Líderes na crise: presidente da Via Varejo diz que crise de confiança é pior risco

Líderes na crise: presidente da Via Varejo diz que crise de confiança é pior risco

Talita Nascimento

01 de abril de 2020 | 15h30

Mesmo com todas as lojas de sua rede fechadas no momento, o presidente da Via Varejo, avalia que a possível crise de confiança do consumidor quando o isolamento acabar é o pior risco que o País enfrenta. Em sua visão, a medida anunciada pelo governo, de disponibilizar R$ 40 bilhões para financiar o pagamento de salários, é uma importante ajuda. “Pior do que não ter dinheiro naquele mês, é o consumidor ter uma crise de confiança. Esse é o pior cenário. Nesse sentido, as medidas anunciadas pelo Banco Central são de enfrentamento à crise, mas sem dúvida nenhuma geram estabilidade. As pessoas passam a ter um horizonte em relação à sua empregabilidade”, diz.

Com 100% das lojas físicas do grupo fechadas, a empresa aposta no avanço de seu e-commerce e na inovação de colocar os vendedores para trabalhar remotamente, vendendo via aplicativo de mensagens.

Ainda sem previsão da retomada do comércio em lojas físicas, Fulcherberguer vê como parte da responsabilidade social da empresa manter os empregos e não prevê demissões enquanto não houver mais informações a respeito de quanto tempo a paralisação vai durar. Para ele, o isolamento social e as suas consequências econômicas tem de ser debatidos de forma simultânea, “com todas as variáveis sobre a mesa”. Acompanhe a entrevista:

Broadcast: Como o setor do varejo vai se recuperar depois disso tudo?

Roberto Fulcherberguer: Cada varejista vai ter o seu momento nesta recuperação. Falar para o varejista ficar dias sem faturamento é um negócio que nunca passou pela cabeça de ninguém. Nenhum varejista está preparado para isso. Como o setor vai se recuperar neste momento vai depender muito de quais soluções virão para o setor. Há muitos varejistas pequenos no país que, ao ficar 10 dias sem faturar, não conseguem pagar os funcionários. São necessárias, para este momento, linhas de crédito especiais. O governo acertou a mão e resolveu grande parte da liquidez do mercado com a medida de financiar os salários de empresas com faturamento de R$ 360 mil a R$ 10 milhões. Outra ação importante nesse sentido é o que o (presidente do Banco Central) Roberto Campos Neto comunicou que vai encaminhar medida para que o BC possa comprar títulos de dívidas de bancos privados. Isso impacta positivamente o problema de risco que os bancos privados enfrentam ao oferecer mais crédito nesse período. É uma medida acertada que a equipe econômica tomou. Há outras para tomar ainda.

Broadcast: Quais outras?

Fulcherberguer: Esta medida vai beneficiar as empresas de faturamento superior a R$ 360 mil. Existem as pequenas empresas que, acredito, que vão ser atendidas por outro caminho. Mas a sinalização de que haverá esse caminho já é fantástica.

Broadcast: Nessa volta, as pessoas vão ter dificuldade de confiar? A retomada será lenta?

Fulcherberguer: Uma coisa são os funcionários voltarem. Conseguimos fazer isso de maneira mais rápida. A gente afastou 100% da empresa, sem nenhum caso interno de contaminação. As pessoas tem absoluta confiança de que vamos tomar todos os cuidados necessários para essa retomada. Agora, se a população retoma ou não de maneira rápida o consumo, isso é o grande risco do país. Pior do que não ter dinheiro naquele mês, é o consumidor ter uma crise de confiança. Esse é o pior cenário. Nesse sentido, as medidas anunciadas pelo BC são de enfrentamento à crise, mas sem dúvida nenhuma geram estabilidade. Nessa possibilidade de crise de confiança, que é o nosso grande medo, as pessoas passam a ter um horizonte em relação à sua empregabilidade.

Broadcast: Vocês trabalham com alguma data de retomada? Dia 7 ou dia 11 de abril, por exemplo?

Fulcherberguer: Não temos uma data. Escutamos muito a respeito dos dias 7 e 11, mas essa previsão é informal até o momento. Não temos aqui uma data específica. O que eu acho é que tem, sim, de haver uma discussão que inclua a variável econômica na mesa. Sobre nosso eventual retorno, se a decisão for: ‘vamos retornar e proteger grupos de risco’, por exemplo, estamos prontos para retornar a qualquer momento. A mesma agilidade que tivemos para fechar, teremos para retornar. Mas, novamente, é um momento em que todos devem sentar na mesa com objetivos comuns. Não necessariamente isto está acontecendo hoje. Neste momento, a prioridade é a saúde das pessoas e mantermos o país economicamente ativo.

Broadcast: Mas a empresa espera alguma previsão de fim do isolamento para se planejar?

