Levadas à Bolsa no boom dos IPOs, novatas agora enfrentam crise sozinhas

Levadas à Bolsa no boom dos IPOs, novatas agora enfrentam crise sozinhas

Cynthia Decloedt e Talita Nascimento

21 de junho de 2022 | 05h10

Entre 2019 e 2021, houve recorde de IPOs na B3    Foto: Fernanda Guimarães/Estadão

Depois do recorde de ofertas de ações (IPO, na sigla em inglês) entre 2019 e 2021, várias empresas estão órfãs na bolsa agora. Nesse grupo, há particularmente empresas menores, de baixa receita e até sem lucro, mas que acabaram listadas com promessas de alto crescimento.

GetNinjas, Espaçolaser e Enjoei são algumas das companhias que viram fundos que sustentaram suas ofertas desmontarem posições diante da mudança de percepção global de risco. Tais saídas pesaram nas cotações de suas ações e tiraram bilhões de seus valores de mercado. Recompra de ações ou rearranjo de seus negócios são alguns dos caminhos buscados para evitar queima de caixa e piora na percepção do mercado para seus negócios.

Valor de mercado da GetNinjas passou de R$ 1 bilhão para R$ 143 milhões

A GetNinjas estreou na B3 em maio do ano passado, valendo mais de R$ 1 bilhão. Na oferta, levantou pouco mais de R$ 500 milhões. Para garantir a operação, que ocorreu em uma semana de turbulência em que outras estreantes desistiram de levar à frente suas emissões, chegou ancorada por fundos como Verde, Miles e Indie Capital. O fundo Miles vendeu sua fatia no fim do ano passado e, ao lado da saída do Tiger Capital, fundo de venture capital que vinha apoiando o nascimento da empresa, contribuiu para perdas de quase 90% de suas ações em 12 meses. Na última sexta-feira, 17,  seu valor de mercado era de  R$ 143,1 milhões.

“Empresas de small caps, como a nossa e outras, sofrem mais com saídas de acionistas mais relevantes”, afirma o presidente e fundador da GetNinjas, Eduardo L’Hottelier. Segundo ele, a Miles Capital, que tinha uma fatia de cerca de 6% na sua empresa, vendeu a participação por conta de mudanças de estratégia e por conta de resgates. “Essa venda, em momento de poucos compradores, comprimiu a ação”, acrescenta. No caso da Tiger, a venda já era esperada por conta do amadurecimento do investimento, segundo L’Hottelier.

Avaliada em R$ 4,35 bi em 2021, Espaçolaser agora vale R$ 608 milhões

A Espaçolaser é outro caso que tem chamado a atenção do mercado. A estreia na bolsa foi em fevereiro do ano passado, avaliada em R$ 4,35 bilhões, e movimentando R$ 2,6 bilhões. Valia na sexta-feira, 17, R$ 608 milhões, reflexo de queda de quase 87% de suas ações. O impacto veio do cenário macroeconômico adverso, que prejudicou as margens da companhia e provocou adaptações em seu plano de expansão. A queda, porém, não veio apenas das linhas do balanço que não convenceram. Passada a euforia com os IPOs, vários fundos de investimento reduziram posições em varejo e consumo, segmentos mais sensíveis à alta da inflação e dos juros.

Fundo Squadra vendeu mais de 10% da Espaçolaser

Entre eles, o Squadra, fundo de longo prazo e referência para vários investidores, que, ao vender mais de 10% da Espaçolaser, fez os papéis começarem a queimar nas mãos do mercado.

O Squadra ganhou notoriedade após ter identificado problemas na contabilidade da resseguradora IRB antes de eles se tornarem públicos. Tais questões culminaram na queda de vários executivos no comando da empresa. Na rede de depilação, o receio da Squadra teria sido de aumento da inadimplência da companhia, dado o cenário desafiador de crédito no País.

No último balanço, a Espaçolaser demonstrou que já se preparava para o não pagamento por parte de alguns clientes. “As despesas operacionais também foram impactadas pelo aumento na provisão de crédito de liquidação duvidosa influenciada pela redução na renda disponível de nossos clientes, que acabam não conseguindo concluir as sessões de depilação à laser”, diz o documento de resultados da companhia.

Valor de mercado da Enjoei caiu para R$ 269,7 milhões

A Enjoei, plataforma de roupas e objetos usados, chegou à bolsa no fim de 2020 avaliada em R$ 1,1 bilhão e, na última sexta, valia R$ 269,7 milhões. Suas ações caíram cerca de 87% em 12 meses. Os investidores Verde Asset e o Morgan Stanley, que suportaram a entrada da empresa na bolsa, reduziram posições. A leitura do mercado é que a empresa decepciona em virtude de um mercado pouco maduro para o ramo de roupas e objetos de segunda mão.

Recentemente, Renner, Arezzo e até a Decathlon investiram no segmento. Apesar de a Enjoei estar mais avançada do que as demais, o mercado cresce mais devagar do que o esperado. Com a saída de um dos principais investidores, a empresa teria de estar madura para sustentar sua tese de negócios.

Acabou o dinheiro barato, mas não é o fim

“O mercado aceitou muita oferta em momento de bonança e agora é mais seletivo. O mercado comprou muitas teses de empresas muito pequenas, com velocidade de crescimento que não conseguem manter, especialmente em um contexto como o atual”, diz o diretor de Finanças Corporativas da Kroll, Alexandre Pierantoni. Ele observa que esse é um cenário global e cita uma pesquisa feita pela Battery Ventures, segundo a qual dos 28 IPOs feitos em 2021 por empresas de tecnologia e SAs nos Estados Unidos, apenas seis (21%) estão no positivo.

“Acabou o dinheiro barato e todo mundo é culpado, à medida que algumas empresas foram ao mercado sem estar preparadas para isso”, diz Pierantoni. Para ele, o desafio para essas companhias é se reposicionar ou aguardar um cenário mais claro nos próximos anos.

“Não estamos decretando mortes. As empresas têm teses de crescimento, mas precisam ser apoiadas, buscar parceiros para fazer uma nova capitalização e um plano novo ou aguardar”, completa.

A analista de renda variável, Daniela Bretthauer, que acompanhou 22 ofertas iniciais de ações ao longo de sua carreira, diz que há uma diferença muito grande entre companhias que vão a mercado com uma história consolidada e números conhecidos (em razão da publicação de balanços anteriores à oferta) e empresas que abriram capital ainda imaturas.

Para ela, as companhias imaturas têm dificuldade de manter as estratégias em momento de desvalorização da bolsa. E quando mantêm, não comunicam isso ao mercado de maneira que traga segurança aos investidores. Em momentos como esse, especialmente em empresas de varejo e consumo, Bretthauer considera como estratégicas as linhas do balanço que mostram a sustentação ou melhora da margem operacional e a geração de caixa.

Procurados, os fundos e a Enjoei não comentaram.

 

Este texto foi publicado no Broadcast no dia 17/06/22, às 12h42

O Broadcast+ é uma plataforma líder no mercado financeiro com notícias e cotações em tempo real, além de análises e outras funcionalidades para auxiliar na tomada de decisão.

Para saber mais sobre o Broadcast+ e solicitar uma demonstração, acesse.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.