Lobby de frigoríficos sobre governo dos EUA foi ‘trágico’, diz relatório

Lobby de frigoríficos sobre governo dos EUA foi ‘trágico’, diz relatório

Gabriel Baldocchi

20 de maio de 2022 | 05h30

JBS USA no Colorado; nos EUA, conduta da empresa e de outras do setor na pandemia é questionada  Foto: Reuters/Jim Urquhart

Uma investigação de um comitê parlamentar nos EUA levantou questionamentos sobre a conduta dos frigoríficos em relação aos funcionários na pandemia e detalhou o esforço “agressivo” de lobby do setor para manter as atividades em pleno funcionamento durante a crise. O trabalho sugere ainda tentativas das cinco gigantes do setor – Smithfield, Tyson, Cargill, National Beef, controlada pela Marfrig, e a JBS – de minimizar os riscos de contágio na atividade.

O texto, divulgado na última semana, foi elaborado pelo Subcomitê de Crise para o Coronavírus, com base na análise de 151 mil páginas de documentos. O grupo é comandado pelo democrata James E. Clyburn. O relatório conclui que o resultado da campanha de lobby do setor “foi trágico” e cita a infecção de 59 mil trabalhadores e a morte de 269 funcionários, no primeiro ano da pandemia, no universo das cinco companhias.

O número já havia sido apresentado em relatório do subcomitê de outubro. Mas as novas conclusões avançam sobre o caminho percorrido pela indústria para pressionar contra medidas de segurança que pudessem comprometer a produção, como o lobby feito junto ao governo federal, sob a administração de Donald Trump, para tentar barrar medidas de proteção exigidas por autoridades estaduais.

JBS USA foi alertada sobre hipótese de surto em unidade

A JBS aparece como exemplo para ilustrar os alertas recebidos sobre os riscos de contágio nas atividades. Um e-mail de abril de 2020 reproduzido no relatório mostra a mensagem de um médico de um hospital do Texas em que informa que todos os casos recebidos na unidade estavam relacionados com a fábrica do grupo. O profissional cita a hipótese de um surto no local e sobe o tom: “Seus trabalhadores vão ficar doentes e podem morrer se a fábrica continuar aberta.” O relatório diz que não é possível concluir se a mensagem foi respondida.

Outra mensagem do consulado do México enviada à direção da empresa cita preocupações sobre as medidas sanitárias na unidade de Iowa. Recentemente, a família de um funcionário da unidade vítima da covid-19 processou a brasileira sob acusação de ter negligenciado os cuidados na crise.

Representantes da JBS e da National Beef também participaram, segundo o relatório, de um esforço para elevar o tom da mensagem contra o absenteísmo de funcionários por medo da covid-19. Executivos do setor pediram para que Trump ou então vice-presidente Mike Pence expressassem publicamente a necessidade de os funcionários continuarem suas atividades.

A JBS também é apontada como fonte de pressão contra autoridades locais de saúde e é citada em resposta de um assessor de Pence a um executivo do setor sobre as ações para evitar o fechamento de unidades com caso positivo. Segundo o relatório, ele diz já “estar trabalhando no caso da JBS no Colorado”, unidade que, na época, estava sob risco de fechar.

Empresa diz que saúde e segurança dos funcionários guiaram decisões

Procurada, a JBS afirmou que a saúde e segurança dos funcionários guiaram as decisões da empresa durante a pandemia. “Durante este período crítico, fizemos tudo o que era possível para garantir a segurança da nossa força de trabalho, que manteve a essencial cadeia de suprimentos de alimentos em funcionamento”, afirma a JBS dos EUA, em nota. A companhia também diz que não aguardou a regulação para adotar medidas de proteção em nível até superior aos padrões da indústria. Entre os esforços, citou a obrigação de máscaras, o afastamento remunerado de trabalhadores com saúde vulnerável, distanciamento social, aplicação de testes, a redução da capacidade produtiva e a instalação de ventiladores. Já a Marfrig não comentou.

Os novos apontamentos se somam às conclusões levantadas pelo mesmo comitê em relatório de outubro. Nele, estão elencados os dados individuais de contágio por empresa no primeiro ano da pandemia. A JBS aparece com 12.859 mil funcionários infectados e 62 mortes de trabalhadores por covid-19 no período, atrás apenas da Tyson. Na National Beef, foram 2.470 infecções e seis mortes, segundo o documento.

Durante a pandemia, a subsidiária americana da JBS elevou seus gastos com lobby. Em 2021, registrou o maior desembolso com profissionais da área desde 2007, para US$ 794 mil (cerca de R$ 4 milhões). Uma das prioridades da atuação foi a segurança do ambiente de trabalho, segundo dados públicos compilados pela ONG Opens Secrets. Já a National Beef desembolsou US$ 30 mil (US$ 148 mil) com lobby no ano passado.

 

Esta nota foi publicada no Broadcast no dia 19/05/22, às 15h59

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