Mercado Livre escolhe a dedo as aquisições, diz diretor

Mercado Livre escolhe a dedo as aquisições, diz diretor

Talita Nascimento

26 de agosto de 2021 | 16h30

Renato Pereira: empresa tem cultura de construir negócios Foto: Leandro Bertoldo/Divulgação

O Mercado Livre anunciou na noite de terça-feira a compra da Kangu, empresa de tecnologia que conecta comércios físicos à plataforma de marketplace (shopping virtual) para operarem como ponto de envio e coleta de produtos. O diretor de Novos Negócios do Mercado Livre, Renato Pereira, diz que as compras feitas pela empresa não têm a ver com os M&As (fusões e aquisições) estarem na moda, mas são movimentos pontuais. “Tem players (empresas) fazendo aquisição todo mês, a gente escolhe a dedo as aquisições que faz”, diz.

Na cobiçada categoria de supermercados, ele afirma que o Mercado Livre ainda não achou a combinação perfeita para uma aquisição. “O par perfeito não apareceu ainda e talvez não dê tempo de aparecer, já teremos construído sozinhos”, afirma.

A Kangu já era parceira do Mercado Livre antes da compra. Segundo Pereira, a transação seguiu um “ciclo perfeito”: começou com uma parceria, depois com uma participação minoritária e, agora, com a compra total – o valor da transação não foi divulgado.

Ele afirma que essa ordem não é regra e que nem toda parceria tem um tese de aquisição por trás. No entanto, afirma que dificilmente o Mercado Livre faz aquisições repentinas, sem já se relacionar com a outra companhia. As parcerias mais recentes da empresa foram com a Disney, com descontos na assinatura do streaming, com a Arezzo, para distribuição de uma marca de calçados e com o Pão de Açúcar, para venda online de itens de supermercado.

A Kangu tem cadastrados 5 mil pontos físicos de envio e entrega de produtos. Mais da metade deles está no Brasil. O plano é, mais à frente, poder transformar esses parceiros logísticos em aliados do braço financeiro da companhia: o Mercado Pago. A ideia é poder usá-los inclusive como locais de depósito e saque de dinheiro por meio da conta virtual. A seguir,  a entrevista com Pereira:

Broadcast: O Mercado Livre tem a característica de crescer mais organicamente. O grupo quis se posicionar no mercado aquecido de fusões e aquisições (M&As)?

Renato Pereira: Somos uma empresa que, por cultura, tende mais a construir negócios do que a comprá-los. Em 22 anos de empresa tem sido assim. Tem de haver o casamento de muitos fatores para decidirmos fazer aquisição. Tem de ser uma empresa que vá agregar valor imediatamente, que tenha ‘feat’ (alinhamento) cultural e que se destaque na parte de tecnologia. A gente não compra tijolo. A gente compra tecnologia. Muitas vezes, é uma questão de timing também. Algumas empresas poderiam ser até interessantes de adquirir, mas o tempo passou e a gente já construiu.

Broadcast: O Mercado Livre não compra tijolo, mas comprou uma empresa que tem como fortaleza os pontos físicos?

Pereira: A Kangu não tem tijolo. Ela conecta lojas de bairro. Ela não tem lojas, não tem investimento para ter pontos físicos, ela usa pontos físicos que já existem e estão próximos a locais com demanda por pacotes e/ou próximas aos clientes. Podemos oferecer outros serviços do Mercado Livre por meio desses pontos, como o Mercado Pago, mas isso é mais para frente. Podemos ter pontos para as pessoas depositarem ou sacarem dinheiro. Tem uma série de possibilidades que podem se abrir, mas é bem mais para frente. Os próximos passos agora são de expansão logística.

Broadcast: O Mercado Livre concluiu que no Brasil é necessário ter pontos físicos para fazer logística? A concorrência fez isso antes, com lojas próprias.

Pereira: Tem uma diferença importante: o nosso modelo não tem custo fixo, por isso, é mais escalável. Se olharmos para redes com lojas físicas, nenhuma delas tem mais de 1.000 pontos físicos. Alguns têm essa quantidade de lojas, mas apenas uma fração é usada para coleta e entrega. A Kangu, conosco, em um ano e meio saiu de zero para 5 mil pontos

Broadcast: Vocês disseram não querer os Correios e estão mostrando um caminho diferente do que o de “adquirir tijolos”, é isso?

Pereira: Exatamente. É questão de timing também. Houve um tempo em que 90% dos nossos pacotes passavam pelos Correios. Hoje, menos de 10% passam. Encontramos um outro caminho, mais eficiente. A Kangu é um desses caminhos.

Broadcast: Lá atrás faria sentido?

Pereira: Difícil dizer, mas poderia ter alguma chance.

Broadcast: A Kangu começou como uma parceria e depois foi adquirida. Pode-se esperar mais situações do tipo?

Pereira: A Kangu foi o ciclo perfeito das três coisas que a gente faz: começou com parceria e ela se destacou entre as demais. Fizemos um acordo comercial mais profundo que nos permitiria ser sócios da Kangu, com investimento minoritário; depois, tomamos a decisão de aquisição de 100%. Tem casos em que pode acontecer um M&A direto, tem casos que pode acontecer só parceria.

Broadcast: Mas vocês namoram as empresas, não compram repentinamente, certo?

Pereira: É muito difícil fazermos negócio do nada. Fica um pouco essa pista, mas nas empresas com as quais fazemos parcerias, não necessariamente temos tese de aquisição.

Broadcast: Supermercado é um espaço que todas as varejistas de comércio eletrônico do País tentam ocupar. Vocês fariam algum movimento nesse sentido para ter algo próprio?

Pereira: Estamos construindo as nossas soluções, se no meio do caminho encontramos um par perfeito, sempre estamos abertos, mas não apareceu ainda e, talvez, não dê tempo de aparecer, a gente já vai ter construído sozinho. Estamos sempre abertos e olhando, nessa e em outras frentes nas quais a empresa cresce.

 

Esta entrevista foi publicada no Broadcast+ no dia 25/08/21 às 19h08.

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