Investimento e geração de emprego só voltam com vacinação, diz presidente do Citi no Brasil

Investimento e geração de emprego só voltam com vacinação, diz presidente do Citi no Brasil

André Ítalo Rocha e Aline Bronzati

17 de março de 2021 | 11h37

O presidente do Citibank no Brasil Marcelo Marangon. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO

Enquanto o governo Bolsonaro não passa a marcha para acelerar a vacinação no Brasil e uma nova retração econômica começa a bater na porta, cresce entre empresários e executivos uma cobrança para que as autoridades acelerem o ritmo de imunização. Esse é o caminho para o controle das contas públicas e a retomada da economia, defende o coro que tem, dentre eles, o presidente do banco Citi no Brasil, Marcelo Marangon.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, ele faz um apelo para que haja uma mobilização geral pela vacinação contra a covid-19 no Brasil, colocada como a primeira condição para que o País saia do buraco. “Quanto mais demorarmos para vacinar a nossa população, mais lenta será a retomada e os impactos vão ficando mais graves”, afirma o executivo. Ele também vê a imunização como fundamental para que o governo possa retomar a disciplina fiscal.

Preocupado com o controle das contas públicas, Marangon mantém esperanças no avanço da agenda de reformas, pede urgência no tema e diz que, pelo menos segundo as conversas que o setor mantém com o Ministério da Economia, a pauta fiscal segue como prioridade. “Há um contexto complexo, mas a agenda ainda está lá”, diz.

Confira os principais trechos da entrevista:

A lentidão na imunização dos brasileiros deve respingar na retomada econômica?

Marangon: A recuperação econômica está diretamente relacionada à capacidade de vacinação. É urgente que todos se mobilizem para que possamos acelerar esse processo de vacinação. O que vai trazer de volta investimentos, geração de emprego, renda, consumo, fazendo esse ciclo funcionar novamente, é a vacinação. Quanto mais demorarmos para vacinar a nossa população, mais lenta será a retomada e os impactos vão ficando mais graves. Para a economia, projetamos queda de 0,5% para o primeiro trimestre deste ano, com estabilidade no segundo. Se conseguirmos acelerar a vacinação, podemos ter crescimento no terceiro e no quarto trimestres. Mas as projeções de mercado estão se deteriorando e isso nos preocupa.

A PEC Emergencial saiu desidratada. Qual a sua crença na agenda reformista e liberal do governo Bolsonaro?

Marangon: A agenda de reformas é fundamental para a estabilidade e para a estabilidade fiscal do País, que é crucial para a retomada de investimentos e a geração de crescimento econômico. Colocando a política de lado, precisamos das reformas. Isso nos preocupa e temos um senso de urgência. Precisamos agir rápido e com consistência.

A política, porém, está cada vez mais enraizada no dia a dia brasileiro. Na semana passada, a agenda de 2022 foi antecipada com a volta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Como o investidor estrangeiro está digerindo tudo isso?

Marangon: A primeira preocupação é a situação fiscal do País. Independentemente de liderança política, o que se espera é que as decisões sejam tomadas na direção correta, que é uma austeridade fiscal. A crise e a pandemia nos levaram a uma situação fiscal insustentável, então, precisamos tomar as medidas adequadas. Por sua vez, os gastos públicos estão diretamente relacionados ao combate à pandemia. Voltamos à vacinação. Quanto antes conseguirmos vacinar, podemos acelerar a retomada econômica, que terá impacto positivo na situação fiscal. A preocupação do investidor é que esses assuntos sejam endereçados. E nós entendemos a dinâmica da democracia. Nos diálogos que temos com o Ministério da Economia, vemos ainda o foco com a agenda fiscal. Há um contexto complexo, mas agenda ainda está lá, e devidamente suportada pelo setor financeiro.

O aumento dos juros antes do previsto pode respingar na demanda por crédito em 2021?

Marangon: Temos visto o aumento sucessivo da inflação, fruto de commodities e câmbio. Não é demanda local. O câmbio vem desvalorizando, acima do que julgamos adequado ou relacionado à situação econômica do País, e isso é fruto da falta de confiança no lado fiscal. Temos preocupação com juros e vemos aumento da Selic, que deve sair de 2% para 5% até o fim do ano, em seis aumentos sucessivos de 0,5 pontos porcentuais. Mas isso não deve afetar a demanda por crédito nem o repasse. Estruturalmente, os juros estão baixos. O juro real negativo não condiz com a situação fiscal que temos. Política monetária vai trazer equilíbrio e não vai afetar investimentos, nem deveria prejudicar a retomada da economia.

O senhor concorda com a tese de que o Brasil flerta com um cenário de estagflação?

Marangon: Ainda não estamos lá. Mas se não combatermos a pandemia de maneira rápida e não tivermos disciplina fiscal, podemos caminhar para esse cenário. Se esses dois fatores não acontecerem, vamos continuar com câmbio depreciado, que vai continuar afetando a inflação. A commodity é preço global e vemos aumento de demanda nos países que estão saindo da crise de covid-19 antes de nós. Então, sim, podemos ter um cenário com inflação e sem crescimento econômico, se não houver vacinação rápida e disciplina fiscal.

O senhor disse que 2021 seria ainda mais ativo para o mercado de capitais. Como enxerga este ano, diante da frágil situação fiscal do País e lenta vacinação? Ainda prevê mais de US$ 30 bilhões em ofertas de ações?

Marangon: Esse número pode ser ainda maior, se caminharmos na direção adequada. É uma das oportunidades que o Brasil tem. É um país de dimensão continental, com 200 milhões de consumidores. Temos inovação, juventude, uma série de empresas bem posicionadas, em busca de capital para crescimento. Podemos ter na próxima janela mais de 20 operações vindo a mercado, com volume substancial, de R$ 50 bilhões. Número pode ser ainda maior se o País for na direção adequada.

Como o senhor avalia o ambiente para estatais após o evento Petrobras, considerando que, entre as operações esperadas para 2021, há algumas de empresas públicas e outras que as têm como sócias?

Marangon: O investidor vai olhar com muita atenção a questão de governança, que passa a ser item bastante importante, além, obviamente, da tese de investimento, do posicionamento da companhia no setor e da perspectiva de crescimento. A governança se torna um tema tão importante quanto os demais. E aí entram os conceitos abrangentes de ESG (meio ambiente, social e governança, na sigla em inglês), na mais plena definição, não só fazendo analise da liderança da gestão sobre esses temas, mas de fato como cada um é endereçado: como funciona a governança, a atenção ao meio ambiente, que atitudes e ações a empresa tem tomado para manter a sustentabilidade das operações, além da função social, tanto para funcionários, quanto para a comunidade.

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 17/03/2021, às 05:01:01.

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