Participação de empresas do setor de saúde na B3 mais que dobra em dois anos

Participação de empresas do setor de saúde na B3 mais que dobra em dois anos

Luísa Laval

09 de novembro de 2021 | 05h20

Notredame intermédica fez 14 aquisições desde 2020    Foto: Aline Bronzati/AE

O crescimento do interesse pelo setor de saúde se traduz também nas cifras da B3: com uma capitalização de mercado em torno de US$ 65 bilhões no Ibovespa, o setor representou 6,7% da bolsa brasileira nos últimos 12 meses (até setembro), período em que a B3 acumulou valor superior a US$ 961 bilhões. A participação é mais do que o dobro da registrada em 2019 (2,5%) e mais do que o triplo da de 2016 (1,9%).

Os dados são do Panorama do Setor da Saúde, relatório elaborado pela RGS Partners, butique de M&A especializada em middle market (transações entre R$ 50 milhões e R$ 500 milhões).

Mas o setor de saúde na bolsa brasileira ainda é menos representativo do que em outros mercados, como os EUA. Na Nasdaq, a participação das empresas de saúde nos últimos 12 meses foi de 8,8% (de um total de US$ 23,8 trilhões) ante 8,7% em 2020. Essa fatia chegou a representar 14,8% em 2016.

Para Renato Stuart, sócio-fundador da RGS Partners, o crescimento recente do setor se deve a um conjunto de razões: maior quantidade de ofertas públicas, tanto iniciais (IPOs) quanto subsequentes (follow on), permissão para investimento estrangeiro nas empresas a partir de 2015 e disputa por fusões e aquisições (M&A).

“Hoje em dia, quando você pergunta para qualquer fundo de private equity onde quer investir, ele diz que é no setor de saúde. É uma questão demográfica: o Brasil, de fato, será um país que vai envelhecer mais rápido, e ainda tem uma taxa de penetração de saúde privada baixa. Com a possibilidade de entrada de capital estrangeiro, cada vez mais fundo se estuda o setor, e aumenta a competição saudável entre os concorrentes”, afirma.

A RGS mapeou que só neste ano empresas do setor captaram US$ 4,943 bilhões, entre seis IPOs e três follow ons. A maioria delas, de acordo com o Stuart, com a participação de algum private equity.

Ele diz que “antigamente o setor de saúde era o ‘patinho feio’ dentro dos bancos: ninguém queria cobrir e havia poucas transações”. Mas, ele acrescenta, “hoje o setor é um dos principais sob a ótica de fusões e aquisições. De 2019 em diante, a penetração do setor aumenta, e essa representatividade só tende a aumentar”.

Julian Tonioli, sócio da consultoria Auddas, avalia que ainda há grande potencial para os planos de saúde ampliarem a penetração no País. “Tivemos o crescimento nos últimos anos da penetração de planos de saúde de maneira geral no Brasil: saímos de perto de 40 milhões para perto de 47 milhões de brasileiros com planos de saúde nos últimos dois anos. É um crescimento relevante, mas ainda há muito espaço para crescimento, considerando a população economicamente ativa”, aponta.

Fusões e aquisições

O levantamento da RGS também analisou 34 das 60 transações de fusões e aquisições (foram consideradas as que possuem informações públicas) registradas no setor de saúde desde o início de 2021. Somadas, as que tiveram valor divulgado superam a marca de US$ 12,5 bilhões.

Dessas, 19 ocorreram entre julho e setembro, o que tem mostrado um aquecimento ainda maior do setor de saúde. “Se continuarmos nesse ritmo, ao que tudo indica, teremos um ano de recorde”, afirma o sócio da RGS. Até então, o ano com o maior número de transações no segmento foi o de 2019, com um total de 73 M&As.

Entre as companhias que mais foram às compras estão a Rede D’Or, que desde 2020 realizou 18 transações, seguida por NotreDame Intermédica, com 14; Dasa, com 11; e Hapvida, com 10.

Segundo Stuart, investidores continuam de olho em transações que envolvam ampliação e desenvolvimento de serviços médicos. “Temos visto muita gente apostando no Brasil em telemedicina e primeiro atendimento, para conseguir montar algo rentável e que se consiga ter uma medicina mais preditiva”.

Ele espera que haja grande volume de investimentos em tecnologia, com aprimoramento de gestão de dados e unidades. “Há procura por soluções para processos internos, protocolos e automação dentro de hospitais. O fluxo de papel ainda é muito relevante, então tem muito a ser feito de melhoria de gestão. Por último, há coleta de dados: há muita informação disponível, mas ainda é preciso trabalhá-la e aprofundá-la”, conclui.

Para Tonioli, da consultoria Auddas, o mercado brasileiro deve observar consolidação ainda mais forte nos próximos anos, visto que tem mais espaço para crescer do que países como os Estados Unidos. “Podemos falar que o mercado brasileiro tem abaixo de 25% de consolidação, enquanto o mercado americano tem mais de 50% em torno de grandes grupos. Aqui, uma das maiores redes, a Rede D’Or, possui cerca de 50 hospitais, enquanto vemos nos Estados Unidos redes com mais de 220. Há grande espaço e muita fragmentação”, destaca.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 05/11, às 15h28.

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