Oi já atrai investidores interessados em negócio de fibra

Oi já atrai investidores interessados em negócio de fibra

Circe Bonatelli

24 de junho de 2020 | 04h59

Prédio da Oi. Empresa pretende separar negócios e colocá-los à venda. Crédito da foto: Nacho Doce/Reuters 

A Oi já tem conversas em andamento com interessados em arrematar uma fatia da futura empresa de fibra ótica – batizada de InfraCo – que surgirá a partir da separação e venda dos ativos do grupo, anunciado na semana passada. A expectativa é que uma oferta seja formalizada este ano, contou o presidente da tele, Rodrigo Abreu, em entrevista.

“Não estamos começando do zero. Há um processo formal sendo conduzido nos últimos meses por assessores financeiros”, diz Abreu. “Estamos no meio do processo. No segundo semestre espero ter uma proposta vinculante”, emendou, acrescentando que o número de interessados é “alto”.

Embora não cite nomes, Abreu menciona que há liquidez e apetite por ativos de infraestrutura e telecomunicações por parte de investidores globais, como fundos soberanos, de pensão e private equity. Rivais por aqui não entraram na disputa, ao menos por enquanto, apurou a Coluna.

O novo plano da Oi prevê a venda de redes móveis, torres e data centers para pagar dívida e sustentar investimentos, de modo que a InfraCo será a principal unidade de negócios restante. Ela atuará como uma subsidiária focada na oferta de infraestrutura e serviços de fibra ótica. A Oi permanecerá como sócia, mas venderá entre 25% a 51% do capital da subsidiária, o que poderá lhe render, no mínimo, R$ 6,5 bilhões, de acordo com cálculos da própria tele.

Oi propõe redesenho dos negócios em aditamento ao plano de recuperação

O redesenho do negócio de fibra ótica da Oi com a criação da InfraCo foi a principal novidade da proposta de aditamento ao seu plano de recuperação judicial, apresentado pela Oi a investidores e analistas na última semana. A proposta ainda está sujeita à aprovação dos credores, o que ocorrerá em assembleia prevista para agosto.

A companhia pretende criar quatro unidades produtivas isoladas (UPIs), estruturas que servirão para segregar os ativos de cada um dos segmentos de telecomunicações em que atua e, com isso, abrir caminho para a venda dessas unidades.

Ao todo, o grupo prevê levantar ao menos R$ 22,8 bilhões, que é o valor mínimo estimado para cada uma das unidades de negócios: redes móveis (R$ 15 bilhões), torres de transmissão (R$ 1 bilhão), data centers (R$ 325 milhões), além de uma fatia entre 25% e 51% do negócios de fibra ótica (R$ 6,5 bilhões).

As dívidas do grupo, as obrigações regulatórias – como manutenção de orelhões – e outros passivos continuarão na holding Oi SA. Com isso, o grupo espera reduzir a insegurança jurídica das UPIs e aumentar a atratividade para os investidores.

Se os credores aprovarem o aditamento ao plano, esse conjunto de ativos vai a leilões entre o último trimestre de 2020 e o primeiro trimestre de 2021, gerando recursos para reforçar o caixa, prosseguir com o pagamento de credores e arcar com os investimentos no negócio remanescente de fibra.

Estratégia da Oi é ser líder em fibra ótica

“Queremos ser o maior player do Brasil em fibra ótica. Nada disso muda”, pondera o presidente da Oi. “A ideia não é vender a fibra, mas sim admitir a entrada de investidores para acelerar a expansão das redes”, explica, lembrando que a Oi permanecerá com, no mínimo, 49% do negócio.

A InfraCo já nascerá com uma rede 388 mil quilômetros de fibra ótica, cobertura de 2,3 mil cidades e 6 milhões de residências habilitadas. Essa estrutura será usada como uma rede neutra de transmissão de dados, tendo a própria Oi como sua maior cliente, mas podendo atender outras operadoras, nacionais ou regionais. Mais adiante, dará suporte também à futura tecnologia 5G, que vai demandar antenas conectadas às redes fixas.

A Oi lançará ainda uma empresa independente e complementar, chamada de ClientCo, com foco na prestação de serviços de banda larga, TV por assinatura e soluções de TI para residências e empresas. Combinadas, as duas empresas terão margem de lucro operacional (margem Ebitda) entre 40% e 50%, prevê Abreu. “A segregação dos ativos será feita para destravar valor”, argumenta. Atualmente, a margem consolidada do grupo está no patamar de 30%.

A lógica da Oi em optar pela criação dessas duas empresas independentes é separar a atuação em infraestrutura da atuação em serviços, que são negócios distintos. Outras multinacionais de telecomunicações seguiram caminhos parecidos, como a espanhola Telefónica, que apartou seu próprio negócio de infraestrutura na Europa.

InfraCo deve gerar lucro a partir de 2021, prevê E&Y

A InfraCo, principal unidade de negócios restante após a venda dos demais ativos da Oi, vai dar lucro a partir de 2022. A projeção consta em laudo feito pela consultoria E&Y e que parte de premissas apresentadas pela própria Oi na sua proposta de aditamento ao plano de recuperação judicial.

O documento revela a perspectiva de que a InfraCo tenha prejuízo de R$ 261 milhões em 2021, mas volte ao azul nos anos seguintes, com lucro de R$ 111 milhões em 2022, R$ 519 milhões em 2023 e de R$ 859 milhões em 2024, superando o patamar de R$ 1 bilhão a partir de 2025 e lucrando R$ 2 bilhões em 2029.

Para o Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização), a projeção é de R$ 1,070 bilhão em 2021, R$ 2,173 bilhões em 2022 e R$ 3,421 bilhões em 2023, com margens de 26,70%, 40,89% e 50,44%, respectivamente. Por sua vez, a receita líquida deve ser de R$ 4,007 bilhões, R$ 5,315 bilhões e R$ 6,783 bilhões nos mesmos anos.

A Oi projeta aumento da margem Ebitda entre 2021 e 2025 devido à implantação e ao desenvolvimento da estratégia de expansão das redes, pautado pela aceleração de conexões de fibra e evolução dos serviços de atacado. A partir de 2025, a margem apresentará novos incrementos, chegando a 64,09% até 2029, explicado por ganhos de eficiência operacional em custos e despesas e ganhos de escala.

Por outro lado, esta unidade de negócios demandará investimentos de R$ 18,6 bilhões no período entre 2021 e 2024 para expansão das redes.

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