Nova onda do covid-19 ameaça sobrevivência de empresas com receita de até R$ 1 bi

Cynthia Decloedt

26 de março de 2021 | 10h47

Corredor vazio do Shopping Center Norte em São Paulo, que fecha as portas em meio a crise de pandemia do novo conoravirus – FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

O discurso recente do governo em torno da vacinação chega tarde para um grande número de companhias. Para aquelas não listadas em Bolsa e com faturamento abaixo de R$ 1 bilhão, o risco é de sobrevivência do negócio, segundo indicam especialistas ouvidos pelo Broadcast. A expectativa é que os dados de inadimplência, de pedidos de recuperação judicial e falência comecem em breve a espelhar o aumento das dificuldades.

A nova onda do covid-19, além de ser mais agressiva e cercada de incertezas, encontra um grupo de companhias que já são sobreviventes do primeiro pico de contágio, de um ano atrás, e que agora, tem menos chances de contar com dinheiro novo do governo ou com a benevolência dos bancos.

De acordo com um levantamento da Alvarez&Marsal, a maior parte das companhias com capital aberto em bolsa, teve um crescimento maior de caixa do que seus passivos desde o início da atual crise com a pandemia, no ano passado, melhorando sua liquidez. O sócio da consultoria Alvarez & Marsal, Eduardo Seixas, lembra, no entanto, que essas são empresas médias e grandes.

Aquelas fora desse grupo devem sofrer com a prostração econômica no primeiro semestre, em contrapartida a um calendário de vencimentos de empréstimos tomados no ano passado, seja por linhas de socorro abertas pelo governo ou postergações concedidas por bancos.

“Existem várias empresas com faturamento de até R$ 1 bilhão ao ano que não terão opção a não ser pedir recuperação judicial, principalmente porque as novas medidas de suporte do governo, se vierem, não serão da mesma intensidade do ano passado”, afirma Seixas. “Também não vemos os bancos com a mesma benevolência para postergação de dívidas por mais seis meses ou um ano.”

O Ministério da Economia anunciou ontem o adiamento do recolhimento de tributos para empresas do Simples Nacional e sinalizou com a retomada do programa de redução de jornada e salário e suspensão de contratos como próxima ação a ser adotada. Medidas de crédito para as empresas em dificuldade, por sua vez, devem ser anunciadas num futuro muito próximo, indicou o governo. Hoje, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou estar engatilhado uma nova fase do programa de apoio a micro e pequenas empresas, o Pronampe.

Lockdown

Seixas destaca que mesmo havendo medidas para amortecer as dificuldades das empresas e, na hipótese de que não tivessem sido medidas de restrição por prefeitos e governadores, já é esperado um volume de pedidos de recuperação judicial maior. A projeção feita pela A&M em fevereiro indicava um total de 1,8 mil pedidos no acumulado de 2021. Por enquanto a conta está mantida. “Mas se o lockdown se prorrogar por mais tempo, a economia demorar a reagir, esses números podem mudar”, acrescenta.

Em 2020, houve um total de 1,179 mil pedidos de recuperações judiciais, 15% abaixo de 2019, graças às medidas adotadas por bancos e governo. “Achamos que esse número vai explodir esse ano, com lockdown ou sem lockdown”, diz o especialista, lembrando que as mudanças na lei de recuperação judicial em vigor este ano vão ajudar muitas a tomar uma decisão nesse sentido.

De acordo com Seixas, os bancos fizeram um grande movimento de suporte às empresas no ano passado, o que foi relevante para dar colchão a elas na crise, mas não podem ficar rolando dívidas eternamente. “Aquelas empresas que conseguirem mostrar alguma luz no fim do túnel podem ganhar mais prazo dos bancos”, afirma. Em março, o governo autorizou prorrogação por três meses no vencimento das parcelas de crédito tomado pelo Pronampe no ano passado, mas a adesão dos bancos repassadores, entre os quais estão os três maiores privados, é facultativa.

“Os bancos estão com uma atitude que é construtiva perante as empresas maiores para encontrar soluções, mas em algum momento vão precisar cobrar, especialmente se o custo econômico começar a ficar elevado demais”, diz o sócio da plataforma de investimentos alternativos Jive, Guilherme Ferreira.

De acordo com dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), entre junho e novembro de 2020, o Pronampe beneficiou 441,2 mil empresas, com dotação de R$ 32,8 bilhões. Considerando todos os programas governamentais criados na crise, os bancos concederam R$ 122,8 bilhões em crédito, para 846.357 empresas. Como comparação, o auxílio emergencial, concedido pelo governo federal às pessoas físicas, somou R$ 293 bilhões. A nova rodada do benefício neste ano, com valores menores, deve ser um terço desse montante.

Ferreira comenta que os números do relatório de estabilidade econômica mais recente divulgado pelo Banco Central, com dados de julho de 2020, quando já haviam entrado em vigor boa parte das medidas para conter um colapso maior das empresas, apontou um aumento no número de ativos problemáticos dos bancos. “É um indicador antecedente do que pode haver de inadimplência este ano, principalmente se não houver retomada econômica”, afirma.

Os dados do relatório citados por ele mostram dívidas que foram renegociadas e as que não tiveram pagamento. O relatório completo de 2020 ainda não foi divulgado.

“Temos empresas que sofreram um trauma sério e estavam em recuperação. Vejo perspectiva de força na economia como um todo, mas um importante número de companhias não vai conseguir sobreviver sem injeção de recursos ou outras medidas”, afirma Ferreira. Ele acredita que parte delas, terá dificuldade de saldar dívidas mesmo em um cenário de maior vacinação e consequente retomada, por conta de queda no faturamento, frente ao atual lockdown.

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 25/03/2020 às 18:45

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