Para reaver credibilidade, IRB aguarda investigação e vai repaginar conselho

Para reaver credibilidade, IRB aguarda investigação e vai repaginar conselho

Aline Bronzati, Fernanda Guimarães e André Vieira

02 de abril de 2020 | 12h08

Passado um mês do episódio que desencadeou a crise de credibilidade sem precedentes e a queda de sua alta cúpula, o IRB Brasil Re deve divulgar nas próximas semanas o resultado das investigações internas sobre a antiga diretoria, apurou o Estadão/Broadcast. Além dessas informações, a nova gestão pretende, de acordo com fontes, repaginar o Conselho de Administração e também a diretoria como uma forma de iniciar o trabalho de recuperação da imagem – muito arranhada – do líder do mercado de resseguros no País.

Para capitanear as investigações sobre os episódios que culminaram na saída da antiga diretoria, o IRB contratou o escritório de advocacia Felsberg e a firma de auditoria KPMG, apurou o Estadão/Broadcast. O ponto de partida será justamente o caso envolvendo a Berkshire Hathaway, do megainvestidor Warren Buffett, depois de os diretores demitidos terem espalhado a informação de que a companhia norte-americana teria aumentado sua participação societária no IRB. O Estadão/Broadcast apurou que, a depender dos achados durante a varredura, a investigação poderá ter seu escopo ampliado. Tanto Felsberg quanto KPMG, procurados, não comentaram a informação de sua contratação.

Quem está à frente da missão é o economista Antonio Cássio do Santos. Conhecido da área de seguros, ele deixou a seguradora italiana Generali após quase 5 anos para assumir a cadeira da presidência do Conselho de Administração do IRB. Ocupará ainda, de forma interina pelo prazo de um ano, a presidência executiva. Ao seu lado, tem Werner Suffert, vindo da BB Seguridade, para tocar a área de Finanças e Relações com Investidores. Santos conhece bem o negócio visto que já integrou o colegiado do IRB, quando o Banco do Brasil ainda detinha uma fatia do ressegurador.

O primeiro movimento feito no IRB, após a troca da alta cúpula, foi a destituição da vice-presidente de riscos e de conformidade do ressegurador, Lúcia Maria da Silva Valle, última diretora estatutária que ainda ocupava a cadeira desde a eclosão da crise. Para seu lugar, Santos trouxe seu braço direito, o ex-Mapfre Wilson Toneto. Até então, ele tocava a Líder, responsável pelo DPVAT. Ambos atuaram juntos na seguradora espanhola, quando Santos ajudou a selar o casamento com o Banco do Brasil, em 2011.

Com mais tempo para definir os planos, por conta das mudanças regulatórias provocadas pelo coronavírus, a diretoria do IRB está debruçada sobre a proposta da administração que será enviada para aval dos acionistas na assembleia, adiada como tantas outras devido à pandemia. Dentre as mudanças, está a seleção dos novos conselheiros. Como uma corporation, de capital pulverizado, a nova diretoria poderá influenciar na mudança de metade das cadeiras do conselho. Além disso, outro desejo é pedir a bênção para aumentar a diretoria estatutária, atualmente com três assentos.

Ontem, o IRB anunciou as renúncias de Maria Elena Bidino, que era membro efetivo do Conselho de Administração, e de Oswaldo Mário Pêgo de Amorim Azevedo, membro suplente do órgão

Antes de encarar os acionistas, o IRB quer ter em mãos o resultado da investigação. Ela trará as primeiras evidências da investigação, iniciada há duas semanas, para apurar os fatos que resultaram na queda do então presidente da companhia, José Carlos Cardoso, e o vice-presidente financeiro, Fernando Passos. A expectativa é ter algum material nas próximas três semanas. Em uma tentativa de gerar fluxo de notícias positivas para as ações do ressegurador, impactadas pelos questionamentos da gestora carioca Squadra, executivos da companhia espalharam boatos envolvendo um possível aumento de participação societária da empresa de Buffett. Eles confirmaram tais informações, inclusive, em teleconferência com analistas de mercado.

A varredura nos eventos recentes poderá explicar apenas parte do complexo novelo que colocou o IRB em xeque no mercado. Vencida essa missão, a companhia terá de provar a investidores e analistas que seus números são confiáveis. Isso porque desde que o ressegurador foi colocado contra a parede pela Squadra, o mercado passou a se debruçar com mais afinco sobre os resultados da companhia, olhando linha a linha os itens apontados como recorrentes e não-recorrentes, que são os extraordinários e não fazem parte do dia a dia do negócio.

A formação do novo conselho pode ser importante nesse processo. A recém-empossada administração do IRB contratou uma empresa de headhunting para selecionar candidatos como novos membros independentes.

Para a Amec, associação que representa acionistas minoritários, e se posicionou sobre o caso, o novo colegiado será fundamental. “Quando se trata de uma empresa de capital diluído, na qual não está presente a figura de um controlador que exerça o papel de indicação majoritária dos representantes do board, o processo de formação dos conselhos passa a ser essencial para que eventuais conflitos sejam mitigados”, disse em carta, assinada pelo presidente da entidade, Fábio Coelho.

Depois de passar por um processo de privatização que durou anos, o IRB estreou na bolsa em 2017 e assumiu uma postura de “banco de investimento”, com festas luxuosas e extravagâncias, sustentados por resultados crescentes e retorno bastante superior ao de seus pares, segundo um especialista do setor. A abertura de capital foi, inclusive, o passaporte para o ressegurador se tornar conhecido entre os investidores pessoas físicas. Agora, é também seu desempenho no mercado – cujo termômetro serão as ações da nova gestão para recuperar a imagem da companhia -, que a fará superar o que deve ficar marcado como o maior abalo em suas oito décadas de história.

Notícia publicada no Broadcast no dia 01/04/2020, às 14:55

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