Múltis brasileiras retomam presença no exterior com maior investimento em sete anos

Múltis brasileiras retomam presença no exterior com maior investimento em sete anos

Eduardo Laguna

09 de agosto de 2021 | 09h50

Maior parte das aquisições da Ambipar foi no exterior. Foto: Ambipar/Divulgação

Um ano depois de a chegada da pandemia levantar uma onda de repatriação de capital, as multinacionais brasileiras voltaram a investir com intensidade no exterior. Em termos líquidos – ou seja, já descontando o dinheiro que volta ao Brasil -, os investimentos em negócios fora do País já passam de US$ 13 bilhões em 2021, no maior montante, entre períodos equivalentes, em sete anos.

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Com a reabertura de países onde a imunização evoluiu mais rápido do que no Brasil, as empresas estão agora retendo dinheiro em operações estrangeiras, reinvestindo 93% do lucro gerado por elas. É uma situação que contrasta com o que acontece nas filiais de grupos internacionais no Brasil: mais da metade do lucro obtido aqui tem ido neste ano aos cofres dos controladores no exterior.

Os dados, relativos ao primeiro semestre deste ano, fazem parte das contas externas do Banco Central (BC). Nos quatro primeiros meses de pandemia, entre março e junho de 2020, US$ 23 bilhões voltaram ao Brasil em razão de negócios vendidos no exterior e transferências de recursos, tanto lucro quanto dinheiro em caixa, das filiais a suas matrizes.

Na direção contrária, o fluxo deste ano indica que as multinacionais brasileiras estão recompondo posições no exterior. Ao mesmo tempo em que a volta de mercados internacionais demanda investimentos, há menor necessidade de reforçar o caixa no Brasil após a travessia da fase mais aguda da crise sanitária.

Especialistas também entendem que as empresas não têm hoje urgência em trazer recursos gerados fora do Brasil. Primeiro porque o quadro fiscal delicado e as tensões políticas não sugerem que os dólares que elas têm no exterior vão perder abruptamente valor. Segundo porque o crescimento da economia brasileira caminha para se acomodar abaixo da média internacional, tornando menos interessante deslocar para cá recursos aplicados em economias de maior potencial.

De acordo com levantamento feito pela Austin Rating com base em previsões de mercado para a economia brasileira e do Fundo Monetário Internacional (FMI) para as demais economias, 170 países devem crescer mais do que o Brasil nos próximos dois anos.

Crescimento global mais forte que brasileiro é visto como oportunidade por empresas

“Na comparação com países emergentes, principalmente do leste europeu e do sudeste asiático, ou mesmo vizinhos como Chile e Colômbia, o pós-pandemia no Brasil é de crescimento mais lento. Seguimos com riscos fiscais e as reformas não evoluíram na velocidade ideal”, diz o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini.

“As empresas buscam oportunidades e, enquanto uma parte do mundo emergente cresce rápido, a gente volta, em 2022, a ter o padrão de crescimento modesto de anos anteriores. O fôlego do Brasil é curto”, diz.

Dos US$ 13,4 bilhões investidos por companhias brasileiras no exterior entre janeiro e junho deste ano, US$ 10,2 bilhões – ou seja, três quartos – são lucros gerados pelas filiais que foram reinvestidos. Na série estatística do BC iniciada em 2010, trata-se do maior valor reinvestido no exterior por empresas residentes no Brasil, sendo complementado por outros US$ 3,4 bilhões que, de fato, saíram do Brasil. O saldo dos investimentos totais ainda tem um desconto de US$ 191 milhões em função das transferências entre empresas de um mesmo grupo econômico, as chamadas operações intercompany, que mostram até aqui mais regressos do que envio de capital ao exterior.

“As empresas brasileiras atravessam crises desde 2014, estão descapitalizadas. Então, a maneira de se expandir negócios lá fora é deixar o dinheiro por lá”, avalia Robson Gonçalves, consultor e professor dos MBAs da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Outro possível motivo citado para explicar a retenção de dinheiro no exterior está associado à perspectiva de retirada dos estímulos monetários, que colocaram os juros de economias desenvolvidas perto do zero no enfrentamento do choque da pandemia. Agora, com os juros pressionados – dada, portanto, a tendência de elevação do custo de capital -, mais empresas estariam fazendo caixa para não captar dinheiro com bancos a taxas mais altas adiante.

“As economias estão crescendo mais, reabrindo mais, precisando de mais capital e, por outro lado, os juros podem também subir mais. Sob o risco de aumento dos juros diante, principalmente, da diminuição, cada vez mais próxima, da expansão monetária nos Estados Unidos, pode ser que as empresas estejam dando preferência a financiar investimentos com recursos próprios”, afirma Roberto Dumas, professor do Insper.

 

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 05/08/2021, às 13:47:10 .

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