Momento é de convergência e agenda ASG se move sozinha, diz coordenador da Anbima

Momento é de convergência e agenda ASG se move sozinha, diz coordenador da Anbima

Cynthia Decloedt

14 de novembro de 2020 | 12h59

A pandemia contribuiu, e muito, para dar gás ao tema da sustentabilidade este ano. Mas a Associação Brasileira de Bancos e Mercado de Capitais (Anbima) já se preparou no final do ano passado para dar o pontapé inicial à criação de um eixo único para esta pauta que até há pouco vinha circulando de modo fragmentado entre gestores, em fóruns e na “cozinha” de muitas instituições financeiras. A associação transformou seu comitê técnico de sustentabilidade em um grupo consultivo que agora dará andamento a uma agenda estratégica para lançar, até o meio do ano de 2021, um levantamento sobre as práticas da indústria de investimento em termos de políticas ASG e construir um banco de dados, que servirá de parâmetro para iniciar a classificação dos fundos sustentáveis. Futuramente, a ambição é chegar à autoregulação.

O Grupo Consultivo de Sustentabilidade é coordenado por Carlos Takahashi, veterano do mercado na indústria de fundos e atualmente presidente da subsidiária brasileira da gestora norte-americana BlackRock, primeira no mundo a vocalizar preocupações com o impacto adverso no preço dos ativos de se ignorar desequilíbrios ambientais e sociais.

“Há neste momento uma convergência e temos as novas gerações e as grandes instituições, assim como as lideranças no mercado, todos próximos ao tema. Há um ecossistema mais conectado. As peças estão se juntando”, diz Takahashi em sua primeira conversa como coordenador do grupo, com exclusividade ao Broadcast.

Para ele, a agenda de sustentabilidade caminha no mercado apesar do direcionamento, por vezes divergente ou acalorado, na esfera governamental e lembra que, de toda a forma, se trata de uma jornada. “O pedaço da agenda que estamos tratando depende só do setor privado e, portanto, se move sozinha”, pontuou. “O mercado já está colocando no preço dos ativos riscos ASG quando identificados”, completa.

Takahashi ou Cacá, como é conhecido, conta que dentro da Anbima, a sustentabilidade é assunto tratado desde 2014 por um grupo técnico. Segundo ele, o grupo fez vários trabalhos para se conectar com discussões feitas no exterior em torno da sustentabilidade e, no início de 2020, lançou o primeiro guia de melhores práticas para a inclusão de aspectos ASG nas análises de investimento.

O Grupo Consultivo de Sustentabilidade veio no ano passado, em meio a mudanças na governança da Anbima, e a missão é dar apoio às decisões da associação. “Temos carência de informações, porque as instituições sempre trabalharam em nichos, com diferentes critérios”, pontua. Por isso, segundo ele, a necessidade de um levantamento que traga uma visão ampla, a fim de se discutir de forma madura como fomentar esse mercado ASG de forma organizada, consistente e sustentável. “A preocupação do grupo é olhar o ‘sell side’ (as empresas que emitem os ativos) e o ‘buy side’ (quem compra), para entender o mercado como um todo”, diz.

Takahashi considera, portanto, que a principal agenda hoje é compreender adequadamente como os agentes entendem o investimento sustentável e a incorporação em suas práticas. Paralelamente, o banco de dados deverá permitir a leitura sobre as políticas de investimento que estão incorporadas em fundos, muitos deles sem uma visibilidade clara.

“Queremos melhorar a base de dados atual da Anbima para ter um retrato quantitativo e qualitativo mais amplo do que temos de investimentos sustentáveis nas suas mais diversas opções”, conta. Por exemplo, diz ele, quando o investidor compra um greenbond, o título tem descrito quais são critérios incorporados que o classificam como sustentável, “mas se o papel estiver dentro do fundo, essa evidência pode não ser tão evidente”, explica. Além disso, acrescenta ainda, existem vários filtros que são praticados para qualificar um investimento como ASG, que podem ser temáticos ou de impacto.

Um segundo objetivo da base de dados é, a partir de sua leitura, aperfeiçoar o guia e fomentar o crescimento do mercado de forma consistente e evitar práticas inadequadas para, em algum momento “chegarmos à autoregulação”.

Takahashi afirma que os critérios para a classificação dos fundos ainda estão sendo estudadas. “Não podemos imaginar algo sem fazer o mapeamento”!, observa, lembrando que outros países estão mais avançados do que o Brasil no estabelecimento de critérios de classificação, embora, segundo ele, seja um desafio em todo o mundo.

Para ele, a pandemia com certeza trouxe urgência e um sentimento de “compaixão” com as questões sociais, “lembrando a todos que subestimamos as questões ambientais e climáticas”. Ao mesmo tempo, acelerou e antecipou outros movimentos que já ocorriam e que ganharam um nível de transparência não vista antes.

 

Tudo o que sabemos sobre:

#ASGesg#meioambientesustentabilidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: