“Energia verde pode diferenciar produtos feitos com menor pegada de carbono no Brasil”, diz presidente da Vestas

“Energia verde pode diferenciar produtos feitos com menor pegada de carbono no Brasil”, diz presidente da Vestas

Luciana Collet

23 de dezembro de 2019 | 15h19

O movimento de transição energética conduzido por governos e grandes corporações, que buscam mitigar mudanças climáticas, faz do Brasil um país de grandes oportunidades para empresas da área. Entre elas, está a fabricante dinamarquesa de equipamentos eólicos Vestas, que vê com boas perspectivas os ventos no Nordeste brasileiro e a presença de multinacionais no País interessadas em investir em sua própria energia, segundo o presidente mundial da companhia, Henrik Andersen, em entrevista ao Estadão/Broadcast.

Henrik Andersen, presidente da Vestas / Foto: Divulgação

“Muitas dessas corporações começaram a avaliar como podem investir em sua própria energia verde, porque podem se diferenciar quando vendem seus produtos globalmente por terem sido feitos com menor pegada de carbono no Brasil”, afirmou, citando setores como mineração e agronegócio.

O desenvolvimento de projetos de energia renovável, principalmente eólica e solar tem sido a principal estratégia de companhias que buscam ampliar o portfólio no Brasil. Se antes estas empresas baseavam seus planos de expansão em venda de energia em leilões governamentais, agora o foco é viabilizar contratos de longo prazo com grandes consumidores que possuam bom risco de crédito, para fazer com que os recursos de venda da energia possam ser utilizados como garantia no financiamento dos projetos.

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O redirecionamento da estratégia também está atrelado ao fato de que, nos últimos anos, a crise econômica minou as perspectivas de crescimento da demanda nacional por energia. Com isso, foram baixos os volumes contratados nos mais recentes leilões de energia nova, que comercializam os adicionais de carga previstos pelas distribuidoras para três a seis anos para frente. “Algumas vezes, as oportunidades no Brasil desaparecem por um pequeno período de tempo. Pode ser pela economia ou pelo cenário político, mas acho que no geral é sempre com uma tendência destacada de se mover positivamente”, diz Andersen.

De fato, após um período de forte crescimento da capacidade instalada eólica, entre os anos de 2014 e 2018, propiciado pela contratação de novos projetos em leilões realizados em anos anteriores, o setor cresceu menos. Os projetos viabilizados nos certames entre 2015 e 2018 se reduziram a ponto de o leilão de energia nova de dezembro de 2016 ser cancelado sob o argumento do governo da época de que havia falta de demanda.

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Na busca de alternativas, desde o ano passado o setor eólico passou a viabilizar projetos voltados exclusivamente ao mercado livre, no qual o consumidor escolhe seu fornecedor. Segundo dados da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), em 2018 foram 1,15 GW no mercado regulado (das distribuidoras) e cerca de 2 GW no Ambiente de Contratação Livre (ACL). Os números de 2019 ainda não foram consolidados, mas a estimativa da instituição é de que mais uma vez o mercado livre supere o regulado em novos projetos: foram viabilizados 1,13 GW em leilões e cálculos iniciais apontam para ao menos 2 GW no ACL.

Segundo Andersen, o movimento não é exclusivo ao Brasil. Se no início dos anos 2000 o desenvolvimento do setor eólico se deu apoiado em subsídios ou tarifas mínimas, esta década foi marcada pela redução de preços que propiciaram a competitividade dessa fonte de energia. “Em apenas sete anos, a eólica teve cerca de 50% de redução no seu LCOE (sigla em inglês para custo nivelado de eletricidade), saímos de algo como 80 euros por MW, para um valor entre 20 a 50 euros por MW. Isso significa que temos hoje 70% do mercado global de energia onde eólica é competitiva”, diz, citando que no Brasil os custos são ainda mais baixos.

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Ele afirma, porém, que no caso dos contratos de suprimento corporativos, há o desafio da segurança de suprimento, tendo em vista que as eólicas possuem como característica uma produção de energia variável e não controlável, enquanto os consumidores corporativos precisam de garantia de entrega de volumes mínimos. “O Brasil é exemplo, está liderando o desenvolvimento porque tem muito bons desenvolvedores, companhias de energia, rede de transmissão, está dando um exemplo fabuloso para o resto da América do Sul”, diz.

A matriz energética brasileira, por ter fontes com regime de produção complementares, permite às geradoras estruturar produtos com garantia de suprimento, a despeito da intermitência das eólicas. Além disso, como o sistema elétrico brasileiro é praticamente todo interligado, é possível injetar na rede eventuais excedentes de energia não utilizados pelos consumidores, ou ainda obter volumes adicionais de energia de outras fontes, se necessário.

Carros elétricos

Além de estar otimista com a demanda por energia renovável por parte de grandes empresas, Andersen também se mostrou otimista com a perspectiva de crescimento da demanda tendo em vista a eletrificação dos transportes, embora este seja considerado um futuro mais próximo na Europa do que no Brasil. Ele citou estimativas que apontam para um crescimento de 40% da demanda global por energia até 2040, tendo em vista o movimento de redução do uso de combustíveis fósseis e estímulo ao amplo uso da eletricidade proveniente de fontes renováveis.

Para o Brasil, a previsão utilizada pela companhia é de que o País pode ter 50% de sua frota eletrificada em 30 anos. “Estamos muito animados com isso, porque o Brasil tem 220 milhões de pessoas, uma posição fantástica, território extenso e rico suficiente para ter terra disponível para colocar eólica e solar; vocês podem mostrar ao mundo como planejamento energético é feito”, diz.

Em visita ao País, o presidente da Vestas, que assumiu o cargo há cerca de quatro meses, disse que este foi um dos mercados mais “positivos” em que já esteve, citando ter passado antes por países como Austrália, Cingapura, China, EUA, Índia e Rússia. A companhia, que estima encerrar 2019 com receitas anuais entre 11 bilhões e 12,25 bilhões de euros, vem elevando investimentos no País. Presente no Brasil desde 2000, inaugurou em 2016 sua primeira fábrica, em Aquiraz (Ceará), e mês passado concluiu uma expansão da capacidade fabril, para a produção de uma turbina de maior porte, com 4,2 MW, a ser comercializada em toda a América Latina. Desde que anunciou a nova linha, no ano passado, obteve pedidos de 624 turbinas, somando 2,6 GW de capacidade. Atualmente, a empresa possui 1,5 GW instalados ou em construção no País.

Contato: luciana.collet@estadao.com

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