Pandemia acelera realocação de bancos e fundos nos EUA e esvazia Wall Street

Pandemia acelera realocação de bancos e fundos nos EUA e esvazia Wall Street

Por Aline Bronzati e Altamiro Silva Júnior

27 de dezembro de 2020 | 05h00

Mulher corre em Brickell, bairro dos grandes bancos em Miami Foto: Reuters/Carlos Barria

Dentre vários impactos ao redor do globo, a pandemia colocou tração em um movimento já em curso na capital financeira do mundo, Nova York. Nas últimas semanas, bancos e fundos anunciaram a troca da famosa Wall Street por outras praças dos Estados Unidos, como Flórida e Texas. Nomes como o do gigante Goldman Sachs, o alemão Deutsche Bank e até o JPMorgan podem engrossar essa lista, que conta também com um brasileiro, o Itaú Unibanco, maior banco da América Latina.

Além do mundo mais virtual, possibilitado pelo home office, os elevados custos de Nova York, como impostos, locomoção e aluguel, motivam a mudança, que ameaça esvaziar o histórico distrito financeiro local. Por outro lado, a Flórida, com clima bem mais ameno e impostos mais baixos, passa a servir de ímã para bancos e gestores, com potencial de se alçar como o novo hub do setor nos Estados Unidos.

É para lá que foi, por exemplo, o Itaú. Em um movimento para unificar sua operação e cortar gastos, o brasileiro reforçou sua operação na Flórida, com Miami passando a ser o seu eixo central nos Estados Unidos. A decisão veio bem antes da pandemia. No início do ano passado, o Itaú solicitou uma nova licença de banco na Flórida e transferiu a filial de Nova York para lá.

“Miami passa a ser nosso hub nos EUA, com foco na América Latina e, em especial, o Brasil”, disse o CEO do Itaú USA e responsável pelas operações internacionais do Itaú Private Bank, Fernando Beyruti, em entrevista recente ao Broadcast.

Goldman Sachs vai à Flórida

Enquanto isso, o Goldman Sachs está estudando levar suas operações de gestão de recursos para a Flórida, de acordo com relatos da imprensa econômica americana nos últimos dias. As cidades de Miami e a luxuosa Palm Beach, onde Donald Trump tem residência de verão, e outros bilionários de Wall Street foram morar, estão entre os locais cogitados por um dos maiores ícones financeiros americanos.

É para a Flórida também que a gestora Elliott Management planeja se mudar. Dois gurus de Wall Street na gestão de hedge funds, os bilionários Paul Singer e Carl Icahn optaram pelo mesmo destino para sediar suas operações, segundo a Forbes. A escolhida foi a cidade de Palm Beach.

Já o alemão Deutsche Bank tem decisão menos radical, também segundo a imprensa americana. Vai deixar boa parte de suas instalações no coração de Wall Street para mudar para a região do Columbus Circle em Nova York, perto do Central Park.

“Muitos outros bancos e empresas financeiras estão agora tentando sair dos limites antes amigáveis da cidade de Nova York, que não é mais tão amigável”, escreveu o cronista há décadas de Wall Street, Charles Gasparino, em artigo este mês no The New York Post.

A tendência que vinha se desenhando há anos, avalia ele, se acelerou com a covid-19, custos em espiral de alta e políticas públicas não amigáveis aos negócios. Ele comenta que até o JPMorgan Chase, maior banco dos EUA, estaria disposto a tirar parte de seus negócios de Nova York. Bancos como os suíços UBS e Credit Suisse, o norte-americano Alliance Bernstein e o britânico Barclays estão entre as casas financeiras que criaram hubs em locais fora de Nova York.

O esvaziamento de Wall Street, que já vinha de antes da pandemia, ocorre enquanto a cidade de Nova York, assim como outras economias, tenta se recuperar do tombo da covid-19. Com o aumento dos casos por lá, que já exigiu novas medidas de restrição da mobilidade, a retomada pode estar em jogo.

“A recuperação de Nova York permanece intacta, mas os próximos meses serão desafiadores. Restrições adicionais e a ameaça do próprio vírus parecem já estar pesando sobre o mercado de trabalho do estado”, observam os economistas Mark Vitner, Charles Dougherty e Nicole Cervi, do norte-americano Wells Fargo.

Depois de uma trajetória de queda constante desde a primavera, os pedidos de seguro-desemprego começaram a aumentar em Nova York. Como o número já era elevado, a piora do indicador pode ser um sinal de que as contratações podem desacelerar nos próximos meses, ressalta o banco.

Para Wells Fargo, o Produto Interno Bruto (PIB) de Nova York deve encolher 6,2% neste ano, mas o próximo será marcado por uma recuperação, com crescimento de 3,9%. A expectativa é a de que a vacina ajude a desbloquear parte da atividade enquanto as viagens de negócios não são retomadas – vale lembrar que, ainda que tudo volte a normal, muitas delas não serão mais necessárias diante da ‘televida’. Do lado do emprego, a folha de pagamentos nova-iorquina deve encerrar o ano com quase um milhão a menos do que começou 2020.

Parte da baixa é causada pela saída de pessoas de Nova York. “Mais de 300 mil pessoas saíram de Nova York rumo ao sul ou ao subúrbio esse ano. A piora na qualidade de vida em itens como segurança e custo de vida, a resposta à covid-19 e a possibilidade do trabalho remoto fizeram isso”, justifica um profissional do mercado financeiro, que já deixou Nova York e preferiu falar à reportagem na condição de anonimato. Uma das justificativas é o imposto sobre os salários, que no Estado é de 8,8% para os mais altos, além dos 3,9% cobrados pela cidade, acumulando uma alíquota de 13%.

No caso dos bancos brasileiros, a Flórida já pode ser considerada o ‘novo hub’ nos Estados Unidos. Além do Itaú, o Bradesco recentemente reforçou sua atuação por lá com a compra do BAC, um banco local. Por outro lado, o Banco do Brasil cogita desistir da venda da sua filial por lá, o BB Americas, após não obter uma oferta que valesse a pena, conforme antecipou o Broadcast.

“Para bancos brasileiros, Flórida faz mais sentido. Os clientes pessoas físicas estão em Miami e, no caso dos corporativos, não faz muita diferença. Além disso, também ajuda na atração e retenção de talentos”, diz uma fonte, ainda estabelecida em Nova York, mas que muda para a Flórida no inverno por conta do frio.

Procurado, o Goldman não comentou. O Deutsche disse que não há planos de mudar a localização de qualquer equipe de um hub da cidade para outro a curto prazo. Afirmou, contudo, que a unidade do Deutsche Bank América, localizada nos EUA, estuda a possibilidade de efetivar a forma de trabalho híbrida aos seus colaboradores – ou seja, parte da semana trabalhando em casa e parte no escritório. Segundo o banco alemão, “os detalhes estão sendo acertados e estarão em linha com o que tem sido feito por alguns dos concorrentes”.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 23/12/2020 às 11:46:06.

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