Hospitais de transição atraem fundos e inauguram nova onda de investimentos em saúde

Hospitais de transição atraem fundos e inauguram nova onda de investimentos em saúde

Cynthia Decloedt e Luísa Laval

23 de agosto de 2021 | 17h20

Fundos se antecipam a provável onda de consolidação Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Os hospitais e clínicas que atendem pacientes com doenças terminais, crônicas ou aqueles que precisam de um longo período de recuperação estão atraindo a atenção de investidores financeiros. Os fundos se antecipam a uma provável onda de consolidação no segmento. Os possíveis alvos ainda são grupos pequenos, com um número baixo de leitos se considerado a demanda potencial. Mas as empresas do setor já entenderam que precisam de capital financeiro para crescer e se posicionar bem para quando o momento das compras chegar.

Fundos de private equity (de participação em empresas) como HIG, General Atlantic, Península e Vinci Partners têm conversado com executivos que estão à frente dos chamados hospitais de transição para eventual aporte de recursos, a fim de desenvolver essas redes. No ano passado, a gestora norte-americana focada em investimentos sustentáveis Blue Like an Orange aportou R$ 30 milhões para financiar a expansão do Placi, fundado em 2013, a partir de um fundo da gestora de private equity e venture capital FinHealth. A Clínica Sainte-Marie, que nasceu de um serviço de oncologia, faz parte do grupo Brasil Senior Living, do Pátria Investimentos.

Do lado dos hospitais, movimentos de expansão no País estão em andamento. O Premium Care, fundado em 2007 por um médico e um administrador financeiro, está trabalhando em uma estratégia de crescimento e tem conversas com fundos de private equity. “Estamos em um processo de non deal roadshow (apresentação a investidores), com intenção de realizar uma captação nos próximos meses”, diz o diretor-presidente da rede de clínicas, Alexandre Santini.

O executivo explica que o Premium Care está discutindo com os eventuais investidores um modelo de aporte e estratégia de crescimento que pode resultar em mais de uma única rodada de investimento, atrelada à expansão orgânica e aquisições de concorrentes. “Vai haver um consolidador nesse mercado e queremos nos posicionar”, pontuou. A rede está abrindo sua oitava unidade e até o início de 2022 deve ter 350 leitos, dos atuais 204.

As atenções se voltam para eles por um grande motivo: em média, o custo de um leito em um hospital de transição é 50% menor do que um leito de tratamento agudo de um hospital de rede, podendo alcançar 80%. Para os grandes hospitais essa é uma “economia” que faz cada vez mais sentido.
Além de o custo médico estar acima da inflação, as grandes redes de hospitais sofrem pressão das operadoras de saúde para baratearem as internações. A pandemia, com o crescimento do número e o período de internações nas unidades de tratamento intensivo, escancarou essa deficiência do sistema de saúde brasileiro.

“É um mercado que tem muito potencial de expansão no Brasil. O segmento é extremamente fragmentado e ainda não existe um grande player nacional, o que abre muitas oportunidades para os investidores e para consolidação”, afirma a consultora Judith Varandas, da Setter. De acordo com ela, por enquanto, essas redes estão focadas na expansão orgânica que será seguida por consolidação.

“Na década de 2000, vimos muita consolidação no segmento de laboratório. Era um setor extremamente fragmentado, tinham mais de 18.000 laboratórios no Brasil. Na década seguinte, foi a vez dos hospitais e planos de saúde, movimento que se mantém até hoje”, diz a sócia da Setter.

Fator pandemia

O presidente do Placi, Carlos Alberto Chiesa, diz que esse é um mercado em fase embrionária e de modelo mal compreendido inclusive pelos hospitais e operadoras de saúde. Mas cita que a pandemia ajudou a mudar o quadro. “A pandemia gerou uma população muito grande de pacientes com perdas funcionais muito acentuadas e mostrou aos planos de saúde e aos hospitais necessidades que esses pacientes têm, e que sempre existiram, e eram difíceis de serem compreendidas”, comentou Chiesa.

Ele explica que a porta de entrada dos pacientes são os planos de saúde, que têm no modelo de transição uma forma para acelerar a desocupação dos leitos hospitalares e, com isso, reduzir custos. O executivo calcula que o potencial de crescimento desse mercado seja de no mínimo 15 vezes, tendo como base uma comparação entre o número de leitos oferecidos pelas clínicas e hospitais de transição disponíveis no País e nos Estados Unidos, por exemplo.

Segundo ele, a relação de leitos de hospitais de transição para leitos hospitalares pós agudos é de 11 para 1 mil no Brasil. Na Alemanha, essa relação sobe para 330 por 1 mil e no Canadá, para 230 para mil.

Varandas acrescenta que no mundo, o mercado de pós-agudo (que inclui clínicas de transição e de retaguarda) movimenta US$ 473,3 bilhões. O segmento é bastante desenvolvido em países como Estados Unidos, Canadá, Austrália e partes da Europa. Nos EUA, quase 34% das altas hospitalares são para unidades de cuidado pós-agudo – o número chega a 49% no sistema de saúde canadense. No Brasil, diz a consultora, apenas 5% das altas hospitalares são para clínicas de transição e retaguarda.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 20/08/21 às 08h30.

O Broadcast+ é a plataforma líder no mercado financeiro com notícias e cotações em tempo real, além de análises e outras funcionalidades para auxiliar na tomada de decisão.

Para saber mais sobre o Broadcast+ e solicitar uma demonstração, acesse 

Contato: colunabroadcast@estadao.com

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.