Pessoa física abre espaço para empresas captarem via papéis incentivados

Pessoa física abre espaço para empresas captarem via papéis incentivados

Cynthia Decloedt

12 de junho de 2020 | 05h10

Debêntures de infraestrutura estão entre investimentos que tiveram recorde em 2019 FOTO SERGIO CASTRO/ESTADÃO.

Não é só na Bolsa que as pessoas físicas têm aparecido. A indústria de títulos com isenção de imposto de renda ao investidor emitidos por empresas tem dado sinais de tração desde o mês passado e, por mais que o movimento seja ainda tímido, é nele que as companhias e assessores financeiros apostam nesse momento como alternativa de funding via mercado de capitais este ano. Isso não significa que deve haver um boom de ofertas nesse mercado. A expectativa é que o volume captado por meio de debêntures de infraestrutura fique bem abaixo do recorde de R$ 33 bilhões de 2019, com papéis de prazos menores e com custo para a empresa superior aos do ano passado.

A demanda, de toda a forma, já existe e permitiu, por exemplo, que os preços das debêntures incentivadas no mercado secundário parassem de sofrer fortes oscilações. Os grandes bancos também têm contribuído para tal normalização. Ao identificarem o interesse de alguns grupos mais endinheirados, estruturaram operações dando garantia de colocação para a empresa. Esse foi o caso da emissão de R$ 800 milhões feita pela Rumo Logística e de captações de CRAs da Minerva e da JSL.

Grandes gestores continuaram investindo em debêntures sem impostos

“As pessoas físicas e os fundos que aplicam em debêntures de infraestrutura já estão no zero a zero em termos de resgates. Portanto, a atividade em mercado de capitais acontecerá nessa classe de ativos, com as incentivadas dando ritmo às emissões primárias”, disse o sócio e responsável pela área de renda fixa corporativa da XP Investimentos, Fábio Fukuda. O mesmo não ocorre com as debêntures tradicionais que tem as grandes assets como público alvo, as quais ainda estão focadas em fazer caixa para honrar resgates.

A baixa oferta de títulos incentivados este ano também ajudou a criar uma demanda represada, de acordo com o responsável por mercado de renda fixa do Bradesco BBI, Philip Searson. “As pessoas físicas que operaram em bolsa na crise, paralelamente, buscavam operações de renda fixa”, disse. Searson considera que o mercado de incentivadas não voltou a seu padrão normal de operação. Mas que as instituições financeiras têm desempenhado importante papel, provendo demanda necessária para estimular os emissores a captar.

Condições de captação se inverteram na pandemia

O diretor responsável pelo mercado de dívida global do Santander, Sandro Marcondes, diz que no fim do ano passado acreditava-se que o mercado teria alcançado um patamar de maturidade que dispensaria a necessidade de os bancos atuarem como âncoras em emissões de debêntures de infraestrutura. “Era verdade quando os fundos captavam trimestralmente, e em volumes recorde, mas isso se inverteu na pandemia”, diz.

O executivo do Santander afirma que, na fila de potenciais emissões de debêntures incentivadas, estão empresas com projetos greenfield (que partiram do zero), em fase de execução e que necessitam de recursos para seguirem com os cronogramas comprometidos. “As empresas que têm robustez de caixa para tocar seus projetos vão primeiro usar esses recursos e esperar para emitir quando as taxas se normalizarem”, afirma.

Emissões devem ter como objetivo financiamento de longo prazo

Num segundo momento, ou ao longo do segundo semestre, Marcondes diz que as emissões devem ter como objetivo o financiamento de projetos de longo prazo. Ele estima que, eventualmente, pode haver demanda do público de varejo, o que permitiria a colocação de operações com ampla distribuição, ou seja, por meio da instrução 400 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

No entanto, ele afirma que esta deve ser uma decisão um pouco mais desafiadora para as empresas, que terão de assumir a possibilidade de a taxa de referência das ofertas sofrerem alteração ao longo do processo de estruturação da emissão, por conta da volatilidade, e seu custo ficar mais elevado no momento da precificação do que o inicialmente calculado.

Fukuda, da XP, diz que, por outro lado, as emissões feitas até aqui acabam tendo um custo maior para as companhias, já que os bancos têm garantido quase que o total das operações e vendido os papéis para as pessoas físicas via mercado secundário logo após a emissão, graças as flexibilizações feitas pela CVM na instrução para colocação restrita no período da pandemia. A CVM eliminou os 90 dias de limitação para que os investidores possam vender papéis no mercado secundário e também o período de 120 dias exigidos para que a empresa conduza uma nova operação. No entanto, as travas devem voltar em agosto, estimulando as empresas a testar colocações para o varejo, pela instrução 400, de acordo com o sócio da XP.

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