Governo sonda ex-Santander Conrado Engel para presidir BB após negativas

Governo sonda ex-Santander Conrado Engel para presidir BB após negativas

Por Aline Bronzati, colaborou Fabrício de Castro

28 de julho de 2020 | 05h00

Foto: Aline Bronzati/Estadão Conteúdo

A equipe econômica considera o nome do ex-Santander Conrado Engel para assumir a presidência do Banco do Brasil. O nome já teria sido, inclusive, apresentado à Casa Civil e surge após o Governo Bolsonaro ter recebido negativas de outros candidatos procurados em meio à renúncia do economista Rubem Novaes.

Engel está desde o início do ano como conselheiro sênior da gestora de fundos de private equity General Atlantic. Antes, foi vice-presidente e membro do Conselho de Administração do Santander Brasil e ainda presidiu a operação do HSBC no País, entre os anos de 2009 e 2012. Também integrou o colegiado do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

A escolha do nome de Engel estaria sendo conduzida pessoalmente pelo presidente do conselho de administração do BB, Helio Magalhães. Um convite formal ainda não teria sido feito, mas as conversas com o candidato caminham bem, de acordo com uma fonte a par do processo. A indicação do presidente do BB é feita pelo presidente da república, Jair Bolsonaro, e, portanto, também passa pelo seu crivo.

A escolha de Engel preenche alguns dos requisitos exigidos pelo Governo para o substituto de Novaes. Além de ser fora da instituição, ele tem experiência no varejo bancário. O nome tem sido bem aceito no mercado, considerando a experiência do executivo.

Caso aceite o desafio, será um sim após várias negativas de eventuais candidatos. Dentre os eventuais sucessores – e que teriam declinado às sondagens feitas  estariam o atual presidente do conselho de administração do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Marcelo Serfaty, e o próprio chairman do BB, Helio Magalhães. Ambos teriam recusado a empreitada por motivos similares e que incluem o momento de vida de cada um deles e a necessidade de se mudar para Brasília. Assim como Serfaty não gosta da ideia de trocar o Rio de Janeiro pela capital federal, Magalhães, aos 69 anos, prefere ficar em São Paulo.

Outros candidatos sondados, mas que também recusaram, seriam, conforme fontes, o diretor de estratégia digital do BV, antigo banco Votorantim, Guilherme Horn, e o CEO e fundador da Mauá Capital e ex-diretor do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo. Ambos já tiveram alguma relação com o BB. Figueiredo foi escolhido pelo ministério da Economia, Paulo Guedes, para presidir o conselho do BB no início do Governo Bolsonaro, mas abriu mão da posição após questionamentos em torno de possíveis conflitos de interesse. Já Horn integrou o colegiado do banco antes de ir para o BV, que se prepara para listar ações na Bolsa.

“Não é uma posição fácil. Há muita exposição política e riscos de todos os lados”, diz um executivo que acompanha o tema, frente a tantas negativas.

Outro fator que joga contra é a remuneração do cargo, menos atrativa do que a dos pares da iniciativa privada. O presidente do BB tem um salário mensal fixo de R$ 68,8 mil. A parte variável praticamente dobra a remuneração do cargo. Na iniciativa privada, a parte fixa é pelo menos o dobro.

Uma fonte do governo afirmou ao Broadcast que, até agora, ninguém foi oficialmente convidado para substituir Novaes. Mas confirmou que ocorreram sondagens. O substituto de Novaes será oficialmente convidado, diz a fonte na condição de anonimato, somente depois de o presidente da República, Jair Bolsonaro, bater o martelo em relação ao nome, o que ainda não aconteceu.

A equipe econômica deseja que o futuro CEO do banco seja conectado ao mundo digital, considerando o cenário competitivo com fintechs e bigtechs – perfil que o próprio Novaes sempre defendeu. Também é importante ter um currículo de peso. Até mesmo porque a formação acadêmica é um ponto que pesa na opinião do ministro da Economia, Paulo Guedes. Amigo pessoal de Novaes, ambos seguem as teorias da chamada Escola de Chicago, berço do liberalismo econômico.

