Mercado de plataformas de investimentos deve dobrar e alcançar receitas de R$ 160 bi

Mercado de plataformas de investimentos deve dobrar e alcançar receitas de R$ 160 bi

Fernanda Guimarães e Cynthia Decloedt

10 de julho de 2020 | 06h00

 

A mudança da dinâmica do mundo dos investimentos no Brasil abriu a porta para o crescimento, que poderá ser exponencial, das plataformas. Mais e mais investidores saem do conforto dos títulos públicos para buscar rentabilidade acima da inflação em meio à queda do juro brasileiro, para próximo à zero em termos reais, acelerando a transformação da cultura do retorno fácil. Esse novo cenário pode dar origem a uma indústria de investimentos com receita anual da ordem de R$ 160 bilhões, mais que dobrando os R$ 75 bilhões de faturamento do ano passado.

Estudo conduzido pelo Morgan Stanley mostrou que esse faturamento poderá ser atingido já em 2025, resultado de um movimento claro de expansão das plataformas de investimento, mesmo que atualmente 80% dos ativos sob gestão no Brasil esteja nas mãos dos grandes bancos. A percepção da instituição americana é a de que R$ 91 bilhões em recursos devem sair dos bancos e migrar para as plataformas nos próximos cinco anos, com o mercado de ações respondendo por 25% dos ativos sob custódia, ante os 12% atuais. Com isso, o Morgan entende que em 2025, que as plataformas online respondam por 30% a 40% das negociações feitas, contra uma presença de 9% atualmente.

Hoje há cerca de dez plataformas de investimento atuando no mercado brasileiro, com aproximadamente R$ 500 bilhões sob gestão, por meio de 6 milhões de contas abertas. A XP Investimentos, a maior do País, tem pouco mais de 2 milhões de clientes. Depois dela, as plataformas independentes melhores posicionadas para ganhar mercado, ainda de acordo com a pesquisa do Morgan Stanley, são o BTG Pactual, Easynvest e ModalMais. No caso da XP, o market share de 6% pode chegar em 20% em 2025, calcula o estudo.

Não é, portanto, surpresa que todos os players dessa indústria estejam se movimentando rapidamente para garantir as melhores posições neste disputado tabuleiro. Obviamente a XP, pioneira nesse universo e com um caixa reforçado, anda a passos largos, numa caçada para aquisição de fintechs que complementem seu ecossistema tanto no que diz respeito a oferta de produtos como de serviços. Além disso, com o raciocínio de escalar clientes e mantê-los dentro de casa, a XP prepara o lançamento de uma série de serviços bancários.

A Easynvest, do fundo de private equity Advent, contratou recentemente o JPMorgan para buscar uma captação e acelerar seu crescimento. A Guide, por sua vez, tenta encontrar um investidor estratégico para impulsionar a expansão de sua plataforma. E o Credit Suisse passou a olhar para investidores além do grupo dos muitíssimos ricos, que há 60 anos atende no Brasil, com um acordo para ficar com até 35% da plataforma Modalmais. Isso porque o banco suíço vê sinergia. De um lado, abre seus produtos para mais investidores na busca por diversificação; do outro, garante a seus clientes acesso a ferramentas de negociação online que não possuía. O BTG Pactual, por sua vez, travou uma batalha com a XP ao tentar atrair agentes autônomos para sua plataforma. Agora, acaba de captar R$ 2,5 bilhões em uma oferta de ações para acelerar sua plataforma digital, inclusive por meio de novas aquisições.

“Plataformas online estão especialmente bem posicionados para capitalizar ativos e receitas de investimento no Brasil?, observam os especialistas Jorge Kuri, Jorge Echevarria, Eugenia Sanchez e Alexandre K Namioka do Morgan Stanley que assinam o estudo. Segundo eles, isso se deve não apenas pelo fato de o setor estar crescendo rapidamente ou por fatores demográficos, tecnológicos e econômicos, mas porque demonstram capacidade de obter participação de mercado de grandes titulares, dando condições de superar em muito o crescimento da indústria próximos anos.

Os grandes bancos, como é de se esperar, não estão assistindo esse movimento parados. Estão oferecendo opções de investimento de terceiros, e não só exclusivamente de marca própria e ferramentas de home broker a seus clientes. De acordo com o Morgan, o Itaú possui 14% do mercado de fundos de investimento, considerando os ativos sob gestão (AUM, na sigla em inglês). Já o Banco do Brasil, com a maior gestora do País, tem forte presença nesse mercado, com um market share na casa de 20%. O Bradesco teria algo em torno de 10% e vem crescendo em passos acelerados, com o Next e com a Ágora, que acaba de ser repaginada. Caixa possui 7% e Santander, 6%.

A busca por maiores retornos tem empurrado investidores para ativos de mais risco, tais quais as ações, segmento que por muitos anos ficou com o crescimento emperrado, especialmente por conta dos juros. Hoje na depositária de ações da B3 o número de investidores pessoas físicas não para de crescer, ultrapassando o marco de 2,5 milhões. E plataformas, e bancos, estão de olho no nicho cada vez mais forte que nasce no País.

É nesse contexto, inclusive, que o Itaú lançou uma campanha publicitária questionando a imparcialidade dos agentes autônomos, que foram o coração da XP desde sua criação. A “briga” segue em andamento, com o Itaú deixando de lado o fato de ser o maior acionista da XP, com 46% do capital. A XP, que sempre colocou no alvo como maior concorrente os grandes bancos, disse que o Itaú estava incomodado por estar perdendo clientes – e dinheiro.

A responsável pelo Centro de Estudos em Finanças da FGV (FGVcef), Claudia Yoshinaga, considera que os cinco maiores bancos brasileiros não darão descanso aos entrantes. ?Os bancos começaram a entender que as plataformas são uma ameaça real e têm tomado medidas, seja por meio da oferta de produtos diversificados ou compra de corretoras. Nesse sentido, ainda que haja uma cara diferente, com outros nomes, chegaremos aos mesmos donos de sempre?, diz.

Yoshinaga é cética também quanto à eficácia de medidas de abertura do mercado, como o open banking, que tiraria dos bancos e passaria aos clientes a opção de compartilhar suas informações financeiras com outras casas. Essa troca de informações produziria ao final maior transparência na indústria e competição. No entanto, ela afirma haver ainda muita nebulosidade sobre como esse mecanismo vai funcionar e que, sobretudo, os investidores se empoderem de seus próprios dados.

Contato: fernanda.guimaraes@estadão.com e cynthia.decloedt@estadao.com

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