Gestores adotam cautela e veem mais incertezas com caos político para alocar capital

Gestores adotam cautela e veem mais incertezas com caos político para alocar capital

Fernanda Guimarães

14 de maio de 2020 | 13h27

(Photo by Nelson ALMEIDA / AFP)

Depois o alívios nos mercados em abril, após uma sangria que abateu muitos fundos de investimento em março quando foi decretada a pandemia da covid-19, os gestores entraram em maio com mais cautela. A leitura é de que há muita incerteza no horizonte, especialmente no Brasil, quadro piorado com o caos político, tornando a alocação de capital ainda mais desafiadora. No geral, a aposta segue de que o dólar seguirá fortalecido em relação ao real e que é preciso pinçar ações na bolsa de empresas que podem sair menos afetadas pela crise, a qual pode estar longe do fim.

Na gestora de Luis Stuhlberger, a Verde Asset, a percepção é de que há muita incerteza e que isso torna muito difícil alocar mais recursos. O Brasil, segundo carta da gestora, é um dos países que menos testa a covid-19 no mundo, o que torna a tomada de decisão ainda mais complicada. “Junta-se a isso toda a confusão política recente, em meio a deterioração do cenário fiscal e de dívida no curto e médio prazo, e não surpreende a alta do dólar, a inclinação recorde da curva de juros, a alta dos spreads de crédito, e a fraqueza – com algumas exceções – do mercado acionário”, de acordo com o documento, referente ao mês passado.

No mesmo documento, a Verde destaca a rápida recuperação do mês de abril, após um primeiro trimestre muito ruim dos mercados e informa a decisão de reduzir, marginalmente, suas posições no mercado norte-americano. “A combinação de sentimento muito negativo, posição técnica melhor, com injeção de liquidez sem precedentes causou uma alta bastante robusta, liderada pelo S&P 500 e pelo Nasdaq. A pergunta agora é se os mercados não andaram muito na frente da economia real”, destaca o documento enviado a cotistas.

Na Ibiúna, do ex-diretor de política monetária do Banco Central Mário Torós, a visão também é de cautela em relação ao cenário econômico. “Apesar da forte alta em abril da classe de renda variável, a manutenção de elevada volatilidade destes ativos junto à incerteza acerca da dinâmica da expansão do vírus e da extensão do movimento recessivo à frente, seguem demandando a nosso ver prudência na alocação de risco a esse segmento”, de acordo com a carta da gestora. O documento diz que há pouca visibilidade em relação aos próximos meses e que, além das crises sanitária e econômica, “o quadro político tornou-se ainda mais complexo no decorrer do mês”.

Apesar desse cenário, a Ibiúna destaca que o tamanho dos pacotes de estímulos na maiores das economias e juros muitos baixos no mundo, assim como no Brasil, os deixam “cautelosamente” otimistas com as perspectivas para várias empresas brasileiras listadas em bolsa. A gestora destaca que em abril aumentou sua posição em JBS e Vale, visto que ambas se beneficiam com o real desvalorizado. A exposição em empresas como Ultrapar, BR Distribuidora, Yducs, Locamérica e Banco do Brasil foram mantidas. No outro sentido, foram reduzidas parcialmente participação da Cesp e EDP Brasil.

“No Brasil, a severidade da crise e a estratégia de repressão financeira das autoridades recomenda um portfólio comprado em dólar em relação ao real, aplicado em juros curtos, e em ações de empresas que tendem a navegar a crise relativamente bem”, de acordo com carta da gestora Legacy Capital.

Na Occam, a posição segue comprada em dólar contra o real, “com a visão de que continuaremos observado uma saída de recursos do País, amparada por um ambiente mais negativo para países emergentes e um diferencial de juros que não favorece nossa moeda”. No mercado acionário, a maior posição do fundo segue nas bolsas dos Estados Unidos, onde os gestores detectaram “uma normalização mais rápida de seus fundamentos pela maior concentração de empresas líderes e de tecnologia”.

A SPX, de Rogério Xavier, a visão segue pessimista tanto pelo tamanho do impacto na economia, quanto pela velocidade da recuperação. “Analisando o contexto pós-pandemia, nos vemos ainda mais pessimistas, uma vez que estaremos com uma dívida PIB extremamente elevada e, consequentemente, com a necessidade de um novo programa de ajuste fiscal”, de acordo com a carta da gestora.

Em ações, os fundos estão em busca de empresas com caixa forte e que, diante da crise, têm condições se saírem melhor, tal como empresas com forte presença no e-commerce ou exportadoras, que se beneficiam do real muito desvalorizado. Na AzQuest, por exemplo, a postura tem sido conservadora, sendo que mais recentemente o fundo elevou exposição em mineração e proteínas. “Diante do alto grau de incerteza em relação à dinâmica da epidemia e da magnitude dos impactos da recessão nos resultados das empresa, temos mantido uma postura conservadora, com maior exposição a empresas com fundamentos sólidos, com modelos de negócio menos sensíveis às medidas de restrição de circulação, como nos setores de utilidades públicas, alimentos, consumo básico e varejo online”, segundo a carta da gestora.

“Encontrar valuations que permitam retornos prospectivos acima do custo de oportunidade no longo prazo, seguirá sendo a principal alavanca para determinar o tamanho da alocação direcional do fundo em ações. A redução da exposição direcional foi até maior durante o mês, porém novas oportunidades surgiram em B2W e Multiplan, ativos que passam a compor a carteira em maio”, foi a mensagem da carta da XP Investimentos, a cotistas.

Contato: fernanda.guimaraes@estadao.com

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