Minoritários da Sabesp cobram Governo Doria por mudanças na estatal

Minoritários da Sabesp cobram Governo Doria por mudanças na estatal

Fernanda Guimarães

07 de janeiro de 2021 | 05h30

Foto: Nilton Fukuda/Estadão

Passada a eleição municipal no ano passado, investidores minoritários da Sabesp, empresa de saneamento apontada como uma das joias da coroa do Estado de São Paulo, voltaram a pressionar o governo de João Doria (PSDB) por uma solução para a estatal. Apesar do pleito principal do mercado ainda ser a privatização, uma das cobranças para o curto prazo é de uma mudança na gestão. O governo, que controla a Sabesp com uma participação de 50,26%, respondeu ao grupo que contrataria uma consultoria financeira para analisar a situação da companhia.

Chega junto. O grupo de acionistas que começou a se movimentar pelas mudanças possui pouco menos de 10% de participação da empresa. Uma apresentação feita no fim do ano passado ao secretário da Fazenda, Henrique Meirelles, e ao secretário de Planejamento de São Paulo, Mauro Ricardo, tratava dos investimentos que vem sendo realizados pela estatal, apontados como ineficientes. O documento levado ao governo cita ainda divergências nos valores reconhecidos pela agência reguladora.

Inacessível. Apesar dessa apresentação, os investidores, segundo um dos minoritários da companhia, estão com dificuldade de acessar o governador desde agosto, depois que Doria, disse em um evento que o governo anunciaria a capitalização da Sabesp – e não a privatização da empresa, o que derrubou as ações da companhia. No ano passado, a ação da empresa caiu 24%, ao passo que o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, encerrou com valorização de 2,92%.

“Esse desempenho está muito aquém do que se poderia esperar de um Governo declaradamente liberal e que tem como um de seus pilares a atração de investimentos privados. No caso da Sabesp, seu principal cartão de visitas, o que vemos é exatamente o contrário”, comenta o sócio da Miles Capital, um dos acionistas da Sabesp, Fabiano Custódio.

No documento apresentado ao governo, ao qual a Coluna teve acesso, é mostrado um laudo elaborado pela Sabesp em abril de 2014, no qual a empresa calculava uma base de ativos de R$30 bilhões, dos quais foram reconhecidos R$24 bilhões pela Agência Reguladora dos Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp). Isso significa, na prática, que o retorno ao acionista foi menor por conta dessa ineficiência. O documento diz que, dessa forma, o fator de reconhecimento foi de 76%, sendo que a média no setor elétrico, onde grande parte das empresas são privadas, a média é de 98%.

Segundo Custódio, da Miles, o aumento de investimento por parte da Sabesp, assim, significa uma destruição de valor a seus acionistas. “Não por acaso, toda vez que a empresa indica publicamente que acelerará investimentos, suas ações desabam. Mesmo com esse histórico ruim, a empresa fez propostas pela concessão de Alagoas e se diz interessada em participar das próximas licitações do setor e entrar em outros negócios”, comenta.  Dentre os novos nichos indicados pela Sabesp estão o tratamento de resíduos sólidos, geração de energia e despoluição de rios.

Com isso, no pacote de cobrança dos investidores se pede explicações sobre o racional econômico por trás dos investimentos sinalizados na despoluição do rio, o tratamento de resíduos sólidos, e, por sim, concessões fora de SP.  “A empresa não é eficiente para esses novos investimentos. E quanto mais eficiente, menor é a tarifa cobrada. A empresa precisa ser mais racional e deixar seus critérios mais claros aos investidores”, comenta outro investidor na companhia, que falou sob a condição de anonimato.

Na conta. O grupo pede explicações sobre o racional econômico por trás dos investimentos com a despoluição do rio Pinheiros, o tratamento de resíduos sólidos, e as concessões fora de São Paulo, vistas como desvantajosas.

Por conta dessa possível falta de eficiência, o documento apresentado ao governo cita um relatório distribuído ao mercado por analistas elaborado pelo banco suíço UBS, que aponta que a universalização do saneamento em São Paulo, até 2033, conforme o novo Marco do Saneamento Básico, com a atual eficiência apresentada, demandaria uma elevação da tarifa na ordem de 50%, ao passo que em um cenário mais eficiente, esse aumento poderia cair para 23%.

Mais altos. O mesmo documento que foi apresentado levanta que o custo médio por empregado da Sabesp é mais alto do que a de empresas do setor privado. Em uma média da Aegea, Iguá e BRK a média do salário anual em 2019 foi de 204,8 mil, ao passo que da Sabesp, também no ano passado, foi de 75,2 mil.

Acionistas argumentam que essa situação já provocou uma saída em massa dos investidores estrangeiros da companhia. Eles apontam que estrangeiros que eram 26% da base da Sabesp no início do governo Doria hoje são apenas 15,6%.

Há um pouco mais de três anos, a Sabesp chegou a contratar o Itaú BBA para a venda de 49% de uma holding que seria criada para controlar a empresa. O movimento ocorreu dias após o governo de São Paulo sancionar lei para a criação de uma holding de saneamento básico, que além da Sabesp reunirá outras empresas subsidiárias. Esse formato tinha sido indicado pela International Finance Corporation (IFC), que foi contratada para conduzir o estudo de capitalização da empresa, isso ainda sob a gestão do antecessor de Doria, Geraldo Alckmin. “Esse tipo de estrutura não faz o  menor sentido depois do Marco do Saneamento”.

Com a palavra. Procurada, a Sabesp disse que a Arsesp (agência reguladora do estado) “reconheceu de volta parte dos cortes do primeiro ciclo e aceitou quase a totalidade dos montantes investidos pela empresa”. Disse que mais recentemente a agência incluiu na agenda regulatória a discussão sobre o montante remanescente do primeiro ciclo. Afirmou, ainda, que a redução de investidores estrangeiros “acompanhou o movimento de saída geral do mercado no período, assim como já se observa um retorno no final de ano”. Frisou, por fim, que os salários e benefícios dos funcionários da Sabesp correspondem a cerca de 18% de sua receita líquida e que dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) mostram que as despesas com pessoal e terceiros em relação ao metro cúbico faturado acompanham o que ocorre nas empresas privadas do setor.

O Governo de São Paulo, por sua vez, afirmou que, como “acionista majoritário da terceira maior Companhia de Saneamento do mundo em termos de receita, tem concentrado seus esforços e investimentos, de forma responsável, na melhoria de qualidade de vida e saúde da população”. Afirmou, ainda, que a companhia registra lucros sistematicamente há mais de duas décadas, mesmo no período de pandemia, quando foi garantida a isenção da tarifa e o abastecimento à população de baixa renda.

 

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