Pandemia acelera fusões e aquisições como remédio das empresas contra crise

Pandemia acelera fusões e aquisições como remédio das empresas contra crise

Cynthia Decloedt e Fernanda Guimarães

22 de outubro de 2020 | 17h31

A incerteza trazida pela pandemia do covid-19 acelerou negócios esperados para serem maturados no médio a longo prazo, com companhias unindo esforços para ganho de musculatura e eficiência, outras definindo o foco de sua atuação – provocando o efeito colateral a venda de ativos – e aquelas de setores que sofreram de frente o baque da crise, que terão que se reposicionar, vendendo negócios ou marcas, para se manterem de pé no pós-pandemia.

Um dos maiores negócios anunciados no ano, a união de Localiza e Unidas, que criará uma gigante no setor de locação de veículo com um valor combinado de R$ 50 bilhões, se desenrolou exatamente durante a pandemia, do início ao fim. “Com duas empresas que já se conhecem, competidoras há muito tempo, a discussão sobre a transação é abreviada. Acho que em vários casos na pandemia uma das coisas que o empreendedor olha são as expectativas para os próximos anos, se o processo de recuperação da economia vai demorar, e pensa como entregar retorno. E uma forma eficiente é combinar empresas”, comenta o responsável pela área de fusões e aquisições do Bank of America, Diogo Aragão. O BofA trabalhou como assessor exclusivo da Localiza nesse processo, que ainda passará pelo crivo dos acionistas das empresas e pelo escrutínio do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Ainda no terceiro trimestre foram anunciadas duas operações bastante competitivas. A disputa de aquisição da Linx travada entre Stone e Totvs, um negócio de mais de R$ 6 bilhões e que ganhou tração na pandemia. E o processo de venda dos ativos da Laureate, dona das universidades Anhembi Morumbi e FMU, que de tão disputada acabou chegando nesta semana na justiça com potencial de se arrastar por vários anos. O embate está entre a Ser Educacional e a Laureate, tendo a oferta da Ânima como pano de fundo de uma transação de mais de R$ 4 bilhões.

Depois de dois trimestres seguidos de queda, por conta do aumento exponencial das incertezas, o intervalo entre abril e junho deste ano houve o registro de 375 transações de fusões e aquisições entre anunciadas e concluídas, somando R$ 81,6 bilhões, segundo dados do TTR. O valor movimentado aumentou em 57% na comparação anual, mas houve uma redução do número de transações de 14%. No ano, o mercado transacional brasileiro registrou até o fim de setembro, 948 operações com um valor total de R$ 137,9 bilhões, queda de 25% em volume e 15% no número de transações, sempre na comparação anual.

Aragão, do Bofa, conta que há uma demanda reprimida de operações de M&A partindo do setor de varejo e consumo, muitas na esteira da crise. “Há empresas repensando seu portfólio de ativos para montar seu modelo de negócio e no atual contexto acaba acontecendo uma avaliação. A crise traz oportunidades e faz outras empresas se focarem em mercados específicos. Outras reveem seus negócios para conseguirem financiar outra compra”, comenta o executivo.

O sócio da JK Capital, Saulo Sturaro, observa ainda que a taxa Selic tem impulsionado os negócios, com o mercado de capitais mais pujante. “Com a Selic tão baixa, existe uma transferência de recursos que estavam na renda fixa para ativos da economia real, paralelamente dos que chegam via bolsa”, nota. Ele diz que em seu escritório, o volume de projetos em andamento até outubro subiu entre 15% a 20% superior ao ano passado. “Em 2015, quando a Selic estava a 14% ao ano, era mais difícil financiar projetos de expansão não orgânico se havia uma previsão de retorno, por exemplo, de 15% ao ano. Hoje, se uma empresa capta a 3%, a margem de segurança do investimento é maior”, conta. Muitas empresas que fizeram ofertas de ações (IPOs, na sigla em inglês) neste ano tinham como estratégia aquisições.

As preocupações com a situação fiscal e a agenda ambiental do Brasil ainda não desanimaram os investidores, na opinião dos especialistas ouvidos. O sócio da área de Fusões e Aquisições do Veirano Advogados, Carlos Lobo, diz que, embora a agenda ambiental tenha impacto extremamente grande, quem já está no Brasil não deixa de fazer negócios. “Mas isso atrapalha a entrada de novos players. Não vi ainda nenhuma desistência, mas percebo ceticismo e reticente, com avaliações de que talvez esse não seja o melhor momento”, conta.

De toda a forma, Lobo é bastante otimista com o segmento e, da mesma forma que o resto do mercado, vê o movimento se sustentando, lembrando ainda que, o programa de privatização, embora não tenha ocorrido na velocidade desejada, tem também trazido operações.

O diretor-executivo da Duff & Phelps, Alexandre Pierantoni aposta que a forte recuperação do setor de M&A neste segundo semestre deve se refletir nos números de transações em 2021. “O número operações de fusões e aquisições pode exceder o patamar histórico de 1,1 mil no Brasil no próximo ano, ultrapassando as 1,350 mil operações”, diz ele. O executivo lembra ainda que até setembro deste ano o número de transações anunciadas já alcançou o patamar do mesmo período de 2019.

 

Tudo o que sabemos sobre:

#laureate#sereducacionalM&A

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: