Incertezas impedem repasse de corte da Selic ao custo do crédito para empresas

Incertezas impedem repasse de corte da Selic ao custo do crédito para empresas

Cynthia Decloedt

13 de maio de 2020 | 15h46

Os novos cortes promovidos pela Banco Central na Selic, incluindo o da semana passada que levou a taxa para 3%, não têm surtido efeito no custo do crédito para as empresas, que tem seu maior componente nesse momento vindo das incertezas presentes no cenário brasileiro. Ao contrário, o custo para captação em bancos e no mercado continuam elevados, balizados pela curva futura do juro, que tem ficado mais alta. Além disso, até agora, os bancos e o mercado de capitais estiveram focados nas grandes empresas, de menor risco. Existe expectativa de que a entrada do Banco Central no mercado secundário de crédito privado, conforme aprovado no Congresso na PEC de Guerra, ajude a desconcentrar o fluxo das melhores companhias, uma vez que ao comprar papéis, mesmo que somente entre os melhores nomes, a referência de preço dos empréstimos tende a cair para todos. A esperança é que, com isso, as concessões migrem para as empresas que estão abaixo do topo, em termos de qualidade de crédito.

Mesmo assim, é praticamente consenso que o leque de perguntas sem respostas siga fazendo preço no mercado, implicando um custo mais elevado na tomada de crédito pelas companhias do que o mercado entende como o novo normal – pós pandemia. A inadimplência é uma curva que ainda está em formação e sequer os bancos têm noção de qual patamar atingirá, especialmente porque depende da duração do período de lockdown frente à pandemia do novo coronavírus e, sobretudo, o ritmo da retomada, com impacto no faturamento das empresas e no emprego. Além disso, a crise política que diariamente emerge nas manchetes tem contribuído negativamente para este cenário, tornando frágeis a confiança e o alcance de soluções para as dificuldades que o País enfrenta ou têm à frente no campo econômico.

“Entendemos que o objetivo do Banco Central com as compras diretas no mercado secundário não é salvar investidores ou grandes empresas, mas interferir na decisão das instituições financeiras para que emprestem mais às médias empresas, ao colocar os preços das grandes em níveis adequados e, por consequência, também das outras companhias”, afirmou o CEO da gestora de fundos de crédito privado Sparta, Ulisses Nehmi.

Segundo ele, existe um grande gap entre os prêmios praticados no mercado secundário de debêntures – uma referência de preço utilizada pelos bancos para concessão de outros tipos de empréstimo. “Para as empresas classificadas em AAA, o custo está, em média, 3 pontos porcentuais acima do praticamente antes da crise. Para as companhias abaixo desse patamar, mais que o dobro”, cita.

O gestor responsável pelos fundos abertos da Quasar, Carlos Messa, acredita que os prêmios exigidos pelos investidores para comprar papéis de empresas terá um novo ajuste de queda quando o BC efetivamente indicar quanto pretende comprar e como será a operação. Ele lembra que os prêmios já diminuíram com a expectativa de entrada da autoridade monetária no mercado secundário, assim como por conta da atuação dos bancos que compraram debêntures.

“Há espaço para fechamento maior dos prêmios, mas o mercado não volta aos níveis do final do ano passado, em que papéis de primeira linha pagavam prêmio de 1,2% ou 1,5% acima do CDI”, diz Messa. Ele acredita que os prêmios devem ficar entre 2% e 2,5%, lembrando que no pico da turbulência desde março, alguns papéis chegaram a ser negociadas no secundário com prêmios acima de 4,5% e agora circulam em torno de 3%.

O presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Ricardo Gelbaum, entende haver dois pontos que suavizam o impacto da ampliação do juro futuro, na esteira dos cortes praticados pelo BC na Selic. Um deles é que os empréstimos, especialmente os bancários, são em sua maioria referenciados em porcentual do CDI, ou seja, a base diminuiu e o custo no todo acaba não sendo tão expressivo. “O custo de tomar dinheiro está mais alto, incorporando prêmio de risco maior e a expectativa de elevação das taxas no futuro, mas não tão mais alto do que os patamares do ano passado, quando a própria Selic se encontrava em nível mais elevado”, observou.

Seu segundo argumento é o de que, dada a magnitude da crise, a demanda por crédito das empresas tende a diminuir, também suavizando seu custo. “Nos meses de março e abril, as empresas já tomaram muito dinheiro e agora, nos meses de maio e junho buscarão recursos para capital de giro. Ninguém vai investir”, disse. Gelbaum, que também é diretor de Relações com o Investidores do Daycoval, concorda, de qualquer forma, que existe hoje disfunção de preços provocada pelo risco de crédito exacerbado nas incertezas. “Ninguém sabe exatamente quanto encolherá o PIB”, comenta.

Esta matéria foi originalmente publicada no Broadcast no dia 11 às 16h44

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