Gestores seguem com cautela e apontam que pior do vírus no Brasil não passou

Gestores seguem com cautela e apontam que pior do vírus no Brasil não passou

Fernanda Guimarães

16 de junho de 2020 | 16h46

Se de um lado o Ibovespa vem demonstrando otimismo, com altas sendo observadas nas últimas semanas, os gestores de fundos de investimento seguem se posicionando com cautela no mercado, evitando uma tomada maior de risco por enxergarem a crise sanitária que assola o mundo ainda fora de controle no Brasil. De forma geral, a escolha tem sido por posições mais líquidas e uma carteira simplificada, com menos ativos. Apesar de várias regiões do globo começarem a enxergar uma luz no fim do túnel, em um momento pós-pandemia, a visão é de que, no Brasil, a situação é mais complexa. A aposta no dólar contra o real, exposição ganhadora por vários meses, começou a ser desmontada ou reduzida por muitos gestores.

O fundo Verde, de Luis Stuhlberger, que mantinha apostas na bolsa dos Estados Unidos, reduziu um pouco a exposição depois da forte alta no mercado norte-americano. “O fundo manteve a alocação comprada em ações brasileiras e fez pequena redução da alocação internacional”, segundo a última carta da gestora.

 

A leitura, contudo, é de cautela, porque a situação no País ainda é de desafios, visto que o pico de casos do novo coronavírus ainda não chegou, ao contrário de outras regiões do mundo, que estão observando queda na curva. “Parece haver inflexão nas taxas de crescimento em determinados lugares, mas ainda é muito cedo para otimismo. Some-se a isso uma boa dose de volatilidade política, e os ativos brasileiros sofreram durante boa parte do mês, até que um período de calmaria gerou recuperação importante na última semana de maio e aqui no começo de junho. Nesse contexto, também reduzimos posições em bolsa e juro real, e aumentamos proteção no dólar”, segundo o documento.

Os desdobramentos da pandemia ainda ditarão o rumos dos mercados, segundo carta da JGP Asset Management, que tem André Jakurski como sócio-fundador. “Seguimos adotando posicionamento mais tático e mantendo o portfólio mais leve em função da assimetria de riscos que observamos nos diferentes mercados. Iniciamos o mês comprados em Dólar contra Real e invertemos a direção no meio de maio”, segundo a carta da gestora.

Se em maio a posição comprada em dólar contra o real era dominante, a estratégia dividiu gestores na entrada de junho, com muitos encerrando ou pelo menos reduzindo a posição. No Adam Capital comandada por Marcio Appel, depois de bastante tempo investindo contra o real, a decisão foi manter um posicionamento neutro e comprado em bolsa brasileira. Na bolsa americana, a posição está vendida. “No portfólio de bolsa brasileira, seguimos com posição ‘net'(líquida) comprada. Para o portfólio de moedas, estamos neutros em dólar”, segundo a carta.

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Na Bahia Asset, a palavra de ordem é de boa seleção dos ativos que vão ficar na carteira e a opção é por aqueles que são mais líquidos, que são mais fáceis e se desfazer uma posição, de forma mais rápida se necessário. “Reconhecendo, assim, o ainda elevado nível de incerteza com relação ao cenário econômico, mantemos portfólios líquidos e continuamos atentos à seleção de ativos. Nesse sentido, continuamos buscando operações relativas entre ativos e países, levando em consideração aspectos sanitários, tecnológicos, econômicos e políticos”, conforme nota enviada a clientes. Em sua posição de renda variável, a gestora mostra exposição nos setores de mineração e bancos e comprado em Brasil no setor elétrico e no de consumo discricionário, que se beneficia da flexibilização do isolamento social.

Para a gestora Ibiúna, liderada pelo ex-diretor do Banco Central Mário Torós, não é momento de ter postura otimista, dado que a situação no Brasil é delicada e a crise sanitária trazida pelo novo coronavírus está fora de controle. “Nossa leitura desta situação é que o impacto da pandemia será majorado, uma vez que estamos ficando em quarentena por mais tempo que o esperado e o efeito sobre o contágio do vírus está sendo menor que o previsto (em outras palavras, a recuperação da economia será mais lenta do que prevíamos)”, conforme a última carta da gestora, enviada a seus cotistas.

Já a carta da SPX, de Rogério Xavier, demonstra pessimismo e diz que os riscos advindos do covid-19 não mudaram, apesar do relaxamento de medidas de isolamento social que estão sendo tomadas ao redor do mundo. “Por mais que os dados de alta frequência indiquem que o pior já passou, essa melhora é resultado de uma combinação de relaxamento parcial do isolamento e enorme estímulo fiscal e monetário. Os riscos relacionados ao vírus seguem os mesmos: uma segunda onda de contaminações ou de defaults. No Brasil, apesar do isolamento ter começado cedo, não teve uma implementação eficiente, o que favoreceu a disseminação do vírus. Agora estamos começando uma manobra arriscada flexibilização, com a epidemia ainda em crescimento”, aponta o documento.

Por sua vez, segundo carta da Gávea, do ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, no Brasil a escalada da crise política aumentou a incerteza sobre crescimento e gestão fiscal em meio a uma piora da crise sanitária. ~Nosso portfólio segue com baixo risco, com um viés a favor do dólar globalmente, de maior prêmio de risco em emergentes frágeis, porém com pequenas compras de ativos que vemos valor a longo prazo”.

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