Gol e Azul olham para experiência da Latam e pensam em alternativas após capitalização

Gol e Azul olham para experiência da Latam e pensam em alternativas após capitalização

Fernanda Guimarães e Cristian Favaro

13 de junho de 2020 | 10h00

 

Reunindo forças para conseguirem atravessar o maior período de crise de suas histórias, provocada pela pandemia do Covid-19, as companhias aéreas Azul e Gol estão acompanhando de perto o pedido de recuperação judicial (chapter 11) feito pela Latam nos Estados Unidos. No momento, ambas aguardam o desfecho do processo de capitalização, comandado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para este mês e já colocaram na mesa a possibilidade de recorrer, no futuro, à Justiça para a reestruturação de suas dívidas, passo ainda analisado com muita cautela, conforme fontes. Isso porque qualquer movimentação deve vir após o fim das tratativas com o banco de fomento para evitar perder o suporte do governo brasileiro. Paralelo a esses debates, as empresas discutem acordos com pilotos e comissários para tentar trazer um alívio para o caixa no período de incertezas quanto à demanda.

A Gol, conforme fontes, está em posição mais favorável na crise, com mais caixa e menos dependente de voos ao exterior, e no seu caso um pedido de recuperação judicial é visto como uma possibilidade mais remota. No entanto, essa é uma alternativa aventada, segundo fontes, já que uma recuperação judicial levará a um deságio da dívida das empresas que tomarem esse caminho e, dado o ambiente altamente competitivo no setor, quem ficar com uma dívida elevada ao lado de outras aéreas com vencimentos menores pode ficar para trás. Para trazer tranquilidade ao mercado sobre sua saúde financeira, a Gol abriu ao mercado que sua posição de liquidez estava em R$ 3,5 bilhões no fim de maio, melhor do que estava em medição anterior, o que, segundo ela, “protege e fortalece a companhia nessa crise”. Mesmo assim, a Gol fez reuniões com especialistas sobre tal caminho, apurou o Broadcast.

A Azul, por sua vez, contratou há cerca de dois meses a consultoria Galeazzi e o escritório de advocacia TWK, o mesmo que foi responsável pela recuperação judicial da Avianca.

No momento, as três companhias aéreas aguardam a entrada dos recursos da capitalização – que devem chegar a R$ 2 bilhões para cada companhia -, vindo do BNDES e um grupo de bancos privados. Segundo fontes, a capitalização poderá sair neste mês, mas existe grande chance de “escorregar” para julho. “O processo está evoluindo”, disse uma fonte. Uma das maiores dúvidas hoje é entender como será o apetite do mercado. Para que os recursos saiam, o desenho proposto prevê que ao menos 30% fique com investidores.

A Latam, que recorreu ao chapter 11 nos Estados Unidos há cerca de um mês, já era vista como mais frágil desde o início da crise, principalmente por não ser brasileira e ter sua operação concentrada, além do Brasil, no Chile – onde está sua sede – e Colômbia. Outra questão que afetou muito seus negócios é o fato de ter muitos voos internacionais, ao contrário da Gol, por exemplo, com predominância de voos em território nacional, e da Azul, com forte destaque para a aviação regional, mas que começou a apostar em voos aos Estados Unidos.

Ambas empresas, ao analisarem ainda a possibilidade de uma recuperação judicial, olham com lupa o caso malsucedido da Avianca, que ano passado acabou tendo sua falência decretada. A percepção é de que a negociação dos fretadores de aeronaves deve ser feita à parte, fora da recuperação judicial, com negociação de prazos, ao contrário do que foi feito pela Avianca.

O trato com as fretadoras de aeronaves às companhias (chamadas de lessors, no jargão do setor) não deve ser um problema. A própria Azul negociou postergações dos alugueis e suspensões. Os parceiros têm demonstrado compreensão do atual cenário, disseram os executivos, em teleconferência recente.

Questionada sobre a possibilidade de uma recuperação judicial, a Gol disse que desde o início da pandemia do coronavírus “vem estudando soluções com o objetivo de equilibrar e equalizar compromissos financeiros para preservar sua operação para os próximos meses”, disse. A Gol disse ainda ter mais de 10 meses em reservas de caixa para se proteger e se fortalecer na crise. Já a Azul reforçou que, desde março, contratou dois escritórios especializados para ajudar na negociação da companhia com parceiros e fornecedores. A empresa destacou continuar analisando as possibilidades de financiamento disponíveis no mercado para reforçar sua posição de caixa, sem que haja a necessidade de uma medida mais unilateral como a RJ.

Arrumando a casa

Enquanto a negociação de dívidas não vem, as aéreas têm se esforçado para reduzir o seu custo com folha de pagamento. Ontem, a Azul apresentou proposta ao Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA) para garantir a estabilidade dos empregos de pilotos e comissários por 18 meses, mediante redução de salário. A proposta ainda precisa passar por votação, mas traz cortes na casa de 40% na remuneração (parte a ser compensado com benefícios). A oferta veio na esteira do anúncio da Gol, que na semana passada fechou acordo com a categoria com a mesma validade. O entrave é a Latam, que afirmou ter intenção de alterar permanentemente o contrato de trabalho, algo que os sindicalistas disseram ser inviável.

O cenário para as aéreas é desafiador. Em videoconferências recentes, a SNA mostrou à categoria uma queda significativa na necessidade de tripulantes nas cabines para as três principais aéreas. Com menos demanda e restrições de voos, parte significativa da frota continua no chão. Para a Latam, por exemplo, o número de tripulantes de cabine necessários para a operação entre julho e setembro de 2020 é 61% menor do que o quadro da empresa. Entre janeiro e março de 2021, essa diferença é negativa em 12% e, entre abril e junho de 2021, de -5%.

Para a Gol, a estimativa é de um excesso médio de 33% entre o terceiro trimestre de 2020 (pico, com -63% de necessidade de tripulantes) e o quarto trimestre de 2021, quando o porcentual fica negativo em 10%. Para a Azul, os valores são negativos na casa de 49% em janeiro de 2021 e 16% em novembro de 2021. Apesar da crise, as aéreas não podem simplesmente cortar funcionários, visto que o prazo de treinamento das equipes é longo, o que poderia comprometer a retomada quando a turbulência passar.

Essa foi publicada no Broadcast dia 09/06

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