Presença do governo e CNI em evento com negacionistas causa comoção na comunidade ESG

Presença do governo e CNI em evento com negacionistas causa comoção na comunidade ESG

Cristiane Barbieri

27 de agosto de 2021 | 05h15

Foto: Tiago Queiroz/Estadão

A presença de autoridades do governo em um evento com negacionistas do aquecimento global causou indignação entre os profissionais que trabalham com o tema ESG (melhores práticas em meio ambiente, sustentabilidade e governança, na sigla em inglês). Principalmente por ter acontecido poucas semanas após a divulgação do mais contundente relatório do IPCC (painel de mudanças climáticas da ONU) e às vésperas da COP-26 (reunião da entidade que trata do mesmo tema).

Organizado pelo Instituto Villas-Boas, que tem o apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e cujo logotipo aparece no evento, o webinar prometia o vice-presidente, Hamilton Mourão, na abertura, e terá hoje o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas. Entre os palestrantes está o meteorologista Luiz Carlos Molion, que diz que o “alarmismo sobre a Amazônia não tem base científica”, as “mudanças climáticas não são causadas pelo homem” e “há resfriamento global, não aquecimento”. Também o geólogo Geraldo Lino, que classifica o aquecimento global de “fraude” e o ambientalismo de “máfia”.

 

Brasil vive momento de questionamentos pelo clima

Segundo Fábio Alperowitch, sócio da Fama Investimentos e um dos mais respeitados defensores das práticas ESG, “dar voz institucional, com o peso das indústrias, do vice-presidente da República e de um ministro altamente relevante em um evento só com negacionistas é muito bizarro.” Ainda mais, diz ele, no momento em que todos olham para o Brasil, dada a relevância do País e “com tudo o que este governo tem feito contra a agenda do clima” e com a proximidade da “COP das COPs”. Nas redes sociais da Alperowitch, dezenas de profissionais da área fizeram comentários negativos sobre o webinar.

A CNI disse que, desde 2019, apoia o Instituto Villas Bôas em seu objetivo de estimular a inclusão social de portadores de doenças raras com tecnologias assistivas e políticas públicas, bem como de debater e formular estratégias de desenvolvimento do País e para a indústria de defesa nacional”. A entidade também diz acreditar no livre debate de ideias e propostas para temas que afetam as questões estratégicas para o País. “A entidade não tem ingerência na gestão do Instituto Villas Bôas. Também não participa da escolha de nomes nem da definição da programação dos eventos realizados pela instituição”, escreveu a CNI, por email. A confederação também afirmou que sustentabilidade, meio ambiente e clima são assuntos que integram a pauta da indústria, que participará da COP26 e diz apoiar a regulamentação do mercado de carbono no Brasil.

Já o Ministério da Infraestrutura disse que Freitas foi convidado pelo general Villas Boas para expor o trabalho da pasta, que tem como “premissa aliar o provimento da infraestrutura com o respeito ao meio ambiente” e que será exposto o trabalho feito “em convênio firmado com a entidade governamental alemã Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ), com a inclusão de variáveis das mudanças climáticas na elaboração de projetos de infraestrutura e na concepção da política pública”. A vice-presidência da República não retornou até a publicação desta nota.

Esta nota foi publicada no Broadcast+ no dia 26/08/21 às 15h11.

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