Maior retrocesso do País foi o desmatamento da Amazônia, diz Teixeira, da Klabin

Maior retrocesso do País foi o desmatamento da Amazônia, diz Teixeira, da Klabin

Irany Tereza

29 de outubro de 2021 | 15h50

 

Cristiano Teixeira, da Klabin,  o único brasileiro no Business Leaders na Conferência do Clima   Foto: Hélvio Romero/Estadão

Único executivo brasileiro a integrar o Business Leaders na Conferência do Clima da ONU, o diretor-geral da Klabin, Cristiano Teixeira, espera um papel mais ativo do Brasil na COP26, que começa neste domingo, em Glasgow. Para ele, somente um compromisso formal de zerar de imediato o desmatamento será capaz de mudar a imagem do País.

“Precisa de vontade política e organização para zerar o desmatamento imediatamente. Não há derivada disso, é imediatamente. Para mim não existe plano B. A gente virou as costas para um tema de suma importância para o nosso País”, diz Teixeira, que classificou o aumento do desmatamento na Amazônia como o maior retrocesso do Brasil.

No fórum de empresários, durante a conferência, irá defender uma cobrança mais firme do cumprimento de metas de descarbonização pelas indústrias. A Klabin adiantou ao programa Olhar de Líder que estuda antecipar a redução das emissões de gases, que fixou em 25% até 2025 e 49% até 2035.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Broadcast: Qual a pauta do Brasil no Business Leaders?

Cristiano Teixeira: O Brasil é consistentemente lembrado, e com razão, sobre o desmatamento ilegal na Amazônia, mas a gente sabe que, mesmo acabando com isso imediatamente, se a gente não mudar a matriz energética, reduzindo drasticamente o consumo de carvão e de óleo, essa reversão mais dramática talvez não seja possível. Nossa pauta é cobrar das empresas, principalmente o setor privado, que se comprometam com metas de redução de emissões baseadas na ciência de forma que a gente possa medir, de forma transparente, a mitigação e a adaptação do mundo a essa nova realidade.

Broadcast: Não basta o marketing, é preciso comprovar o cumprimento das metas?


Teixeira: Falar sobre o assunto quebra tabus e combate dogmas. É preciso falar mais do clima. O marketing faz parte da realidade de uma companhia. O design de uma empresa é, sim, dar lucro e remunerar seu acionista. E, por vezes, cumprindo esse papel, a gente quer chamar a atenção para a reputação, a imagem da companhia. Mas existe uma fronteira, que é delicada mesmo, que é a falta de transparência com o compromisso público. As empresas têm de tomar cuidado para colocar especialistas para cuidar da área de meio ambiente, sustentabilidade, área social, apoiados por certificadoras independentes. Teve meta, torne pública e procure um agente independente para te medir.

Broadcast: A Klabin fixou a redução de emissões em 25% até 2025 e 49% até 2035, tendo como ano base 2019. Como está isso?

Teixeira: A partir do momento em que começo a medir, já havíamos reduzido em 64% nossa emissão, que é sempre medida em CO2 equivalente por tonelada de produto. Normalmente é assim a métrica da indústria. Já vínhamos reduzindo fortemente. Na Klabin medimos pela Science Based Targets Initiative, que avalia o que fizemos e fala: daqui por diante vai ser medido por isso e tem cortes nessa meta. A gente divulga no nosso site esse número constantemente, nossa emissão por tonelada, de forma que se possa medir para onde isso está indo. Vamos atingir a meta. Estamos avaliando, inclusive, se é possível antecipar alguma coisa, mas ainda não podemos divulgar.

Broadcast: A imagem atual do Brasil em relação ao meio ambiente não é boa. Está preparado para a cobrança?

Teixeira: Creio que o Estado brasileiro, no sentido amplo do conceito, se comporta adequadamente em relação ao clima há pelo menos 40 ou 50 anos. O Estado brasileiro é protagonista nesta questão do clima e da própria biodiversidade na história recente do planeta. Na história mais recente, por alguma circunstância que não sei interpretar, nossa postura não foi boa. E realmente não sei o que a gente ganha com essa postura. Sempre fico imaginando que aquela pessoa sabe alguma coisa que eu não sei e que tinha uma estratégia por trás. Hoje, passado esse tempo todo, a gente acha que a postura mais combativa só trouxe prejuízo para uma imagem que vinha sendo consolidada há décadas, e que não está perdida, por muita gente brilhante que passou pelos assuntos que envolvem meio ambiente, negociação de clima. Temos um novo chanceler, Carlos França, um novo ministro do Meio Ambiente e negociadores do próprio Itamaraty, como Bernardo Athayde, muita gente competente e que sabe desse protagonismo histórico. Cabe a mim ser otimista de que a gente vai lá defender os interesses da nação brasileira, mas levando em consideração a responsabilidade que todos nós temos com essa atmosfera, que é única. No Sri Lanka, nos Estados Unidos ou aqui, os gases do efeito estufa vão provocar mudanças. Torço para que a imagem do Brasil seja compatível com a nossa história na negociação do clima na COP26.

Broadcast: Mas retrocedemos?

Teixeira: O principal retrocesso, sem dúvida alguma, além do discurso, foi o desmatamento da Amazônia. Na década de 90, nós já fomos reconhecidos como exemplo de combate ao desmatamento no mundo. A gente sabe fazer. O combate ao desmatamento é uma inteligência que está absolutamente em nossas mãos. Acontece primeiro por busca de áreas de latifúndio, depois se entra com gado, depois vem a agricultura, tem toda uma estrutura do desmatamento. Para não falar do uso do solo de forma ilegal para busca de minerais. A gente sabe o que tem de ser feito. Precisa de vontade política e organização para zerar o desmatamento imediatamente. Não há derivada disso, é imediatamente. Pode-se até pensar no gerúndio no tempo de implementar as bases e ser ostensivo em colocar a inteligência para zerar. É só querer e fazer. A gente virou as costas para um tema de suma importância para o nosso País.

Broadcast: É essa a postura que o Brasil deve adotar na COP26?

Teixeira: Tem que adotar. Para mim não existe plano B. Se não adotar essa postura, e acredito que vai, mas se não adotar, ficaremos todos muito decepcionados. Espero que a COP não fique só neste momento. Que essa onda da COP26 tenha uma marola que fique por muito tempo.

 

Esta entrevista foi publicada no Broadcast no dia 28/10/21, às 14h22.

A entrevista completa está disponível no Programa Olhar de Líder, no Broadcast TV

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