Nubank está ansioso com chegada do Pix e vê “desculpinha” em grandes bancos

Nubank está ansioso com chegada do Pix e vê “desculpinha” em grandes bancos

André Ítalo Rocha

05 de outubro de 2020 | 18h51

Cofundadora do Nubank, Cristina Junqueira afirma que Pix é “evolução natural” do que já faz a fintech. Foto: JF Diorio/Estadão

Se os maiores bancos do Brasil têm defendido uma implementação em fases do Pix, como uma forma de minimizar o risco de fraudes, o Nubank está ansioso para que entre logo em vigor – e a todo vapor – o sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido pelo Banco Central (BC). É o que afirma Cristina Junqueira, cofundadora da maior fintech do Brasil, em entrevista ao Broadcast. Para ela, o argumento dos principais bancos é uma “desculpinha” usada por “quem não quer que o futuro chegue”, pois o BC exige das instituições que o novo meio de pagamento seja tão ou mais seguro do que os que já existem.

O Pix está previsto para começar a funcionar em novembro, mas a partir desta segunda-feira, 5, as pessoas já podem se cadastrar nas instituições onde têm conta para poder utilizar o novo meio de pagamento, assim que estiver disponível. O BC desenvolveu o Pix para que uma pagamento ou uma transferência seja feita em menos de 10 segundos, em qualquer horário ou dia da semana, sem que nenhuma tarifa possa ser cobrada de pessoas físicas ou microempreendedores individuais (MEIs). Espera-se, com isso, que o TED e o DOC entrem em desuso, resultando em perda de receitas para os grandes bancos. “Por isso eu entendo o desespero da turma lá”, diz a executiva.

Confira a entrevista completa:

Broadcast: Os maiores bancos do Brasil têm defendido que o Pix seja implementado em fases, com o argumento de que isso minimizaria riscos de fraude. O que o Nubank pensa disso?

Cristina Junqueira: Eu acho isso aí uma grande desculpinha. A definição do BC foi: o Pix tem de ser tão seguro ou mais que DOC e TED. Então, ponto, acabou. O Pix foi desenhado para isso. Eles (os grandes bancos) estão dizendo que foi muito rápido (o tempo para implementar), mas nós estamos tendo o mesmo tempo. Se eles acham que pode dar algo na implementação deles e não ser seguro, é problema deles. É só fazer o negócio direito. Empresas inovadoras são as que querem que o futuro chegue mais rápido. Nós estamos ansiosos. Queremos que o Pix chegue logo, porque é um evolução natural para nós, que já trabalhávamos com pagamentos instantâneos, com transferências entre contas do Nubank sempre de graça e instantâneas. Mas tem uma resistência (dos bancos). É a turma do ‘Ah não, está muito rápido, peraí’, é a turma que não quer que o futuro chegue.

Broadcast: os clientes do Nubank têm demonstrado algum receio com a segurança do Pix?

Cristina: Não. O que tem é cliente que não entende ainda do que se trata. Estamos investindo muito em um esforço educacional. É um pouco mais difícil de entender, para quem não está acostumado. Os clientes querem saber, por exemplo, se vai ter que pagar, porque acha que se é coisa de banco tem que pagar. Perguntam também se é preciso baixar outro aplicativo. É mais por aí.

Broadcast: a adesão das pessoas ao Pix tende a ser rápida, substituindo de uma vez o boleto, o TED e o DOC, ou ainda vamos conviver por algum tempo com todos esses meios de pagamento?

Cristina: Vai ser um gradiente. Para instituições como o Nubank, se acabar com tudo (boleto, TED e DOC), será maravilhoso. Vamos incentivar muito o cliente a usar o Pix. Se pudermos, toda transação será por Pix. Mas outras instituições vão perder um dinheirão, porque cobravam um monte de tarifa (para TED e DOC). Essas não vão estar tão ligeiras para a adoção. Nelas eu acho que o cliente terá de insistir para usar o Pix. Mas acredito que em algum momento acaba tudo. O boleto é uma das piores experiências, porque é pelo menos um dia útil para cair o dinheiro. Se o cliente quiser pagar com boleto, vamos perguntar se ele não prefere fazer o Pix. Para outros lugares não posso dizer o mesmo.

Broadcast: O Nubank pretende, como participante direto do sistema, oferecer serviços de plataforma para os indiretos, como uma forma de monetizar o Pix?

Cristina: Por enquanto, estamos focados em atender os clientes. Poderemos prestar serviço de plataforma, mas não é nosso foco. Isso demanda recurso, tempo, dinheiro. Teríamos de deixar de fazer outras coisas que para nosso cliente importam mais. O BC abriu essa possibilidade para compensar um pouco para aqueles que vão perder dinheiro (sem a cobrança de tarifas para pessoa física). Para nós não precisa de compensação nenhuma, porque já não cobrávamos nada antes. Desde que começamos, sem cobrar nada, nossos clientes já economizaram R$ 8 bilhões em tarifas de TED e DOC. Só no mês passado foram R$ 110 milhões. É um dinheiro que volta para a economia, como consumo, e não vira lucro de banco. É uma receita muito grande e por isso eu entendo o desespero da turma lá (os grandes bancos). Se a gente economizou esse dinheiro todo, imagina o sistema financeiro inteiro.

Broadcast: na semana passada o Nubank anunciou o início da operação na Colômbia, já com uma fila de espera pelo cartão de crédito. Qual tem sido a demanda?

Cristina: O que podemos dizer é que, no primeiro dia que abrimos para pedir o cartão de crédito, a procura já foi o dobro dos dois primeiros dias lá no México (no começo de 2020). E a população da Colômbia (49,6 milhões) é menos da metade da do México (126,2 milhões).

Broadcast: foi um resultado surpreende, então?

Cristina: Nós nos surpreendemos. Mas é resultado de um anúncio bem-sucedido que fizemos por lá. Fizemos um evento que teve muita visibilidade na mídia colombiana. Mas acho que o que mais contou foi o fato de que o meu sócio (David Vélez, CEO do Nubank) é colombiano. Eles até falam lá que o Nubank é colombiano e não brasileiro. E também tivemos a sorte de que, no dia do anúncio na Colômbia, os dois maiores bancos de lá passaram por instabilidade no sistema e muita gente reclamou no Twitter.

Broadcast: tem potencial para crescer tão rápido quanto no Brasil?

Cristina: Pelo interesse demonstrado, tem potencial para ser muito rápido. O Brasil foi rápido, mas nos dois primeiros anos não foi tanto, não tínhamos a mesma estrutura de hoje. Na Colômbia o pessoal já conhecia o Nubank, já tinha um orgulho da marca, já pediam para irmos para lá. Proporcionalmente, dado que é um país menor, pode até ser mais rápido. Os clientes devem começar a receber o cartão até o fim do ano, talvez no fim de novembro ou começo de dezembro.

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