Fundos de ações compram debêntures para aproveitar retornos antes de eventual atuação do BC

Fundos de ações compram debêntures para aproveitar retornos antes de eventual atuação do BC

Cynthia Decloedt e Fernanda Guimarães

21 de abril de 2020 | 05h00

Depois do mercado de crédito entrar em modo de pânico nas últimas semanas, em meio à pandemia do novo coronavírus, um movimento inusitado começou a ser observado: fundos de ações e multimercados começaram a atuar na ponta compradora dos títulos de dívida corporativa antecipando-se a uma eventual compra de debêntures pelo Banco Central. Nos de ações, alguns fundos capitalizados e outros que abriram para captação para aproveitar os preços mais baixos na bolsa, começaram a buscar pechinchas também no mercado secundário de debêntures, como a Truxt e Dynamo, esta última que já fez esse movimento no passado, conforme fontes ouvidas pelo Broadcast. Entre os multimercados a JGP estaria fazendo o mesmo movimento e estudando comprar debêntures para seu fundo de ações.

No caso dos fundos de ações esse tipo de compra chama mais a atenção, dado que não é comum essas carteiras carregarem títulos de dívida corporativa. Além disso, nem todos podem fazer esse tipo de compra, já que não tem essa possibilidade designada em seus regulamentos. “Os fundos de ações mais tradicionais, que têm fundos de pensão entre seus cotistas, não podem fazer esse movimento”, comenta uma fonte.

A expectativa de aprovação no Senado da PEC de Guerra, que entre suas medidas têm a atuação direta do Banco Central no mercado secundário de debêntures, acelera esse movimento e, de acordo com fontes, tem contribuído para conter a queda dos preços e abertura das taxas desses papéis. Nos últimos dias começa a ser observada queda da volatilidade desses papéis, segundo fontes.

Com as taxas das debêntures nas alturas, as ações em queda e muitas empresas reduzindo ou postergando dividendos, esses gestores entendem que algumas empresas oferecem retorno ajustado ao risco melhor nas debêntures do que nas ações. As debêntures da AES Tietê, por exemplo, têm oferecido retorno total de 8% ao ano (CDI mais prêmio de 4%), enquanto o retorno do dividendo esteve em torno de 5,15% nos últimos 12 meses. A classificação de risco da AES Tietê é AA+ e a debênture foi emitida a CDI somado a prêmio de 1%.

Algumas gestoras especulam que o Banco Central pode anunciar R$ 20 bilhões em recursos para compras diretas no secundário de debêntures. Para parte das fontes ouvidas, o montante seria capaz de melhor calibrar os preços, enquanto outra parte vê necessidade de um volume ainda maior. O argumento de uma das fontes, citando números da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima), é de que há cerca de R$ 61 bilhões em vencimentos este ano, sendo mais de R$ 700 milhões somente no segmento de energia.

Há uma corrente, entretanto, que defende a possibilidade de o BC sequer atuar, dado o comportamento de estreitamento das taxas que acontece nas últimas e do fato de que o ritmo de saques nos fundos de crédito deve ser mais brando. O prêmio das debêntures de melhor classificação de risco estão próximas a 4%, depois de atingirem 5% em meio a pressão vendedora. Antes da turbulência do Covid-19, esses papéis operavam em torno de 1% e 2%.

O impacto psicológico é uma estratégia utilizada pelos bancos centrais no mundo para influenciar preços sem colocar a mão no bolso. O Federal Reserve, o banco central norte-americano, anunciou um programa de recompra de bonds – o equivalente as debêntures – no montante de US$ 100 bilhões, um porcentual pequeno para o volume de cerca de US$ 7 trilhões em bonds de melhor qualidade. Mas foi com a notícia de que o programa poderia chegar aos US$ 5 trilhões que os prêmios efetivamente cederam para abaixo da casa dos 200 pontos-base, depois de superarem os 350 pontos-base. Em fevereiro, esses papéis operavam com prêmios pouco acima dos 100 pontos-base.

Contato: cynthia.decloedt@estadao.com e fernanda.guimarães@estadão.com

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