Inflação elevada pesa mais do que eleições e pode retardar volta dos IPOs

Inflação elevada pesa mais do que eleições e pode retardar volta dos IPOs

Cynthia Decloedt e Altamiro Silva Junior

19 de maio de 2022 | 05h20

Apenas neste ano, foram suspensas 26 ofertas na B3   Foto: Gabriela Biló / Estadão

A expectativa de que o mercado de ações possa viver uma retomada das ofertas após as eleições está perdendo força, com a inflação não dando mostras de ceder aqui e no exterior. As preocupações com a duração e impacto nas taxas de juros das pressões inflacionárias colocaram o resultado do pleito presidencial em segundo plano. Nenhuma nova oferta de ações (IPO, na sigla em inglês) aconteceu desde agosto de 2021 e 26 foram suspensas apenas neste ano, incluindo nomes como a rede de supermercados Cencosud, a Dori Alimentos e o grupo de restaurantes Madero. Na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) há cinco ofertas de IPO em análise, que podem escorregar para 2023. Além disso, há uma fila de operações represadas nos bancos de investimento.

“Quando mudar a percepção de inflação, de que se chegou ao pico, as ofertas subsequentes destravam”, disse o responsável pelo banco de investimento do Bradesco BBI, Felipe Thut. O executivo nota que o preço das ações em relação ao lucro está mais de duas vezes abaixo da média dos últimos sete anos, o que ajuda a atrair investidores a partir de sinais de mudança na rota da inflação. O múltiplo preço/lucro das companhias brasileiras caiu quase pela metade.

Ainda não há visibilidade de quando a Selic pode se estabilizar

Para os IPOs, no entanto, é preciso confiança de que o juro se estabilizou e, especialmente, de que poderá começar a cair para abaixo de dois dígitos para as ofertas começarem a sair. O Bradesco acredita que a inflação irá atingir um pico no segundo trimestre, mas a taxa de juros ficará abaixo de dois dígitos no fim de 2023. Nesse ambiente, os próximos índices de inflação são os indicadores mais importantes para se monitorar.

Por enquanto, ainda não há visibilidade de quando a Selic pode de fato se estabilizar para, em seguida, começar a cair, argumenta o executivo do Bradesco. É essa sinalização que vai ditar o comportamento dos fluxos de recursos para a renda variável. O recorde de ofertas de ações no Brasil se deu justamente com a Selic perto das mínimas históricas, de 2%. Na volta das operações, com as taxas ainda altas, Thut não acredita que será mantido o mesmo ritmo de 2000 e 2022.

Fundos de ações perderam R$ 40 bilhões este ano

Com as taxas de juros batendo em dois dígitos no começo de 2022, e com tendência de elevação, os fundos de ações não param de perder recursos, com fuga de R$ 40 bilhões este ano, o que inviabiliza as ofertas. Já a renda fixa atraiu R$ 91 bilhões, segundo a Anbima. Se o mercado começar a ver queda de juros, parte desse fluxo pode voltar para aplicações de maior risco. Há algumas poucas empresas com IPO em preparação para tentar ir a mercado em julho, mas se a inflação não der mostrar de ceder, a expectativa é que sejam engavetadas à espera de um melhor momento.

 

Esta nota foi publicada no Broadcast no dia 18/05/22, às 12h51

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