Piora política já leva prospectos de IPO a considerar risco de impeachment

Piora política já leva prospectos de IPO a considerar risco de impeachment

Altamiro Silva Junior

09 de setembro de 2021 | 05h10

Jair Bolsonaro em comemoração do 7 de setembro; risco de impeachment no radar dos investidores Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A piora do ambiente político nas últimas semanas, cuja tensão se agravou no dia 7, terça, com os discursos do presidente Jair Bolsonaro contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e as eleições do próximo ano, já leva os documentos para aberturas de capital (IPO, em inglês) de várias empresas, os chamados prospectos, a considerarem o risco de impeachment. Companhias como a rede de supermercados Cencosud, a de cosméticos Coty e a de artigos esportivos e meias Lupo, que devem chegar ao mercado nos próximos meses, estão entre as que mencionam explicitamente esta preocupação entre os fatores de risco.

O prospecto da chilena Cenconsud, que entrou em análise na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) na semana passada, menciona seis vezes a palavra impeachment. “Uma potencial abertura de processo de impeachment poderia ter efeitos adversos relevantes no ambiente político e econômico no Brasil, bem como em negócios que operam no Brasil, inclusive em nossos negócios”, escreveu a empresa.

Frases como a citada acima também podem ser observadas em outros prospectos, como o da fabricante de balas e doces Dori Alimentos e da Coty, ambas com ofertas de ações que podem movimentar mais de R$ 1 bilhão cada. Os textos mencionam que Bolsonaro é investigado pelo STF e um eventual processo de impeachment pode afetar a economia e a empresa.

Outros prospectos acentuam a gravidade da situação. O da Lupo, por exemplo, alerta os investidores que Bolsonaro é alvo de dezenas de pedidos de impedimento na Câmara. Ontem, o presidente da casa, Arthur Lira (PP-AL), não mencionou a palavra impeachment em discurso e o vice-presidente, Hamilton Mourão, disse que “não há clima”, mas o risco segue no radar dos investidores.

Chances “muito baixas”

Para o diretor da consultoria de risco político Eurasia, Christopher Garman, o debate sobre o impeachment volta a ganhar força, mas com Bolsonaro ainda mantendo aprovação de 30% da população e faltando 14 meses para a eleição de 2022, não há ambiente político para afastar o presidente. Por isso, ele diz que as chances de ocorrer um impeachment permanecem “muito baixas”, embora os ruídos políticos de Brasília devam seguir afetando os mercados. A participação de apoiadores nos atos de ontem foi menor do que muitos esperavam, mas ainda assim “bastante substancial”, diz Garman.

Entre os IPOs mais recentes em análise na CVM, a rede de restaurantes Madero, do empresário Junior Durski, aliado de Bolsonaro, é um dos poucos que não mencionam explicitamente a palavra impeachment no prospecto. O documento do Madero, porém, alerta para os crescentes riscos políticos. “Não podemos estimar completamente o impacto dos desenvolvimentos políticos e macroeconômicos brasileiros e globais em nossos negócios”, escreve.

A crise política que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, entre o segundo semestre de 2015 e abril de 2016, parou as operações no mercado de capitais brasileiro. Foram 16 meses de paralisia, que só terminaram com a oferta de ações da empresa de diagnósticos Alliar, em outubro de 2016. O IPO anterior havia sido o da Par Corretora, em junho de 2015.

 

Esta nota foi publicada no Broadcast+ no dia 08/09/2021 às 17h35.

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