Listagem da Afya na B3 é possibilidade para médio e longo prazo, diz CEO

Listagem da Afya na B3 é possibilidade para médio e longo prazo, diz CEO

Irany Tereza

26 de novembro de 2021 | 15h45

Virgilio Gibbon, CEO da Afya Educacional; empresa já tem capital aberto na Nasdaq   Foto: Afya/Divulgação

Em julho de 2019, a Afya Educacional, maior grupo de graduação médica no País, levantou US$ 330 milhões ao abrir capital na norte-americana Nasdaq, que concentra empresas do setor de tecnologia. A escolha deveu-se à estratégia de aliar os setores educacional e tecnológico. Depois do IPO, a companhia iniciou um agressivo programa de aquisições, nos dois segmentos, que já ultrapassou R$ 2,1 bilhões.

Ao programa Olhar de Líder, o CEO do grupo, Virgilio Gibbon, revelou que planos de abrir capital na B3, ou negociar BDRs na bolsa brasileira existem, mas não neste momento. “Agora, dada à baixa liquidez, não faz sentido”, declarou, situando a possibilidade “para o médio e longo prazo”.

Em 2022, o ritmo de aquisições será mais moderado, até porque a Afya ainda espera autorização para começar a operar cinco unidades novas no ano que vem. Um analista do mercado financeiro atribuiu à diversificação do negócio o pequeno crescimento da empresa no terceiro trimestre. “Essas análises, quando olham o curto prazo, ainda mais num momento conturbado, são muito rasas. A entrada em serviços digitais veio pela necessidade de upgrade no processo de formação de profissionais da área médica”, rebateu o executivo.

A seguir, trechos da entrevista, que está disponível na íntegra no Broadcast TV:

Broadcast: O que levou à mudança do perfil corporativo da Afya?

Virgilio Gibbon: A Afya desenhou fases de ajuste de rota de sua estratégia de acordo com o mercado. Em 2016, se concentrou na educação médica; em 2018, além da graduação na Medicina e cursos de saúde, expandimos com o preparatório para a residência e a educação continuada, seguindo o profissional até a aposentadoria. Nasce aí o nome Afya, que significa saúde e bem-estar e a combinação de educação, tecnologia e saúde, no início de 2019. E o IPO em junho daquele ano, na Nasdaq.

Broadcast: Por que a Nasdaq? Há intenção de abrir capital na B3?

Gibbon: Por ser uma empresa de educação na área médica e com um aporte de tecnologia muito forte, a Afya tem uma dinâmica de negócio muito diferente no ensino superior. (Com ações na Nasdaq) a gente é protegido em momentos de crise, nossa captação continua garantindo 100%, a gente tem crescimento, rentabilidade atrativa, com forte geração de caixa. Ou seja, para esse tipo de dinâmica, que valoriza empresas de alto crescimento, não havia comparáveis no Brasil. Lá (nos Estados Unidos, os investidores estão acostumados a acompanhar e valorar essas empresas. Na área digital nossos benchmarks estão na China, Israel, Japão e Estados Unidos.

Broadcast: E ainda há planos para a B3?

Gibbon: Neste momento, dada à baixa liquidez, não faz sentido. Mas, a gente pensa, no médio e longo prazo, ter a oportunidade… não só de BDR (Brazilian Depositary Recepts)… O problema é que na hora que eu listo uma ação aqui, acabo enxugando a ação do outro lado. Precisamos hoje de mais volume, mais ações no mercado. Mas, seria muito importante dar acesso a investidores nacionais, como também para nossos colaboradores. A empresa teria mais facilidade de oferecer programas de incentivo de longo prazo associado à performance das ações. Enfim, é uma oportunidade de médio a longo prazo.

Broadcast: A pandemia impactou o planejamento da empresa?

Gibbon: A partir de março de 2020 ocorreu uma disruptura nos serviços médicos e ficou muito evidente que teria de ser feita rapidamente a adequação no processo de aprendizagem e a necessidade de acompanhar o médico também na jornada de serviços. Esta é a nossa fase atual de formação e de serviços digitais. Um ecossistema de serviços digitais que reúne hoje 160 mil médicos e continua aumentando sua penetração. Desenhamos um ecossistema de tecnologia, o whitebook, um modelo B2C, que reduz os custos da inflação médica, e fomos atrás, ou do desenvolvimento interno, ou de aquisições de empresas. Hoje temos 247 mil profissionais da área médica consumindo algum tipo de serviço da Afya mensalmente, de forma recorrente. Isso é quase um terço da base de profissionais do País. O próximo passo é oferecer serviços para a indústria farmacêutica.