Fulcherberguer: Sem dúvida. Isso é fundamental. Entendemos que tudo isso está no começo e todas as indefinições que estão no ar. Mas é fundamental em algum momento nos próximos dias termos, de fato, uma data para que tudo isso acabe. A gente está em contato com várias autoridades do país na esfera municipal, estadual e federal também. O que eu posso dizer é que está todo mundo proativo em dar esta sinalização. Estamos ainda nesse momento de digerir o processo para ver os caminhos a serem tomados. Estou mais otimista hoje porque vejo que todas as variáveis estão sendo colocadas na mesa. Isso é muito importante.

Broadcast: Mesmo com todas as medidas tomadas pela empresa para manter o faturamento, o que o varejo vai perder com a crise?

Fulcherberguer: Estamos com 100% das nossas lojas fechadas neste momento. Uma parte importante do nosso faturamento vem das lojas físicas. Nós estamos neste momento tentando achar todos os caminhos possíveis para criar alternativas a este faturamento das lojas físicas. O online, sem dúvida nenhuma, é a ferramenta natural. Já vínhamos com bastante força neste segmento. Temos várias outras iniciativas. O vendedor trabalhar de casa (vendendo via celular e direcionando o cliente para o portal de compras) é uma iniciativa nova. Temos uma grande capacidade de adaptação e estamos exercendo. Mas o fato é: 100% das lojas estão fechadas neste momento.

Broadcast: E, diante disso, a empresa trabalha com a previsão de demissão?

Fulcherberguer: Empregamos 45 mil pessoas de maneira direta e mais umas 10 mil pessoas que são prestadoras de serviços e estão ligadas a nós de maneira indireta. Não temos dúvidas do nosso papel social neste momento. Somos responsáveis por manter as finanças e o custo da empresa, mas também temos o nosso papel na sociedade. Até que consigamos entender o tempo de duração dessa paralisação, até que haja notícias mais claras, não tomamos nenhuma medida de demissão. Ninguém na companhia foi desligado. Antes de qualquer determinação do governo, colocamos o grupo de risco da empresa em home office, depois, chegou o momento de colocar toda a empresa em casa. Enquanto não entendermos o cenário, não vamos tomar nenhuma atitude. Esta crise é formada por vários fatores. São muitas variáveis. Está todo mundo começando a discutir também a variável econômica. Estamos absolutamente preocupados com a saúde dos nossos colaboradores e dos nossos clientes, mas não dá para tirar a variável econômica da mesa.

Broadcast: Olhar para a parte econômica é promover medidas de auxílio à população ou modificar as medidas de isolamento?

Fulcherberguer: Tudo está na mesa. Desde uma volta controlada, protegendo o grupo de risco, até as medidas para proteger as pessoas que não podem garantir o seu sustento.

Broadcast: Vimos empresários defendendo o fim da quarentena e o isolamento apenas de grupos de risco. O senhor partilha dessa visão?

Fulcherberguer: Eu vou te responder de outra forma. Nós, desde sempre, ajudamos a classe C a realizar seus sonhos. Nós praticamente fundamos o crediário no Brasil, na figura do sr. Samuel Klein. Entendemos muito desta classe. Temos vários projetos em conjunto com essas pessoas que independem da relação de relação de cliente e consumidor. O que eu posso te dizer é que tem uma parcela importante da população brasileira que não tem carteira assinada. Que vive para defender o sustento de amanhã. Isso está posto. Essas pessoas estão há 10 dias sem poder defender seu sustento. Não estou defendendo a liberação do comércio ou não. Todas as variáveis têm de estar na mesa de discussão. Também acredito que essa crise não é do município, do Estado, nem sequer é do Brasil. É do mundo. Neste momento, não dá para haver choque seja entre os poderes, seja entre os empresários. Este é o momento de toda a iniciativa privada, juntamente com o governo, todos darem as mãos. Ninguém está alienado a esse problema. Temos de olhar para um objetivo comum que é a saúde da população e garantia de que a população tenha condição de sobreviver neste período.

Broadcast: Com a atual situação, a empresa voltou a buscar linhas de crédito com a indústria?

Fulcherberguer: Sempre tivemos linhas de crédito com as indústrias. O que acontece é que a empresa fazia de maneira mais recorrente no passado a postergação dessas linhas com os bancos. Estávamos parando de fazer isso, porque a empresa voltou a gerar caixa. No último trimestre de 2019, já tínhamos um cenário de geração de caixa positivo. Então, não fazia sentido continuarmos a postergá-las. Agora, dado o momento que vivemos, esta é uma medida de proteção de caixa da empresa que estava disponível. Adiamos o não uso desta linha. Voltamos a utilizá-la por uma questão momentânea, para ajudar a preservar o caixa da empresa.

Líderes na crise é uma série de reportagens especiais feitas pelo Broadcast a partir de experiências e aprendizados das maiores empresas e lideranças do País para enfrentar a pandemia de coronavírus

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