Potenciais compradores da Enel Goiás consideram negócio caro

Potenciais compradores da Enel Goiás consideram negócio caro

Wilian Miron e Ludmylla Rocha

08 de julho de 2022 | 05h21

Setor tem poucas oportunidades de fusões e aquisições  Foto: Marcelo Min/Estadão

Acossada pelo governo de Goiás, que cobra melhoria na qualidade dos serviços de distribuição de energia no Estado e sob o risco de perder a concessão, a italiana Enel tenta vender a Enel Goiás (antiga Celg-D). Nos próximos dias, recebe propostas pela distribuidora, apenas cinco anos após comprá-la num leilão de privatização por R$ 2,1 bilhões.

Para as grandes empresas do segmento, é uma oportunidade, num setor com poucas oportunidades de fusões e aquisições e no qual as principais privatizações já foram feitas. Por conta disso, há especulações de que o ativo possa interessar a Energisa, Equatorial, Neoenergia, EDP e CPFL.

Preço pedido chegaria a R$ 10 bilhões

Executivos de companhias que avaliaram a concessionária e que aceitaram falar com o Broadcast Energia sob a condição de anonimato, dizem, porém, haver fatores que jogam contra o negócio: o alto preço pedido pela Enel, que chegaria a R$ 10 bilhões, e a pouca evolução desde a época da privatização. Apesar de ter recebido investimentos bilionários desde que a Enel assumiu o controle, a qualidade dos serviços prestados segue entre as piores do País.

Passivos judiciais também são entrave

Segundo um alto executivo de uma das interessadas, o ativo é complicado e, mesmo tendo sido olhado com cuidado tanto na privatização de 2016 quanto agora, “não mudou muita coisa”. Há dois grandes problemas associados ao negócio, diz ele: os passivos judiciais e o risco de novos investimentos em expansão – algo difícil de precificar. Em que pese o interesse em derrubar o preço do ativo, outro executivo de uma potencial compradora diz também ver o negócio como difícil.

Antes da privatização a distribuidora pertencia à Eletrobras, que tinha 50,93% do capital, e ao governo de Goiás, dono 49%. Segundo o Ranking de Continuidade da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), lista que compara das distribuidoras quanto à continuidade do fornecimento de energia elétrica, de 2021 – o mais recente disponível -, a Enel Goiás é a terceira pior entre as 29 concessionárias de grande porte, com mais de 400 mil unidades consumidoras avaliadas. Em 2016, ano em que foi adquirida pela Enel, ela ocupava a trigésima segunda posição, a última.

Governo goiano tem criticado empresa

Essa situação tem servido ao governador goiano, Ronaldo Caiado (União Brasil), que tem feito reiteradas críticas à companhia. Em ano eleitoral, ele fala em suas redes sociais, inclusive, que deseja a saída da Enel do Estado, e faz críticas reiteradas ao processo de venda da distribuidora.

A acidez de Caiado, segundo as fontes, só aumenta a fritura da Celg-D e dificulta que sejam feitas propostas. “Ele questiona a questão da qualidade, mas a Enel fez muitos investimentos lá nos últimos anos – e ainda assim a situação é complicada”, disse uma das fontes. Procurada, a Enel não comentou.

As dificuldades listadas pelos executivos são semelhantes às que afastaram as empresas do leilão realizado em 2016. À época, o valor pedido pela concessão era inicialmente de R$ 2,8 bilhões, mas foi revisado para R$ 1,7 bilhão após não aparecer nenhum comprador no certame.

Num segundo leilão, a Enel foi a única proponente e ficou com a empresa a após oferecer um lance de R$ 2,1 bilhões, 28% maior do que o valor mínimo.

Distribuidora atende 3,27 milhões de unidades consumidoras

Das empresas já apontadas pelo mercado como potenciais compradoras, a Energisa e a EDP poderiam obter sinergias com operações em locais próximos. A primeira tem forte atuação no Centro-Oeste, com operações no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Já a EDP adquiriu no ano passado a Celg-T, do segmento de transmissão.

A Equatorial e a Neoenergia, que detêm uma concessão em Brasília, são reconhecidas no mercado por sua capacidade de reestruturar ativos deficitários, mas fizeram grandes movimentos no mercado recentemente. Já a CPFL tem a seu favor o suporte do grupo chinês StateGrid, mas pessoas próximas à companhia disseram que veem como “difícil uma investida para comprar a Celg-D”.

Caso uma dessas empresas faça uma proposta pelo ativo, agregará 3,27 milhões de unidades consumidoras, entre residências, comércios e indústrias. A empresa atende 237 municípios numa área com mais de 337 mil quilômetros quadrados (Km²).

 

Esta nota foi publicada no Broadcast Energia no dia 07/07/22, às 16h47

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