que já estamos em US$ 19 bilhões, contra US$ 17,5 bilhões em emissões nos primeiros seis meses do ano passado”, afirmou.

Siqueira observa que a maioria das empresas que estão na fila para captação a partir de setembro, incluindo as estreantes, tem como objetivo refinanciar dívidas tomadas no Brasil, que não estão sendo roladas com bancos e no mercado de capitais, ou simplesmente como uma oportunidade para alongar passivos.

Compradores existem, e com uma capacidade financeira infinita, diz o responsável pela área de mercado de dívidas do Bank of America (BofA) no Brasil, Pedro Campos. “O investidor olha para a renda fixa com trilhões em juros negativos e um porcentual enorme em taxas entre zero e 1% e vê, ao mesmo tempo, o Brasil e outros emergentes oferecendo retornos entre 2% e 4%”, comenta.

No início do ano, a cesta de bonds do Brasil acompanhada pelo BofA carregava retorno – que representa o custo de captação para as empresas – nas mínimas históricas, abaixo de 3,75%, diz Campos. No auge da crise da pandemia, a taxa chegou a oscilar entre 9% e 9,5%, e agora circula em torno de 4,5%, diz ele. “Estamos em taxas mais normalizadas e em tendência para voltar à mínima histórica”, prevê.

Essa taxa de retorno é composta por juro norte-americano e prêmio de risco ou spread, que reflete a qualidade das empresas. Campos nota que o comportamento do spread das companhias brasileiras na média foi o mesmo do retorno como um todo.

Passa reto

Isso mostra que as disputas internas no Brasil, que podem agravar o quadro fiscal e impactar o resultado das companhias de alguma forma, não têm afetado o custo de captação para elas. Segundo os especialistas, o investidor continua olhando para o longo prazo e observando se o governo caminha na direção correta.

Carlson, do MUFG, defende que o Brasil tem a seu favor o fato de já ter endereçado a reforma da previdência e mantido a tributária e administrativa em sua agenda. Silveira, do Morgan Stanley, observa que tampouco a depreciação do real frente ao dólar tem alguma influência na composição dos riscos observados dos emissores. “Com uma taxa de juro tão baixa, fica difícil acreditar que viveremos uma apreciação da moeda para um patamar muito elevado. Deixamos de olhar o câmbio como função para o bem ou para o mal”, diz Silveira.

O especialista do Morgan ressalta que em termos de volatilidade, as eleições norte-americanas são sim um risco de mudança na direção dos preços e que uma sinalização desfavorável em termos do teto dos gastos ou de que não está sendo discutida não fecha o mercado para o País nesse momento. “O apetite no mercado de dívida está muito mais em função de sua própria estabilidade do que de o Brasil estar estável e positivo”, nota.

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 17/08/2020 às 14:25.

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