Gafisa passa de 200 dias sem CEO, nem acionista controlador. E continuará assim

Por Circe Bonatelli

15 de abril de 2020 | 05h01

São Paulo, 15/04/2020 – A Gafisa passou de 200 dias sem ter um presidente executivo no comando da incorporadora, uma das mais tradicionais no mercado imobiliário de São Paulo. Além disso, a companhia também não tem um acionista de referência, uma vez que o capital é pulverizado entre 30 mil acionistas.

Mas nada disso é um problema, na visão dos dois vice-presidentes executivos que compartilham a tarefa de tocar o dia a dia da empresa. Segundo eles, a companhia está pronta para retomar o crescimento e recuperar a confiança do mercado cerca de um ano após o fim de uma gestão polêmica do antigo controlador, a GWI, do investidor Mu Hak You.

O assunto foi discutido durante uma live organizada na última semana pela Corretora Necton com a administração da Gafisa. Questionados se a companhia voltará a ter um CEO, a indicação foi de que isso não faz parte dos planos.

“Vamos ter a estrutura que for melhor para o acionista. Temos hoje uma base bem montada”, afirmou o vice-presidente de Operações, Guilherme Benevides. “Se um dia ficar entendido que é melhor ter um CEO, vamos mudar”, completou.

Após a renúncia do então diretor presidente Roberto Portella, em 20 de setembro de 2019 (mais de 200 dias atrás), a Gafisa permaneceu apenas com um comitê de gestão, que é formado por três membros do conselho de administração – Nelson Tanure, Eduardo Larangeira Jácome e Gilberto Benevides – que ditam os rumos da empresa para os diretores executivos.

O principal manda-chuva é o investidor Nelson Tanure, conhecido pelas intervenções em empresas em recuperação judicial, como Oi e PetroRio (antiga HRT). Na Gafisa, ele também é acionista, mas seu nome não aparece no quadro societário porque sua participação se dá de maneira indireta, por meio da Planner Redwood Asset Management. Esta gestora detém 30% da companhia, e representa outros investidores cujos nomes também não são de conhecimento público.

Outro membro deste comitê de gestão é Eduardo Jácome, que tem experiência em reorganização de empresas. Ele atuou na PetroRio nos tempos de Tanure. E, no fim do ano passado, a Gafisa se uniu à incorporadora Upcon, que também é tradicional em São Paulo. Daí vieram outros nomes com experiência específica no setor da construção, como Gilberto Benevides.

“Não existe hoje a figura do controlador, nem um bloco de controle com voto coordenado. O que temos são acionistas de referência dentro de um grupo que detém 30% da empresa e que respeita toda a questão de governança de novo mercado”, explicou o vice-presidente de Finanças e Gestão, Ian Andrade, durante a live.

“A estrutura atual tem uma razão. São dois vice-presidentes, o que cria uma base multidisciplinar para a tomada de decisão. E é um luxo nós termos o contato com pessoas com o porte das que estão no comitê de gestão”, completou Andrade.

A reformulação no quadro societário e no quadro executivo da Gafisa teve início cerca de um ano atrás, após o fim de uma gestão tumultuada do antigo controlador, a GWI, de Mu Hak You. Ele chegou a deter 50% das ações da incorporadora, posição que conquistou essencialmente via compra de ações a termo, uma operação de alto risco no mercado financeiro.

Para evitar uma desvalorização dos papéis no momento de baixa do mercado, Mu Hak iniciou um programa de recompra, mesmo com pouco dinheiro em caixa. Como consequência, paralisou obras, deu calote em fornecedores e demitiu centenas de funcionários. No momento mais grave, a Gafisa chegou a receber ordem de despejo por não pagar o aluguel da sede administrativa. Os danos aos demais acionistas minoritários, porém, nunca foram alvo de reparação. E, do lado operacional, as consequências são sentidas até hoje.

“Os atrasos de obra estão dentro dos passivos. Nos balanços, temos todos os provisionamentos sobre multas e distratos por esses atrasos”, explicou Andrade. “O nível de irresponsabilidade e negligência, sob a gestão do acionista GWI, foi grande, paralisou todas as obras e deixou de pagar fornecedor”, disse, acrescentando que existem empreendimentos com entregas até 14 meses atrasadas, ultrapassando o prazo de carência em contrato, que é de 6 meses.

Apesar das dificuldades do passado, a atual administração entende que os problemas estão equacionados. A Gafisa passou por duas capitalizações que somaram aproximadamente R$ 400 milhões. Pela frente terá ainda um novo aumento de capital de R$ 310 milhões via emissão de novas ações.

“A reestruturação da Gafisa está concluída. A nova administração conseguiu apresentar um balanço fortalecido, em linha com empresas saudáveis do setor”, afirmou Andrade.

A Gafisa encerrou o ano de 2019 com R$ 414,3 milhões em caixa e R$ 584 milhões de dívidas com vencimento em 2020. Os vencimentos incluem R$ 542 milhões de dívidas de projetos (que são pagas com os recebíveis oriundos das vendas dos imóveis dos próprios projetos) e R$ 42 milhões em capital de giro.

“É uma posição de caixa robusta”, frisou. Na live, Andrade informou ainda que a Gafisa tem R$ 600 milhões em recebíveis de venda de imóveis para entrar no caixa em 2020. E no começo deste ano, foi realizada também uma renegociação de R$ 140 milhões em dívidas com o Banco do Brasil, com postergação dos pagamentos para 2025, abrindo mais fôlego financeiro para a empresa.

Por sua vez, Benevides afirmou que a companhia está pronta para voltar a crescer e que tem empreendimentos com valor geral de vendas (VGV) de R$ 1,5 bilhão para lançamentos no curto prazo, o que será feito de modo responsável após a crise do coronavírus. “A Gafisa esta preparada para retomar o crescimento, com projetos que serão únicos, terão grandes diferenciais”, afirmou Benevides, citando residenciais de luxo nos Jardins e Campo Belo. No ano passado, a companhia passou em branco e não lançou nenhum novo projeto em meio à sua reestruturação.

Os executivos também ressaltaram que o valor de mercado do estoque da Gafisa é de R$ 881,7 milhões e que aproximadamente 66% são unidades residenciais, localizadas no estado de São Paulo, mercado onde a incorporadora entende que há maior liquidez.

Por esses motivos, Andrade afirmou durante a live da Necton que considera uma “piada” o valor de mercado de R$ 232 milhões da Gafisa (cotação no fechamento do pregão de quarta-feira, 8, dia da live), o equivalente a 26% do seu patrimônio líquido de R$ 893 milhões. “A ação ser negociada com esse desconto eu entendo como injustificável, uma piada. As ações valem menos do que nós temos de caixa e de imóveis no estoque”.

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