Pandemia sustou voo de brasileira à Nasdaq via empresa de ‘cheque em branco’

Pandemia sustou voo de brasileira à Nasdaq via empresa de ‘cheque em branco’

Gabriel Baldocchi

27 de julho de 2021 | 12h35

Bolsa norte-americana Nasdaq costuma ser o ponto de saída das empresas de ‘cheque em branco’. Foto: Estadão Conteúdo.

Uma companhia brasileira da cadeia de reciclagem de pneus esteve próxima de se tornar um dos primeiros grupos locais a abrir capital na bolsa eletrônica Nasdaq por meio de uma fusão com as chamadas empresas de “cheque em branco”, constituídas nos EUA. As negociações lideradas pela Andina Acquistion Corp. III avançaram até as fases finais, mas acabaram interrompidas com a mudança de cenário provocada pela pandemia, no ano passado.

O processo foi informado nos documentos da fusão da Andina com a americana Stryve Foods, de petiscos saudáveis, no início do ano, uma transação de US$ 170 milhões (cerca de R$ 900 milhões) que culminou com o ingresso da escolhida na Nasdaq.

Numa empresa de “cheque em branco”, ou Spac (Special Purpose Acquisition Company), nome oficial da modalidade, os investidores apostam na capacidade de gestores encontrarem boas oportunidades, sem saber de início qual empresa será o alvo dos recursos. A expectativa é que a experiência dos executivos os ajude a selecionar um negócio promissor para fazer uma fusão e então levá-lo à Bolsa.

O nome da empresa brasileira não foi divulgado pela Andina. Mas o processo de negociações com a fabricante local de insumos para reciclagem de pneus aparece nos detalhes sobre o caminho percorrido pelos executivos até a decisão final do investimento.

Brasil é um dos principais mercados de reformas de pneus

O segmento de reciclagem e reforma de pneus movimenta R$ 5 bilhões por ano no Brasil. O País está entre os três maiores mercados globais na área e conta com a atuação de divisões de multinacionais no setor, como a Bandag, da Bridgestone.

Entre as companhias brasileiras, um nome é considerado como mais provável a partir do perfil descrito pelos investidores da Andina. O grupo gaúcho Vipal, da família Paludo, fabrica insumos para reformas de pneus, tem unidades produtivas no Brasil e no exterior, e cerca de 3.000 funcionários. A empresa é a maior do setor no País e se diz líder na América Latina.

Fontes do setor lembram que a companhia já foi citada em rumores sobre potenciais aquisições no passado, principalmente na época em que atravessou dificuldades. Também destacam o seu reconhecimento no exterior, em especial nos EUA.

O grupo gaúcho é visto como um dos poucos nomes locais do ramo a ter condições de conduzir negociações com esse nível de sofisticação. Isso porque empresas de “cheque em branco” costumam demandar que suas investidas já tenham alguma estrutura de governança e informações financeiras para iniciar a jornada para a listagem.

A Vipal, por exemplo, já publica balanços. No ano passado, registrou R$ 2,3 bilhões em receitas e fechou ano com um lucro de R$ 89 milhões. No documento, a empresa informa também a conclusão, em 2019, do processo de reperfilamento das dívidas e um acordo de consentimento (waiver) em torno de cláusulas contratuais dos empréstimos (covenants) que estavam sendo descumpridas pelo grupo.

Além disso, a Vipal já tem operações no mercado americano, o que a torna mais conhecida dos potenciais investidores. Procurada, a empresa afirmou que não vai se manifestar. A reportagem tentou contato com executivos da Andina, mas não obteve resposta até a publicação.

Quem se interessou

A Andina III tem como principal executivo um ex-membro do alto escalão do ministério das finanças colombiano, com passagem anterior pelo JP Morgan. Inicialmente a empresa tinha como foco principal um negócio da América Latina para fazer sua fusão e abrir capital nos EUA.

Segundo a Andina, as negociações com a fabricante de insumos para reciclagem de pneus ganharam corpo em 2019, depois que a companhia-alvo conseguiu finalizar o processo de reestruturação de suas dívidas. Após a assinatura de um termo de intenções entre as partes e reuniões, no Brasil, com a diretoria e acionistas, o processo evoluiu para a fase de auditoria, o chamado due diligence. Foram feitas inclusive discussões sobre a futura aquisição de um competidor, com operações no exterior.

Com as restrições da pandemia, o processo de auditoria foi concluído apenas em abril de 2020. Mas ao perceber os impactos da crise sanitária na economia brasileira e no câmbio, os colombianos exigiram um ajuste nos termos do contrato, que não foi aceito pelos brasileiros. Os investidores então acabaram desistindo do negócio e seguiram na busca por um novo alvo, até encontrar a Stryve, no estado americano de Oklahama.

Modalidade movimentou mais de US$ 100 bilhões nos EUA

O episódio mostra como os recursos levantados nos EUA por meio das empresas de “cheque em branco”, num total de mais de US$ 100 bilhões neste ano, vêm rondando o País e podem acabar sendo destinados para as companhias brasileiras – inclusive em setores considerados menos óbvios e até então alheios à onda de liquidez vivida no mercado financeiro local.

Já há também iniciativas do tipo lançadas por gestoras regionais, como Pátria e Crescera, e voltadas para América Latina, num total de mais de US$ 2 bilhões (R$ 10,3 bilhões). Segundo apurou o Broadcast, ao menos dois investidores brasileiros estão em conversas para lançar novas empresas de “cheque em branco” nos EUA.

O interesse desses veículos de investimento por ativos brasileiros não se restringe às iniciativas regionais e abrange desde negócios de tecnologia ao setor aeroespacial, como o de “carros voadores” da Embraer, atualmente em negociação com a empresa a de cheque em branco Zanite Acquisiton Corp.

A própria Andina III relatou ter tido negociações preliminares com um grupo varejista brasileiro antes de engatar com a empresa de insumos para reciclagem de pneus no País.

Esta nota foi publicada no Broadcast+ no dia 26/07/2021, às 16h51.

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