Pelo menos 30 empresas se preparam para lançar ações na primeira oportunidade de 2022

Altamiro Silva Junior e Cynthia Decloedt

23 de dezembro de 2021 | 05h00

Foto: Daniel Teixeira/Estadão

A fila de empresas interessadas em abrir o capital (IPO, na sigla em inglês) no começo de 2022 está crescendo, mas boa parte delas pode não conseguir emplacar sua oferta. Depois do segundo ano de recorde em estreias na bolsa, 45 delas em 2021, banqueiros de investimento veem chance de algumas operações ocorrerem até maio ou junho do ano que vem.

Mas a incerteza política por conta das eleições, o risco fiscal em alta, a taxa básica de juros devendo logo chegar a dois dígitos e o cenário externo mais desafiador, por conta do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos)elevando juros na principal economia do mundo, devem deixar o investidor ainda mais seletivo. E o caminho até a colocação bem sucedida de um IPO, por consequência, mais tortuoso.

Há uma fila de ao menos 30 empresas querendo testar o mercado a partir do começo de 2022, como a Cantu Store, e-commerce de pneus, a rede de academias Selfit, e a Tambasa Atacadistas, que já encaminharam pedido de análise para a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), esta última com oferta de mais de R$ 2 bilhões. Há ainda nomes como a Caixa Asset, gestora de recursos da Caixa Econômica Federal, ainda sem pedido na CVM, mas também de olho em uma potencial janela, com IPO também ao redor de R$ 2 bilhões.

Outras companhias, como a rede de academias BlueFit, a Dori Alimentos e a fabricante de produtos de beleza Coty, adiaram para o começo de 2022 operações que seriam feitas entre setembro e novembro deste ano, mas tiveram que ser suspensas por conta da piora do mercado. As últimas aberturas de capital feitas no Brasil foram na primeira semana de agosto, da Oncoclínicas e da Raízen. Desde então, quando o governo começou a sinalizar que o teto de gastos não seria respeitado em 2022, os IPOs pararam.

Nos bancos de investimento o clima ainda é de incerteza sobre como vai de fato se comportar a janela de captações em 2022. Na reta final de 2021, mesmo os IPOs nos Estados Unidos, que vinham em ritmo forte, foram afetados e empresas tiveram que rever condições. Como reflexo, o Nubank, maior IPO da América Latina em 2021, precisou reduzir os preços de suas ações e ainda buscar fundos para garantir a demanda pelos papéis, a chamada ancoragem.

O quadro que a maioria desenha é de IPOs pontuais, predominância de ofertas de empresas já listadas, ou follow ons, e as companhias buscando dinheiro com emissão de títulos de dívida ou em operações privadas, com fundos de private equity, por exemplo. “Esperamos que em 2022, ano de mais incerteza e volatilidade, a gente veja arrefecimento do número de transações, especialmente de ações e dívida internacional”, afirma a presidente do UBS no Brasil, Sylvia Coutinho. Por isso, a expectativa é que as emissões de papéis como debêntures tendem a ganhar mais força. “Tem muita demanda por dívida local.”

O chefe de mercado de capitais/renda variável para América Latina do Morgan Stanley, Eduardo Mendez, espera um número menor de operações de IPOs no ano que vem, com concentração de ofertas no primeiro semestre. No terceiro trimestre, a depender do quadro que se desenha para o segundo turno, deve ocorrer uma desaceleração. Já no quarto trimestre, após a definição do candidato ganhador nas urnas, o mercado tende a ficar mais aberto, segundo Mendez.

“A volatilidade é inerente a um ciclo eleitoral”, afirma o presidente do Morgan Stanley, Alessandro Zema. Este ano, a antecipação da corrida presidencial para os últimos meses de 2021 ajudou a piorar as condições do mercado mais cedo. E teve ainda a alta da inflação, a elevação em ritmo mais intenso dos juros e o risco fiscal subindo.

Em outros anos, o processo eleitoral normalmente começa a esquentar depois do Carnaval. Assim, as empresas, que não tinham pressa em captar, colocaram as operações em espera, mas o interesse pelo IPO prossegue. “As companhias seguem se preparando para estarem posicionadas a fazerem uma oferta quando o mercado permitir”, ressalta Zema. Até porque, o processo do início ao fim para um IPO leva cerca de 6 a 7 meses.

Investidor local

O responsável pela área de banco de investimento do Santander, Gustavo Miranda, lembra que grande parte do sucesso das ofertas aconteceu tendo o investidor local na ponta compradora. Este ano, 70% das ofertas em bolsa foram distribuídas para investidores locais, que agora, diante do juro mais alto, migraram para a renda fixa. “Existe uma competição grande nesse momento por esse capital, com várias gestoras tendo aberto as portas nos últimos anos, e isso afeta a alocação de capital para ações”, diz ele.

Miranda acredita que as ofertas de ações por empresas já listadas, os follow ons, predominem na bolsa no ano que vem, diante das incertezas do mercado. “Existe cautela entre os gestores sobre como lidar com nomes novos e ofertas muito grandes”, afirma. “Em 2021, das 70 ofertas, 45 foram IPOs e achamos que esse mix vai migrar para que os follow ons sejam a maioria, talvez até o inverso disso. Vai ser um mercado muito de janelas”, prevê.

Outra aposta entre os bancos de investimento é uma possível reaproximação dos estrangeiros, já que o real está desvalorizado e as ofertas ficam mais baratas para quem tem dólar no bolso. “Nossa moeda continua barata”, salienta Miranda. “Os estrangeiros podem fazer a diferença em meio à competição com a renda fixa.”

Saques

A maior cautela por ativos de risco já está provocando uma onda forte de saques de fundos de ações e multimercados. Boa parte destes fundos são os compradores das ações em IPOs. Em apenas três meses – setembro a novembro – os multimercados tiveram saques de R$ 26 bilhões e as carteiras de ações, de R$ 11 bilhões, ambos em valores líquidos, segundo dados da Anbima.

Para fazerem caixa, os fundos precisam vender ações, aqui e lá fora. Por isso, 60% das empresas que fizeram IPO este ano nos EUA estão com preços abaixo de quando emitiram ações. “O mercado americano não está fechado como aqui, mas as operações estão saindo em volume menor”, conta o corresponsável pelo banco de investimento no Brasil do Bank of America, Bruno Saraiva.

No Brasil, as quedas das novatas na B3 superam os 60%, caso da rede de móveis Mobly e da operadora Brisanet. Outras, como a Oncoclínicas, caem na casa dos 40%. Para piorar, os papéis das novatas despencando ajudam a afastar potenciais novos investidores dos IPOs. “Voltamos a um mercado de alguns anos atrás, onde a barra (de exigências dos investidores) está mais alta”, afirma.

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 22/12, às 14h00.

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