Privatização da Emgea, empresa de ativos problemáticos, já atrai interessados

Privatização da Emgea, empresa de ativos problemáticos, já atrai interessados

Cynthia Decloedt

18 de dezembro de 2020 | 05h35

O modelo de venda da Empresa Gestora de Ativos do Governo (EMGEA), que faz a gestão de bens e direitos da União e entidades federais, deve ser definido até o meio do ano que vem. Os assessores financeiros escolhidos para conduzir o processo têm conversado com eventuais interessados para alinhar a venda aos interesses do governo. O objetivo, é claro, é tirar o maior retorno possível. Como a empresa concentra basicamente dívidas e garantias relativas a situações de inadimplência envolvendo a União – e que foram repassadas pela Caixa Econômica Federal – é com as especialistas no chamado “crédito podre” que a troca de opiniões tem acontecido.

Interessadas. Algumas dessas empresas nacionais e estrangeiras já estão olhando para a Emgea. Entre elas, as brasileiras Jive e a Enforce, do BTG Pactual, e as estrangeiras Cerberus, Lonestar, Oaktree e Apollo. As empresas não comentaram.

Oportunidade? O último grupo, que têm vários bilhões de dólares captados e sob administração, pode ser uma oportunidade de fincar pé um pouco mais fundo no mercado brasileiro. Alguns namoram o País há vários anos e têm feito aquisições pontuais de empresas ou carteiras de crédito com problemas.

Pedras no caminho. Nas discussões sobre o modelo de venda da Emgea, está a possibilidade de ser levada inteira por um único interessado ou fatiada. O mais complicado será decidir como vender – ou não – o Fundo de Compensação de Variações Salariais (FCVS) que faz parte dos ativos da Emgea. O FCVS foi criado na década de 1960 para dar suporte ao crédito habitacional brasileiro, subsidiando aos bancos financiadores o impacto da inflação nas prestações aos mutuários. Dada a perda salarial no ciclo de hiperinflação, muitos não conseguiam honrar seus compromissos.

E rolando… O FCVS tem um tamanho da ordem de bilhões e, apesar de existir há décadas, o cronograma de habilitação dos créditos que vai até 2027. Além de instituições financeiras, os credores são family offices ou partes relacionadas a alguns dos bancos que quebraram no País. Um questionamento aqui seria se a venda dessa carteira, com desconto, faria sentido, já que a União tem orçamento previsto para o cumprimento do pagamento desse passivo que será cobrado pelo seu novo dono.

E rolando… Outra questão referente ao FCVS é que a Emgea tomou dinheiro do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) para comprar os ativos da Caixa Econômica Federal que estão sob sua gestão agora. Para facilitar a venda, a ideia é que a Emgea liquidasse essa dívida com o FGTS.

Salva. A Emgea entrou no programa de desestatização do governo federal em agosto do ano passado. Em seu site, a Emgea diz que a inclusão aconteceu diante da avaliação de que ficaria sem caixa no início deste ano. Graças ao programa de aceleração de venda de suas carteiras de imóveis, não chegou a ficar deficitária. Houve um salto para R$ 12 milhões no volume de recursos arrecadados com a venda de imóveis no primeiro semestre. No primeiro semestre de 2019, haviam sido de R$ 3 milhões ao mês arrecadados.

Ainda em estudo. Procurada, a Secretaria Especial de Desestatização, Desinvestimentos e Mercados, do Ministério da Economia, informou que os estudos estão em curso. Também que foi o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que contratou a Ernst & Young, em consórcio com a Tauil e Chequer Advogados; Pricewaterhousecoopers Corporate Finance & Recover Ltda., em consórcio com a Pricewaterhousecoopers Serviços Profissionais Ltda. e com a Loeser, Blanchet e Haddad Advogados; e a Riza M&A Assessoria Empresarial LTDA., em consórcio com a Madrona Sociedade de Advogados.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.