Em geral, a leitura da equipe econômica, afirma outra fonte, é a de que os atuais vice-presidentes têm qualificações positivas, mas não exatamente todas as necessárias para assumir o cargo, por isso, o desejo de se buscar alguém de fora de casa. Dentre os nomes que circularam nas rodadas de apostas, estiveram os de Fábio Barbosa, de negócios e tecnologia; Mauro Neto, corporativo; Walter Malieni, do banco de atacado, e ainda de Carlos Motta, de varejo.

Uma escolha vista como ‘natural’, segundo executivos de mercado, seria a do presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães. Rumores sinalizando uma eventual dança das cadeiras entre os bancos públicos já circulam há meses. Guimarães tem dito a pessoas próximas, contudo, que tem desafios na Caixa e não aceitaria um eventual convite para assumir o BB ainda que o mesmo ocorresse – o que não teria acontecido.

Internamente, há a preocupação em relação ao nome que será indicado. De um lado, há temor por conta das alianças políticas que Bolsonaro tem feito, a exemplo dos cargos distribuídos ao Centrão. Do outro, em relação a um eventual nome da ala militar. Em seu governo, mais que dobrou o número de militares em cargos civis. No entanto, o estatuto do BB é rigoroso e exige experiência comprovada no setor financeiro, o que tem conseguido blindar o banco de indicações políticas. Outra barreira é o próprio ministro Paulo Guedes.

Além disso, o próximo presidente do BB também passará pelo crivo de Novaes, que deve interferir na sucessão, de acordo com duas fontes próximas ao tema. Isso pode ajudar ou não quem está no páreo. O executivo, que deve continuar a apoiar Guedes mesmo deixando o comando do banco público, estava no Rio de Janeiro ontem dia 27, para exames e já retornou a Brasília para participar das discussões.

Aos 74 anos, Novaes anunciou a saída do comando do BB com a alegação de que o banco precisa de renovação para enfrentar os momentos futuros de muitas inovações no sistema bancário, conforme fato relevante publicado na sexta-feira, 24. Além disso, conforme disse ao Broadcast, não suportou a cultura “apodrecida” de Brasília. “Simplesmente chegou a hora de sair e dar lugar a alguém da geração digital”, disse.

Ele deixará o BB em 6 de agosto, após entregar os resultados do segundo trimestre. Defensor ferrenho da privatização do banco – mesmo contra à vontade do presidente Jair Bolsonaro, Novaes assumiu uma agenda de desinvestimentos, mas que teve pouco avanço. Negociações foram iniciadas, com o anúncio, por exemplo, da joint venture com o UBS e a conclusão da venda de ações do ressegurador IRB Brasil Re. A pandemia, contudo, atropelou o circuito.

O período em que Novaes esteve à frente do BB também foi embalado de situações polêmicas, principalmente, em assuntos relacionados à publicidade. Na mais recente, travou um embate com o Tribunal de Contas da União (TCU), que determinou limitações à instituição sob a alegação de que o banco estaria contribuindo com sites que propagam fake news.

Novaes não fugia de brigas, ao contrário. Muito menos de perguntas. Em certa ocasião, travou uma discussão pública com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, chamando-o de Botafogo, seu apelido nas planilhas de propinas da Odebrecht, reveladas durante a Operação Lava Jato.

Do lado dos resultados, Novaes entregou números recordes, mas não cedeu a pressões por redução de juros. Segundo ele, seu mandato era maximizar resultados. Também cortou custos. Foram mais de R$ 10 bilhões em despesas operacionais enxugados durante sua gestão.

Procurado, o Ministério da Economia não se manifestou sobre o assunto. O BB também não comentou.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 27/07 às 16h40 e atualizada às 19h25.

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