Proposta de AES Corp pode agradar mais ao BNDES

Proposta de AES Corp pode agradar mais ao BNDES

Fernanda Guimarães e Wellington Bahnemann

26 de julho de 2020 | 05h00

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tem em mãos duas propostas para definir a venda da sua participação de 28,41% na AES Tietê. Além da oferta da Eneva, que prevê troca de ações e uma parcela em dinheiro, o banco de fomento recebeu também um lance da AES Corp, atual controladora da geradora hídrica com 24,35% do capital total. Segundo apurou o Estadão/Broadcast, a elétrica americana está propondo o pagamento de R$ 17,15 por ação em dinheiro, em linha com o preço do papel e abaixo da oferta implícita de R$ 18,88 apresentada pela Eneva. Procurada, a AES Corp informou que não se manifestaria por enquanto.

Por envolver o pagamento de 100% em dinheiro, a oferta da AES Corp pode ter mais chances de agradar o BNDES, que vem buscando reduzir a sua participação no mercado de capitais. Apesar de ter elevado o valor total da sua oferta de R$ 6,6 bilhões para R$ 7,5 bilhões, a Eneva reduziu de R$ 2,78 bilhões para R$ 727,89 milhões a parcela a ser paga em dinheiro. Tal condição pode frustrar os acionistas da AES Tietê, sobretudo os minoritários que já eram contrários ao negócio durante o primeiro embate entre a elétrica brasileira e americana em março/abril.

A proposta apresentada ontem pela Eneva para aquisição de 100% das ações da AES Tietê – e não apenas a fatia do BNDES – prevê uma troca correspondente a 0,06539522 novas ações ordinárias de emissão da geradora térmica para cada ON ou PN da AES Tietê ou de 0,32697609 por unit, totalizando 130.498.292 novas ONs de emissão da Eneva. Além disso, prevê também mais uma parcela em dinheiro no valor de R$ 727,89 milhões, equivalente a R$ 0,36 por cada ação ordinária ou preferencial ou R$ 1,82 por Unit.

De acordo com uma fonte próxima ao banco de fomento, uma avaliação muito preliminar considerou a nova proposta da Eneva “realmente pior que a primeira”. Além de prever o uso de menos caixa, o valuation da elétrica brasileira também ficou mais elevado. Na ocasião, o preço das ações da geradora térmica estava em R$ 42,75. Agora, estão em R$ 52,17 (preço de fechamento de ontem), o que explica a elevação do valor total da oferta mesmo com a redução da parcela em dinheiro. “O valor da oferta foi mais alto, mas precisa de uma parcela maior de dinheiro”, argumentou a fonte que falou ao Estadão/Broadcast.

Para a elétrica brasileira, o negócio apenas faz sentido se conseguir incorporar a AES Tietê, ou seja, não basta ficar apenas com a fatia do BNDES, mas sim com o controle do ativo. Por isso, a Eneva vem buscando o endosso do banco para ter condições de estender a sua oferta para os demais minoritários. A proposta de pagamento em dinheiro da AES Corp, que, com este movimento, tenta assumir mais de 50% do capital total da AES Tietê e evitar novas ofertas hostis, pode ser mais sedutora para o BNDES.

Para convencer o BNDES, a Eneva aposta que a nova empresa originada da combinação de ativos com a AES Tietê seria uma plataforma de crescimento muito mais interessante para o banco de fomento e os demais acionistas minoritários. Além dos ganhos de sinergia na fusão dos dois negócios e da diversificação do parque gerador, que passaria a contar com hidrelétricas, eólicas, usinas solares, usinas a gás natural e a térmicas a carvão, a elétrica brasileira argumenta que a nova geradora teria muito mais liquidez, o que poderia facilitar um possível desinvestimento no futuro pelo BNDES.

Com as duas ofertas em mãos, o BNDES terá que se decidir qual formato é mais atrativo para os seus planos de redução de participação no mercado de capitais. Uma segunda fonte ouvida pelo Estadão/Broadcast disse que há a expectativa de que o banco de fomento já se manifeste sobre as ofertas na próxima segunda-feira, dia 27. A proposta da Eneva tem validade por 30 dias.

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