Credit Suisse vai contratar e vê ambiente mais racional para IPO, diz Ivan Monteiro

Credit Suisse vai contratar e vê ambiente mais racional para IPO, diz Ivan Monteiro

Aline Bronzati e Altamiro Silva Junior

04 de agosto de 2021 | 11h20

O Credit Suisse não pretende tirar os pés no Brasil. Ao contrário, está reforçando seu time para recuperar o terreno perdido frente ao aumento de competição no assessoramento a empresas, que tem batido recordes de emissões de ações, renda fixa e fusões e aquisições no País, afirma o vice-chairman de banco de investimento e responsável pela área de mercado de capitais, Ivan Monteiro. Algumas contratações já foram feitas e a estratégia, diz ele, é reforçar ainda mais o time, que está prestes a ter um novo comandante em meio ao anúncio da saída do atual presidente no Brasil, José Olympio Pereira.

“A operação brasileira é relevante para o banco, é uma das prioridades. Não há menor intenção de vender a operação do Brasil”, afirma Monteiro, em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast, a primeira desde que saiu da Petrobras e desembarcou no Credit, há um ano. “Todas as vezes que você entra em reuniões com a presença de executivos globais, isso é dito com todas as letras.”

Sem dar pistas do ‘futuro chefe’, Monteiro diz que o processo de sucessão do banco no País está nas mãos do atual CEO, o Zé, como é conhecido no mercado José Olympio, e o ex-presidente do Banco Central e presidente do conselho do Credit no Brasil, Ilan Goldfajn. Foram eles, inclusive, quem conseguiram trazer Monteiro para o banco – na segunda tentativa de recrutá-lo. Com uma vida dedicada ao setor público, ele passou pelo Banco do Brasil, no qual foi cotado para ser presidente duas vezes, de acordo com fontes de mercado, diretor e presidente da Petrobras e ainda acumula presença em conselhos de administração, com passagens por Nubank, o ressegurador IRB Brasil Re, Previ e CPFL Energia. Abaixo, os principais trechos da entrevista:

Como foi o primeiro ano de Credit Suisse?

O Credit perdeu (nos últimos anos) participação de mercado na parte de banco de investimento, só que não perdeu suas capacitações. Isso é incompatível. Na minha visão, o time estava reduzido de uma maneira geral. Então, começamos um processo de crescimento, de adição de profissionais. A mais recente foi a contratação de um diretor de dívida, Rodrigo Fittipaldi, e um pouquinho antes, o Leandro Giacometti para ser diretor do banco de investimento. O que a gente está fazendo é simples. Pegamos o PIB (produto interno bruto), o Ibovespa, os decompõem, verificamos onde estão as nossas carências em termos de cobertura e estamos suprindo gradativamente essas posições.

Já é possível notar resultado?

A gente está mais presente em relação ao ano passado. E há mudanças estruturais no mercado. Se em 2007, 2008, havia dois bancos de investimento, o Credit, era um deles. Hoje em dia, há os tradicionais bancos de crédito, muito competitivos, e o fenômeno recente das plataformas digitais. O mercado mudou e a competição ficou muito maior. O Credit nunca vai se caracterizar por ter um largo balanço para competir com os grandes bancos de varejo no Brasil, mas é um banco extremamente inteligente, com ideias originais, abordagens únicas. Tenho uma visão de que o que a Lava Jato fez para o setor de compliance, que deixou de ser uma coisa chata para ser algo que gera valor, a pandemia fez com a área de recursos humanos. Sou um gestor de talentos, o tempo todo, com todos os desafios que a pandemia impôs.

Quais são esses desafios?

Comecei na pandemia no Credit Suisse e tem pessoas que ainda não conheci pessoalmente, só por Zoom. Tem uma perda grande. Aquele tapinha nas costas no horário do café, o puxão de orelha, o elogio fazem falta. Isso não é substituído. Tem vários benefícios do Zoom. A gente faz hoje road show (reuniões com investidores) de uma maneira muito mais eficiente do que no passado, mas isso em termos de gestão de equipe é complexo.

Como está a sucessão no Credit Suisse e de que maneira esse processo impacta o banco?

O anúncio da saída do Zé Olympio foi extremamente profissional, correto. Mesmo assim, a gente tem conseguido manter uma equipe muito coesa, trazendo questões que falam muito alto junto às novas gerações. Se o mundo do ESG (sigla em inglês para questões ambientais, sociais e de governança) já estava aí, depois da pandemia, então, tornou-se uma coisa absolutamente fundamental – e o Credit Suisse pratica isso.

Mas e a sucessão? É provável que venha um nome de mercado?

Está em andamento. O Zé e o Ilan lideram esse processo. Tudo está sendo feito com muito cuidado.

O FED pode subir os juros e o Banco Central pode ter de ser mais agressivo com a elevação da Selic. Qual efeito o sr. prevê para o mercado de capitais?