Broadcast: Qual o mix hoje dos segmentos educacional e tecnológico da Afya e qual a meta?

Gibbon: Cerca de 85% de nossa receita vem da educação médica, graduação e pós-graduação; os outros 15% de serviços digitais, onde há uma aposta de grande crescimento. A tendência é ter um equilíbrio entre essas unidades de negócios, mas não há uma meta. A área de serviços digitais tem diversos canais de crescimento e monetização. Sem contar com aquisições de um lado ou de outro, a tendência é crescer mais rapidamente nos meios digitais.

Broadcast: Qual o balanço das aquisições da Afya?

Gibbon: Pós-IPO, já foram mais de R$ 2 bilhões. Fizemos 12 negócios, mais ou menos dois quintos concentrados em serviços digitais, plataformas tecnológicas, e três quintos em escolas de medicina. Fizemos aquisições importantes para nossa operação recentemente, como a Unigranrio, que é faculdade de referência no Rio de Janeiro, e adquirimos oito health techs nos últimos 12 meses.

Broadcast: Um analista atribuiu ao afastamento do negócio mais lucrativo, da educação médica, o fraco crescimento no terceiro trimestre. Considera a análise errada?

Gibbon: Essas análises, quando olham o curto prazo, ainda mais num momento conturbado, são muito rasas. A entrada em serviços digitais veio pela necessidade de upgrade no processo de formação de profissionais da área médica. Um médico com formação 100% analógica não está preparado hoje para usar as ferramentas que o mercado está disponibilizando. A proposta é servir o médico também no desempenho de seu trabalho. Essa é uma estratégia muito usada por empresas de tecnologia, como o Microsoft, por exemplo. Isso tem muito valor para os médicos, para os serviços de saúde e para nossos acionistas. Foram muitas aquisições em nove meses, estamos apostando numa estratégia de um mercado que é muito grande, que está se revolucionando e não podemos perder essa jornada. Nosso negócio de medicina cresce a dois dígitos organicamente.

Broadcast: O último ano, marcado pela pandemia e pelo ensino remoto, teve grande impacto. Qual a perspectiva para o pós-pandemia?

Gibbon: Mantivemos nossas matrículas e 100% de ocupação nos cursos de graduação em Medicina. A gente teve grande impacto na pós-graduação, na educação continuada porque, como é muito prática, tivemos muitas turmas canceladas. Esse foi o principal motivo da redução de receita nesse segmento, que corresponde a 5% da nossa receita total. Mas, já retomou muito forte no quarto trimestre, com a disponibilização dos locais de aprendizagem prática. O ciclo da pós-graduação começa em outubro e espero que a gente tenha uma educação contínua ao longo de 2022.

Broadcast: As aquisições continuarão fortes ou já se fechou o ciclo?

Gibbon: Temos um pipeline de M&A bastante aquecido ainda, mas temos sido mais seletivos nos nossos ativos. Estamos avaliando, na área de graduação médica, quais as regiões que gostaríamos de estar presentes e ainda não estamos. Na área de serviços digitais, estamos buscando complementar o que já temos. O Brasil está tendo uma reprecificação, o que exige uma disciplina maior na parte financeira do investimento. Estamos vendo muitas empresas sofrendo, a evasão de capital, o risco Brasil aumentou, as questões fiscais… hoje você olha o investidor e tem sido um desafio (atraí-lo). Mas, faz parte. São altos e baixos. Continuamos investindo na companhia do futuro sem sobressaltos no curto prazo.

Broadcast: Continuam como compradores em 2022?

Gibbon: Fizemos cerca de 600 vagas com as aquisições em 2021. Estamos virando em torno de 200 vagas por ano até 2026 de expansão orgânica. Temos cinco unidades novas que devem começar a operar em 2022. O ritmo de aquisições será mais moderado.

 

Esta entrevista foi publicada no Broadcast+ no dia 25/11/21, às 16h41.

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