Podemos adicionar valor a empresas menores do Brasil, diz CEO da Bolsa de Toronto

Podemos adicionar valor a empresas menores do Brasil, diz CEO da Bolsa de Toronto

Cynthia Decloedt

27 de abril de 2021 | 11h04

Empresas brasileiras nascentes de tecnologia, energia renovável e do setor de mineração estão na mira de John McKenzie, CEO da TMX Group, que compreende as bolsas de valores canadenses Toronto Stock Exchange (TSX) e TSX Venture Exchange (TSXV). Uma prospecção está em andamento, não só no Brasil, mas também no Peru e no Chile, com o objetivo de atrair essas companhias a se listarem na TSX, onde estão empresas seniores, e na TSXV, voltada àquelas que dão os primeiros passos de listagem. As duas bolsas são responsáveis por 52% dos financiamentos tomados no mundo no setor de mineração.

Em tecnologia, McKenzie conta que estão listadas centenas de companhias do Vale do Silício e do Sillicon Wadi, o correspondente ao polo californiano em Israel. “Temos habilidade para dar funding para pequenas empresas nascentes, que não têm tamanho suficiente para se listarem em seus mercados locais”, afirma. Nas duas bolsas, a TMX Group tem mais de 3,2 mil emissores listados. A TSX é segunda maior bolsa do mundo em número de empresas listadas e a nona por valor de mercado agregado das empresas listadas.

Em conversa exclusiva com o Broadcast, McKenzie diz que há interesse em aprofundar discussões com a B3 para facilitar a listagem de companhias nas duas bolsas, como já acontece com a equivalente peruana.

Broadcast: O que trouxe a TMX Group a olhar para empresas do Brasil e outros países da América Latina?

John McKenzie: Procuramos países no mundo onde nossa proposta tenha o valor de promover empresas menores e grandes em setores que somos fortes relativamente às economias das regiões. Nossa bolsa tem um modelo único no mundo, com a TSX Venture Exchange (TSXV), um mercado júnior, e o TSX, um mercado sênior, o qual as empresas menores podem posteriormente ter acesso. No caso do Brasil, em particular, o foco que temos é em mineração, energia e energia renovável. São segmentos onde há capacidade econômica e negócios no país e temos os investidores para dar suporte a eles. Temos mais de 200 empresas no mundo que estão listadas na TSX e na TSX Ventures pelas mesmas razões.

Broadcast: Com quais empresas especificamente vocês têm conversado no Brasil?

McKenzie: Certamente o foco é no setor de mineração, já que é um dos setores em que a TSX e a TSX Venture são líderes globais em termos de financiamento. Nos últimos cinco anos, 52% dos financiamentos do setores vieram do mercado canadense e, independente de onde a empresa esteja domiciliada, os projetos são globais. Outros setores que estão em crescimento são foco, como energia e energia renovável, os quais pretendemos dar suporte. Há muita infraestrutura de financiamento que surgiu ao redor da mineração que é replicável em energia renovável. E o que temos visto no mercado canadense e sei que está acontecendo no mercado brasileiro é o fortalecimento das empresas de tecnologia e inovação. Podemos adicionar valor a um conjunto de empresas juniores que estão no Brasil e em outras jurisdições, que não encontram suporte em mercados locais. A B3 dá um suporte muito bom as empresas médias e grandes de tecnologia. Temos habilidade para dar funding para as pequenas empresas nascentes. Listamos empresas do Vale do Silício e do Sillicon Wadi, de Israel.

Broadcast: No setor de mineração, qual o potencial que enxergam no Brasil, já que não é grande o número de mineradoras brasileiras?

McKenzie: Quando falamos em dar suporte a empresas de mineração no Brasil não são necessariamente às empresas brasileiras, mas aquelas que tem projetos no Brasil, como a Aura Minerals, que é listada no Brasil e no Canadá e tem projetos no Brasil.

Broadcast: Qual é o perfil, tamanho, das pequenas empresas de tecnologia que fariam sentido estar na bolsa canadense?

McKenzie: Consideraria aquelas que não são grandes o suficiente para serem listadas no Brasil. Há dois tipos de oferta de ações que podem ser feitas na TSX Venture. A tradicional oferta inicial de ações, que normalmente é apoiada por bankers, que entram ancorando a operação por meio de um aporte privado (private placement). É uma combinação de um private equity em uma bolsa pública. O outro caminho muito comum é chamado de Spac (Special Purpose Acquisition Company). Na TSX Venture podemos ter Spacs muito pequenos, é um ótimo veículo para trazer pequenas empresas de tecnologia à bolsa. Temos atualmente na Venture Exchange 135 Spacs.

Broadcast: Quais são as vantagens da bolsa canadense para as companhias?

McKenzie: O TSX, o mercado sênior, é muito similar às bolsas Nasdaq, Nyse e a B3. Mas temos entre 600 e 700 empresas que são muito pequenas para a TSX e para a B3, que estão na TSX Venture, onde o modelo de regulação é mais adequado, com as publicações regulares mais fáceis, exigências de compliance mais leves. Por exemplo, no setor de mineração, podemos levar empresas pequenas à bolsa sem que tenham ainda receita, na fase de exploração. Um dos benefícios importantes é que ao se listarem como júnior, à medida que captam mais recursos e crescem podem ser graduadas ao mercado sênior, o TSX. Desde que começamos a fazer isso, já chegamos a 700 companhias que se graduaram a companhias seniores. E as empresas que forem listadas no Canadá poderiam ser listadas também na B3. Adoraríamos ver empresas que fossem listadas na B3 e na TSX. E podemos realmente ter uma parceria para que as empresas tenham acesso a capital não só no Brasil, mas também à América do Norte, por meio da bolsa canadense.

Broadcast: Vocês já têm mapeado um número de empresas no Brasil que são potencialmente elegíveis às bolsas canadenses?

McKenzie: Ainda não posso dizer a respeito de novos, mas poderemos construir um “pipeline” no Brasil e há um esforço local para isso. Globalmente, identificamos 500 companhias e metade são estrangeiras.

Broadcast: Vocês já tem algum acordo de listagem dupla com a B3?

McKenzie: Não temos um acordo formal, nossos times estão trabalhando e fazemos alguns trabalhos conjuntos de promoção das bolsas. Na verdade, não é preciso haver um acordo formal, porque as duas bolsas podem usar suas próprias regras de listagem para suportar as companhias. Mas se a B3 estiver interessada em fazer algo além disso, poderíamos ter algo como já fazemos com algumas bolsas em que damos suporte para ficar mais fácil para as empresas se listarem. Por exemplo, temos um relacionamento com o Peru em clearing, para que seja mais fácil o processo de liquidação das ações quando são listadas em ambas as bolsas. No Chile, eles têm um mercado júnior e temos um acordo pelo qual, quando as companhias atendem os critérios de listagem em uma bolsa, já estão automaticamente permitidas em outra. Esses são exemplos. Mas acho que o mais valioso para investidores e para as companhias é a conexão entre as clearings das bolsas. Além do Peru, temos um acordo em clearing com a DTCC, empresa de clearing norte-americana. Se então as companhias no Brasil escolherem listar nas nossas bolsas, os investidores americanos poderão negociar suas ações, por conta do acordo de clearing com a DTCC.

Broadcast: Existem conversas com a B3 nesse sentido?

McKenzie: Sempre temos discussões com a B3 e essa é uma área que estaremos abertos a conversas.

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 23/04/2021 às 08:00

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