Estar pronto para possível IPO da EB Fibra é o objetivo, diz Pedro Parente

Estar pronto para possível IPO da EB Fibra é o objetivo, diz Pedro Parente

Circe Bonatelli

18 de agosto de 2021 | 14h40

Parente: Sinais de possibilidade ou ameaça de quebra da institucionalidade do País  FOTO: WILTON JUNIOR/ESTADAO

Após a oferta inicial de ações (IPO, da sigla em inglês) de três provedores regionais de internet este ano (Unifique, Brisanet e Desktop), o setor de telecomunicações poderá continuar crescendo na Bolsa. Uma das candidatas é a EB Fibra, holding controlada pela gestora de recursos EB Capital, que tem Pedro Parente como um dos sócios. “Estar pronto para um possível IPO é, sim, objetivo nosso”, afirmou Parente, no programa “Olhar de Líder”, do Broadcast.

O grupo aguarda a melhor oportunidade para ir ao mercado. A companhia não tem pressa, porque levantou R$ 2 bilhões em novembro com a intenção de comprar vários provedores regionais e formar uma rede nacional de fibra ótica. De lá para cá, a EB Fibra fez cinco grandes aquisições: Sumicity (RJ), Mob Telecom (CE) e Vip Telecom (SP), Wirelink (CE) e Ligue Telecom (PR). Com um total de 73 mil quilômetros de fibra ótica, passou a ficar na cola das grandes empresas. A TIM, por exemplo, tem uma rede de 111 mil quilômetros.

Agora, a prioridade é integrar as empresas do portfólio e crescer de maneira orgânica, embora novas aquisições não estejam descartadas. Ao mesmo tempo, o grupo avalia a possibilidade de participar do leilão do 5G.

Presidente da Petrobrás durante o governo de Michel Temer e ministro da Casa Civil na era FHC, Parente afirma que o Brasil precisa ficar atento a certas armadilhas. Uma delas está no campo fiscal e no excesso de gastos públicos. Outra, no campo político, com o “esgarçamento” de instituições e gestos de radicalismo.

A seguir, a entrevista de Parente :

Quais os principais atrativos do mercado de telecomunicações para o investimento de R$ 2 bilhões da EB Fibra?

Pedro Parente: É um setor muito dinâmico, com o crescimento da internet de alta velocidade por meio da fibra ótica (fiber to the home, FTTH). Tem pela frente também o leilão de 5G, que vai demandar redes de fibra para ligar as antenas. A penetração da internet rápida ainda é baixa, principalmente via fibra. Já temos R$ 2 bilhões investidos, adquirimos cinco grandes empresas, além de outras menores numa fase secundária. Chegamos a 800 mil assinantes em todas as regiões do País, menos a Sul. Com essas aquisições, podemos dizer que somos um dos maiores provedores independentes de fibra.

Quais os próximos passos depois dessas aquisições? Os planos incluem mais aquisições?

Parente: Tivemos três IPOS de empresas de fibra (Unifique, Brisanet e Desktop, que levantaram ao todo R$ 2,7 bilhões na Bolsa). O setor está aquecido e as empresas, capitalizadas, buscam alvos para aplicar seus recursos. Isso aumenta preço dos ativos, mas dá a oportunidade de nos concentrarmos na integração de nossas empresas e focar mais no crescimento orgânico. Aquisições estão descartadas? Não. Mas não enxergamos uma nova série de aquisições. Talvez possamos pensar em ativos mais relevantes do que uma série de pequenas empresas.

Falando em IPO, vocês também consideram abrir capital no curto prazo?

Parente: Vamos estar prontos para todas as oportunidades que o mercado oferece. Estar pronto para possível IPO é, sim, objetivo nosso. Mas o IPO em si não é um marco obrigatório com data determinada para acontecer. Queremos estar preparados para aproveitar as chamadas janelas de oportunidades. Dada a volatilidade do Brasil, é comum essas janelas abrirem e fecharem. Já tivemos duas janelas neste ano, e teremos, possivelmente, mais duas. Uma questão para o ano que vem é o quão volátil o Brasil estará devido às eleições. Estamos serenos, porque estamos capitalizados. Temos os recursos de que precisamos para o crescimento orgânico nem temos endividamento elevado.

Expandir as redes de fibra ótica está no centro da estratégia tanto dos provedores regionais quanto das grandes teles, que têm vantagens competitivas devido à escala. Como a EB Fibra pretende ganhar mercado? Vão reduzir preços de pacotes?

