Janela no mercado externo pode atrair até US$ 5 bi em captações de empresas brasileiras

Janela no mercado externo pode atrair até US$ 5 bi em captações de empresas brasileiras

Cynthia Decloedt

05 de junho de 2020 | 05h00

O mercado de dívida externa abriu importante janela para emissores de países emergentes, após dois meses de ressaca da crise da covid-19, quando apenas companhias de alta qualidade de países desenvolvidos seguiram captando. A expectativa é de que outras empresas acessem o exterior nas próximas semanas e alguns especialistas calculam haver a possibilidade de serem anunciadas até US$ 5 bilhões em novas operações brasileiras a partir das próximas semanas.

Não está muito claro quem serão os próximos nomes. Esta semana, comentou-se que Suzano poderia vir ao mercado por conta de encontros com investidores estrangeiros, que, na verdade, teriam como foco outros temas, e não uma eventual emissão. Braskem também é um nome que passou a circular no mercado. Os bancos estão entre os citados como potenciais emissores, com os médios eventualmente buscando elevar seu capital para fazer frente ao crescimento de operações relacionadas à crédito.

O perfil dos potenciais emissores, dizem especialistas, são de empresas de menor risco, preferencialmente já conhecidas e que pretendem reforçar caixa, ainda que isso seja feito por meio de troca de dívidas mais caras por mais baratas.

“As emissões realizadas pelos melhores nomes do mercado norte-americano e o fato de os custos de captação terem se ajustado criaram impacto positivo para outros emissores, de forma mais evidente em maio para os emergentes e para os latinos”, diz o responsável por mercado de dívida do Bradesco BBI, Philip Searson.

Ele destaca que os emissores de alta qualidade norte-americanos já captaram US$ 1,07 trilhão no acumulado deste ano, sendo mais de US$ 700 bilhões de março para cá. “Este mercado praticamente não parou, já que, em condições normais, captam em torno de US$ 1 trilhão anualmente”, diz ele. Searson acredita que o Brasil, que levantou cerca de US$ 14,5 bilhões até aqui, pode ultrapassar os US$ 26 bilhões emitidos no ano passado, se as condições de mercado se mantiverem favoráveis.

O diretor responsável pelo mercado de dívida global do Santander, Sandro Marcondes, afirma haver cerca de cinco empresas analisando o mercado externo nesse momento, somando um volume potencial de novas captações entre US$ 3 bilhões e US$ 5 bilhões. “As empresas devem captar para rolar dívidas mais caras ou buscar um novo nível de capital de giro para atender eventuais necessidades em meio à crise que afeta todos os segmentos”, diz Marcondes.

O executivo do Santander vê um volume maior de operações acontecendo no final deste semestre e início do próximo. “É provável que algumas empresas esperem um pouco mais, para ver se haverá queda maior de custos”, pontua. Marcondes lembra que agosto e setembro são tradicionalmente meses em que o mercado costuma fechar por conta das férias no Hemisfério Norte. Este ano, no entanto, dada à pandemia e o isolamento, não está claro, segundo ele, se as férias realmente acontecerão nos Estados Unidos, onde o mercado de dívida é mais ativo.

Liquidez

As transações recentes feitas de países emergentes têm encontrado demanda de dois dígitos, deixando clara a necessidade de alocação pelos grandes investidores globais, uma vez que a enxurrada de recursos que os governos estão despejando nas economias começa a circular. Tesouro e Petrobras atraíram mais de US$ 30 bilhões em demanda para suas operações, apesar da agitação política e social no País e enquanto tensões sociais começam a surgir no Equador e no Chile. O governo da Colômbia também atraiu US$ 18 bilhões na segunda-feira para uma emissão de aproximadamente US$ 2 bilhões, enquanto vizinhos como Argentina e Equador renegociam suas dívidas externas.

Assim, o excesso de liquidez tem deixado em segundo plano estas e outras questões ainda não respondidas sobre a epidemia e sobre o impacto das desconcertantes projeções globais de PIB que são anunciadas.

Marcondes destaca o curto espaço de tempo em que foi possível voltar ao mercado nessa crise. Enquanto em 2008 foram 22 semanas até que algum emissor brasileiro encontrasse conforto para lançar uma nova operação no mercado de dívida externa, agora isso aconteceu em 14 semanas. Na crise de 2015, que não tinha o mesmo espectro global, o hiato chegou a 39 semanas.

A incerteza com o futuro de curto e médio prazo tem aberto a possibilidade para captações mais longas, tendo investidores institucionais, como fundos de pensão e seguradoras, na ponta compradora. A emissão de US$ 3,25 bilhões da Petrobras, por exemplo, teve uma das tranches no prazo de 30 anos.

A elevada demanda traz também compressão nos prêmios de risco exigidos pelos investidores, que somada à expressiva queda do juro norte-americano, promove grande eficiência de custos. Os prêmios de risco brasileiros estão cerca de 100 pontos-base acima dos praticados anteriormente ao covid-19, mas o custo nominal tem se mostrado muito pouco superior a captações feitas anteriormente. “Os custos se recuperaram drasticamente nos últimos 15 dias”, observou Searson.

Essa matéria foi publicada no Broadcast em 04/06/2020, às 18:07:50

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