Mesmo que a Selic suba 100 pontos (base), que é o consenso de mercado, vamos a 5,25%. É extremamente atraente. O juro real americano está negativo. O mercado está com uma liquidez louca e nós estamos indo para um patamar muito melhor, em termos de pandemia… como foi terrível esse processo, como está sendo. Há um conjunto maior de pessoas já vacinadas, os países começando a liberar (as restrições) e a economia se recuperando. De modo geral, as condições macro serão melhores, o próprio Brasil terá crescimento de PIB.

O que muda para a próxima janela de captações?

Na janela anterior, foi muita gente ao mesmo tempo. A tendência é que agora (a janela) seja mais racional, mais organizada, não tão concentrada. As condições macroeconômicas vão continuar. A visão é muito positiva para a tomada de risco. Hoje em dia, tem tanta alternativa. Há um drive (direcionamento) importante para a agenda ESG e a gente já está percebendo isso de maneira clara. Essa tendência positiva fica até o fim do ano. O que preocupa é a volatilidade natural, ao nos aproximarmos de um ano de eleição. Isso é inerente. Das discussões que estamos tendo, se tivéssemos de apostar numa gradual melhoria do cenário macroeconômico, é natural que a taxa de juros vai se mexer em algum momento e o Fed é o grande protagonista. Esse é um ambiente mais desafiador para o mercado de capitais. Mas a gente não acredita que essas taxas de juros vão explodir.

Qual sua opinião sobre empresas que buscam o IPO (oferta inicial de ações, do inglês) somente para pagar dívidas?

Cada caso é um caso. Tem situações nas quais o mercado abraça o crescimento, o Ebitda (geração de caixa), a consolidação ou uma tese inédita, um reposicionamento. Se não conseguir fazer o IPO, não quer dizer que a empresa deixou de ser boa e pode partir para soluções como fusões e aquisições, ou uma rodada privada. Vimos no mercado de renda fixa várias operações de gerenciamento de passivos, com empresas recomprando dívida antiga e emitindo nova. Depende da estrutura de capital de cada empresa, do que pretende fazer. Não tenho nenhum preconceito de que uma empresa que está enfrentando problema de endividamento busque uma solução no mercado de capitais. Nosso papel como bancos de assessoramento e que temos responsabilidade muito grande em relação aos investidores é de, com a maior transparência possível, mostrar quais são os desafios de cada uma dessas empresas.

 Como o sr. vê a alta concorrência entre bancos de investimento e o reflexo nas taxas de operação?

A competição como um todo aumentou bastante, é diferente daquele mercado de 2007 e 2008, quando o Credit Suisse tinha a dominância. Na janela anterior, várias operações vieram ao mesmo tempo. Isso gera benefício ao investidor, que escolhe as melhores ofertas, ou coloca pressão adicional em relação à precificação. O ‘fee’ (taxa) aumentou bastante, mas a quantidade de operação também e temos vários bancos muito atuantes, concorrendo por isso, acho saudável.

O Credit Suisse está satisfeito com a presença no Brasil?

O banco tem uma estratégia para recuperar mercado, com adições à equipe. A gente não para com as duas contratações. Uma das questões mais importantes hoje é reter talentos. Temos preocupação muito grande em que nossos profissionais permaneçam (no banco). Hoje, não é mais só rouba monte (entre bancos de investimento), tem competição com as fintechs, startups.

O que esperar do mercado de capitais em 2022 com a eleição, que promete ser muito polarizada e já vem sendo antecipada?

A gente ainda não vê essa antecipação prejudicando a dinâmica do mercado, que continua muito positiva. À medida que vamos nos aproximando do ano eleitoral, que tende a ter disputa acirrada, vai ter alguma consequência. Estamos em tendência de aumento da Selic, de pressões inflacionárias, a discussão sobre a política monetária do Fed e tudo isso se soma.

As empresas podem antecipar para este segundo semestre operações que fariam em 2022, para fugir do risco eleitoral?

Pode haver isso. Quando cheguei na Petrobras, a empresa rotineiramente aumentava o caixa no ano que antecedia as eleições. Vai depender muito de cada empresa. O componente eleitoral não tem impacto nas decisões de hoje, mas isso pode e deverá ocorrer, pois a eleição tende a ser acirrada e isso traz mais volatilidade. No ano que vem, não dá para não ter o componente da discussão política como um dos fatores de decisão.

Houve rumores de venda da operação brasileira do Credit. O que há de verdade nisso?

Posso passar a mensagem que ouvi do CEO global do banco: isso não existe. A operação brasileira é relevante para o banco, é uma das prioridades. Não há a menor intenção de vender a operação do Brasil, este é o discurso que foi reiterado.

O banco tem intenção de fazer aquisições no Brasil? E aumentar a participação no Modalmais?

O investimento no Modalmais reflete a decisão estratégica de atender a um segmento de mercado no qual o banco não tinha presença. Não tenho nenhum conhecimento de outro investimento nesse sentido no Brasil.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 03/08/2021 às 14:25

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