Para ir além do ‘cara-crachá’ na análise de crédito, Boa Vista vai às compras

Para ir além do ‘cara-crachá’ na análise de crédito, Boa Vista vai às compras

Matheus Piovesana

12 de março de 2021 | 09h38

Feirão Limpa Crédito Foto: NILTON FUKUDA/ESTADÃO

Para a Boa Vista, um birô de crédito que se limite a acumular dados de consumidores não tem futuro, porque, com a digitalização dos cadastros, a base de dados vai se tornar uma commodity. A compra da Konduto, anunciada na quinta (11) pela empresa, é mais um passo no caminho que, na concepção da empresa, vai torná-la mais competitiva: o de aumentar a capacidade de análise inteligente das informações que estão na base. Além disso, adiciona serviços de prevenção a fraudes ao portfólio da empresa, movimento esperado pelo mercado.

A Konduto analisa as informações de transações feitas pela internet para ajudar varejistas a apontar quais delas podem ser fraudulentas, usando cartões de crédito clonados, por exemplo. Praticamente em tempo real, os serviços da empresa são capazes de afirmar, com base nos padrões de compra dos consumidores, se é o dono do cartão e não um criminoso que o está utilizando para comprar produtos em lojas online.

A startup foi fundada em 2014 e tem 120 funcionários. No ano passado, seus sistemas processaram 244 milhões de transações, com volume financeiro de R$ 35 bilhões. Hoje, a Konduto tem 700 clientes diretos, mas a solução chega a cerca de 20 mil lojas virtuais porque parte dos clientes são plataformas de infraestrutura para e-commerce, como a Vtex. A Boa Vista vai pagar R$ 172 milhões pela empresa, R$ 124 milhões em dinheiro e o restante em ações.

“No mundo físico, você tem o chip do cartão e o plástico, e com essa combinação a fraude é pequena. No mundo digital, não tem essa validação”, diz Tom Canabarro, CEO e cofundador da Konduto. Segundo ele, a ferramenta da empresa leva mais de 4 mil indicadores em conta para determinar se uma transação é ou não fraudada – até mesmo o local da compra está no pacote. “O sistema que nós construímos leva em consideração uma série de variáveis comportamentais: quanto tempo a pessoa passou no site, de onde acessou ou se deixa de comprar em um dia.”

Com a compra da Konduto, a Boa Vista entra no mercado de ferramentas antifraude, que ganham importância em um momento de exposição de dados de milhões de consumidores na internet de forma ilegal. “O nosso antifraude era meio cadastral, o ‘cara-crachá’: saber se aquele RG, aquele CPF, eram efetivamente daquela pessoa. Muito diferente da tecnologia e dos algoritmos que a Konduto tem”, diz Dirceu Gardel, CEO da Boa Vista.

A aquisição, a segunda desde que a empresa chegou à B3, em setembro, foi bem recebida pelo mercado: quase no encerramento do pregão, as ações da Boa Vista subiam 4,5%. “Embora não haja informações o suficiente para que possamos analisar o preço pago, vemos a transação como positiva à medida em que incrementa o portfólio da Boa Vista”, disseram os analistas Marcelo Santos e Gabriel Menezes, do JPMorgan.

Boa Vista ainda está atrás da Serasa Experian

A Boa Vista tem como principal concorrente a Serasa Experian. No entanto, está bem atrás da rival: estimativas de bancos de investimento no ano passado eram de que, em novembro, a empresa tinha 2 milhões de usuários cadastrados nos serviços gratuitos de seu site. Naquele mesmo trimestre, a Serasa chegou a 56 milhões deles no País.

Um dos principais negócios da anglo-irlandesa Experian, a Serasa se beneficia, na corrida dos birôs, da maior capacidade de investimento de sua controladora. Ainda assim, a Boa Vista, que opera apenas no Brasil, confia no crescimento através da tecnologia para se movimentar com agilidade e fazer frente à rival.

“Apesar de o nosso principal concorrente ter quatro vezes o nosso tamanho, hoje a Boa Vista está muito à frente em inteligência analítica”, diz Gardel. A empresa pretende aumentar a aposta: segundo ele, está em estudo um centro de excelência em análise de dados, que deve ser lançado em breve. “Não nos preocupamos, nesse momento, com tamanho da companhia, porque em grandes clientes disputamos 50 a 50.”

Outras aquisições estão no radar da Boa Vista

Para ganhar espaço em outras pistas, a Boa Vista continua de olho em possíveis aquisições, e segundo o CEO, 23 empresas estão na mira. Por enquanto, os recursos do IPO, em que o birô captou R$ 1,3 bilhão, serão a principal fonte de financiamento, mas a empresa não descarta emitir dívidas no futuro.

“A Boa Vista é uma empresa muito pouco alavancada, então temos espaço para lançar uma debênture, ou ir a mercado e captar financiamentos”, afirma. No terceiro trimestre de 2019, a dívida líquida da Boa Vista era de 3,4 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado.

A transação entre Boa Vista e Konduto ainda depende de aprovação pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 11/03/2021, às 17:52:42.

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