Privalia faz nova tentativa de IPO em momento de múltiplos mais baixos para o setor

Privalia faz nova tentativa de IPO em momento de múltiplos mais baixos para o setor

Talita Nascimento e Cynthia Decloedt

15 de julho de 2021 | 15h50

O ano de 2020 foi de valorização das empresas de  comércio eletrônico Foto: Daniel Teixeira/Estadão

A Privalia, outlet online de vestuário e utilidades, partiu para uma segunda tentativa de emplacar uma oferta primária de ações (IPO, na sigla em inglês), com pretensão de captar R$ 1,53 bilhão, quase a metade do que vislumbrou no ano passado. A possibilidade de alta do juro nos Estados Unidos e uma reprecificação das empresas de e-commerce e tecnologia justificam a revisão do tamanho da oferta.

O ano de 2020 foi de muita valorização das empresas de comércio eletrônico, explica o analista da Eleven Financial, Eric Huang. “Quando olhamos o setor de e-commerce, ele é positivo em termos de crescimento. Há alguns setores, porém, mais consolidados, como o de eletrodomésticos. A Privalia é um outlet digital, mais voltado para ofertas do que para um segmento específico. Assim, existe a visão de que possa concorrer com grandes marketplaces mais genéricos”, diz.

Ele observa ainda que a segunda tentativa da varejista chega em uma janela de múltiplos mais baixos. “Várias ofertas que tentaram sair anteriormente e que voltam agora, vêm em múltiplos mais baixos”, diz. Nas ofertas de ações entre abril e maio, várias tiveram seu valor reduzido entre 15% e 20%, sem contar um número expressivo de empresas que suspendeu ou cancelou seus IPOs já com o processo correndo.

A projeção de valor de várias empresas do e-commerce e plataformas de markeplace tem se baseado no Gross Merchandise Value (GMV), considerada uma das métricas mais importantes para esse segmento, medindo a quantidade financeira de transações que ocorrem em um período específico de tempo nesse ambiente. O efeito disso tem sido uma elevada valorização desses ativos em meio às expectativas de que o modelo de vendas virtuais seja o vencedor no futuro.

A sócia da butique de M&A Setter, Judith Varandas, comenta que o foco no GMV, porém, pode distorcer a visibilidade do real valor do ativo, uma vez que representa uma promessa de crescimento de receita que para entregar rentabilidade depende também de gestão. Varandas acrescenta que um dos pontos mais relevantes para os consumidores neste momento é a entrega, que envolve uma boa gestão e pode comprometer a receita.

Além disso, a especialista afirma que, no caso dos marketplaces, o GMV contabiliza um movimento com a venda de mercadorias de terceiros, ou seja, sobre as quais as varejistas têm um porcentual de rentabilidade muito menor. “Muitos investidores estão se esquecendo de olhar a rentabilidade desses ativos”, diz.

“Existem algumas bolhas no marketplace, com empresas, especialmente as mais novas, surfando nessa onda do GMV”, acrescenta. Varandas observa ainda que tal crença na capacidade do GMV adicionar valor à plataforma faz inclusive com que algumas optem por itens de maior preço e não necessariamente de maior rentabilidade.

Ela lembra do caso da Netshoes, que chegou à bolsa norte-americana com sua operação deficitária, mas com uma promessa de vendas. “Alguns investidores entram na oferta para sair rapidamente, então o que vale a pena é entrar numa empresa que o valuation seja alto, sem se preocupar com a rentabilidade futura”, afirma.

Na bolsa brasileira, a B2W, que agora uniu as operações com a empresa-mãe Americanas, sofreu críticas na última temporada de balanços, quando apresentou alta de vendas de 90%, na comparação com o mesmo período do ano passado. O avanço foi forte, mas veio a custo da lucratividade. De janeiro a março, a empresa viu seu prejuízo subir mais de 50%, para R$ 163,6 milhões.

Por outro lado, existe uma corrida no mercado de e-commerce e especialmente das plataformas de marketplace. Na visão do analista da Guide, Henrique Esteter, se por um lado a maior quantidade dessas empresas pode pulverizar o tráfego de consumidores, por outro, o mercado ainda tem muito a crescer. “É um mercado muito inexplorado. O marketshare dessas empresas é pequeno frente à demanda”, afirma.

Por isso, essa corrida faz com que as empresas bem desenvolvidas, especialmente no setor de vestuário, como Dafiti – que foi sondada para aquisição pela Renner – e a Privalia tenham seu preço valorizado. “As que não estavam preparadas para o comércio digital na pandemia, agora tentam tirar o atraso”, diz.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 14/07/2021, às 16h01.

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