Parente: Não vamos ganhar clientes por preço, mas por qualidade. A vantagem competitiva das grandes teles, como o pós-vendas, é bastante discutível. Basta ver a quantidade de reclamações no site Reclame Aqui e comparar com nossas empresas, que têm excelente pontuação. A maior parte da tecnologia das grandes teles ainda é o cobre. Temos a fibra, que é a melhor forma de transmissão de dados, na velocidade da luz. As grandes operadoras estão investindo para substituir o cobre por fibra, mas não vão ganhar nova receita aí. Então, a EB Fibra e outras provedoras locais estão numa situação bastante competitiva.

Oi, Vivo e TIM criaram empresas para assumir a construção de redes de fibra ótica, que podem ser também ‘alugadas’ para provedores regionais. A EB Fibra será cliente?

Parente: A principal razão para o surgimento dessas novas empresas é a necessidade das teles gerarem capital para lidarem com temas de alavancagem. Não tem a ver diretamente com ganho de vantagem. Para nós, isso (tornar-se cliente das grandes teles) é uma opção. Mas entendemos que a disponibilidade de uma rede própria é um elemento altamente estratégico para garantirmos o atendimento de qualidade a nossos clientes.

O leilão do 5G está previsto para acontecer neste semestre. A EB Fibra vai participar?

Parente: Ainda está muito incerta a realização do leilão. O TCU ainda nem liberou o edital. E a posição final do TCU vai ser importante para determinar a extensão de eventuais modificações no edital. Independentemente disso, já avaliamos com profundidade o tema do 5G. Para nós, não é algo que configure risco, nem demanda investimento imediato. Serão ofertadas faixas de frequência em quatro bandas diferentes, algumas com contrapartidas relevantes, aumentando o custo. Seria alguma coisa fora do nosso ‘core’. É um tema que estamos atentos, mas não é prioridade.

Isso significa então que vocês ficarão de fora do leilão?

Parente: Se houver participação, será para testar a temperatura no leilão, mas não como um negócio essencial. O nosso ‘core business’ é a infraestrutura de rede para interligação do País todo com fibra. E aí tem muito espaço para crescer, é onde vamos nos concentrar.

Qual seu nível de confiança em relação ao futuro da economia do País?

Parente: Vivemos numa armadilha, que é a situação fiscal e o nível de gastos públicos que exigem uma arrecadação elevada. Isso deixa pouco espaço para uma reforma tributária ideal, com baixa da carga de impostos e um sistema de cobrança mais racional. Existem notícias de que a arrecadação está crescendo, mas isso é temporário, não permanente. Não podemos basear decisões numa situação momentânea.

E pelo lado político?

Parente: Outra armadilha é a questão política. Pelo quadro atual, temos polarização grande entre o candidato de direita, que é o atual presidente, Jair Bolsonaro, e um candidato de esquerda, o ex-presidente Lula, trazendo possibilidade de esgarçamento e polarização. Isso está quebrando a cordialidade na convivência entre as pessoas. Há sinais importantes de possibilidades, tentativas ou ameaças de quebra da institucionalidade do País. É um quadro complexo.

O senhor, que já esteve na chefia da Casa Civil no governo FHC, que leitura faz da decisão do presidente Jair Bolsonaro de ceder a pasta ao deputado Ciro Nogueira, líder do Centrão?

Parente: O ministro da Casa Civil depende fundamentalmente da missão que o presidente lhe dá. É diferente de outras pastas, em que já há mais ou menos uma agenda. O ministro da Casa Civil pode ter uma função de coordenação de ações do governo, um trabalho mais técnico, como um gerentão, como foi meu caso. Ou pode ser uma atribuição mais política, como foi o ex-ministro José Dirceu no governo Lula. No caso atual, a indicação dada pelo presidente é que a conotação do cargo será mais política. Isso transparece que ele (Bolsonaro) busca consolidar uma base construída com o Centro para apoiar suas iniciativas no Congresso. Se será boa ou ruim, depende do que virá a ser feito a partir da construção dessa base. Mas o principal problema não está aí, e sim nessa crise e nos radicalismos entre os poderes federais.

Uma ruptura democrática é um fator de risco considerável na sua opinião?

Parente: As instituições brasileiras são fortes o suficiente, mesmo com o esgarçamento que estamos vendo, para superar essas tensões e ameaças e legalmente manter o País na linha. Vimos movimentos recentes que mostraram reações das instituições dando contrapontos importantes. Se houver tentativa de ruptura, ela não será bem-sucedida justamente pela força das instituições brasileiras.

 

Esta entrevista foi publicada no Broadcast+ no dia 05/08/21 às 12h24.

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